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PREÇO DE BANANA

PUBLICADO EM: 08/02/2007
JORNAL INFORME

Quem não conhece o seu Mezomo?… Mais especificamente seu Milton Mezomo, com seus dois metros e meio de bigodes para cada lado, que apesar de sua luta diária contra o problema de coluna, nunca deixa de realizar boas obras e protagonizar pensamentos e frases, no mínimo intrigantes… Julgo ser um filósofo não compreendido pela sociedade…

Sua cabeça, assim como o corpo, nunca pára: sempre tem uma idéia nova para resolver os problemas do cotidiano de um exímio carpinteiro e sua família, contando-as com aquele sotaque de descendente de italiano inconfundível, idéias como afixar dois vaga-lumes na aba do boné para plantar grama à noite, amarrar um tijolo em cada ponta do chale para não resvalar do pescoço das mulheres chiques… Ou ainda, quando alguém estiver cochilando no sofá da sala, basta prender um chinelo na mão do preguiçoso (se for uma imitação de Rider, melhor…) e em seguida, fazer cócegas no nariz ou orelha, simulando uma mosca… O ser dormente acorda assustado e tenta acertar a mosca com a mão, que na ocasião terá mais um contra-peso a seu favor, o chinelo, que também pode ser substituído por um tijolo maciço… E inúmeras outras idéias que só o seu Mezomo tem e o espaço desta coluna seria insuficiente para narrá-las todas.
Certo dia, passou em frente à sua casa um caminhão, desses que nos tiram da cama às onze e meia da madrugada de domingo com aqueles auto-falantes muito mal regulados e uma voz de “taquara rachada” gritando: “Óia a fruita!… Óia a fruita!… Dona Maria, traga a bacia que hoje tem melancia!…” Na ocasião, a promoção era de banana: cinco quilos por dois reais.
O nhô Bigode chamou sua filha mais nova, deu-lhe dois reais e pediu-lhe que trouxesse cinco quilos de banana para a sobremesa da família. A menina dirigiu-se até o caminhão e fez o pedido ao vendedor que estava perdido no meio das bananas em cima da carroceria, pesou a mercadoria e entregou para a moça que levou aquela bananada para casa toda contente.
“Minha filha, aqui não tem cinco quilos!” Exclamou seu pai com as bananas na mão. Mais do que depressa foi até o porão, que tem de tudo, inclusive uma balança, e conferiu exatos três quilos e meio.
Por um azar (ou sorte) do destino, o mesmo caminhão passou novamente no dia seguinte com a mesma proposta. O nosso protagonista, que não se deixa enganar com facilidade, coçou os bigodes e tratou de providenciar uma sacola que levou até o caminhão junto com sua balança para comprar mais bananas para a sobremesa. Com a balança numa mão e a sacola na outra, seu Mezomo ordenou:
“Quero cinco quilos de banana, mas desta vez, eu também vou pesar, porque ontem vocês enganaram minha filha, que chegou em casa só com três quilos e meio… Se agora estiver errado, eu chamo a polícia, porque vocês estão fazendo propaganda enganosa.”
Assustado, o motorista e possível proprietário do estabelecimento itinerante desceu da máquina e dirigiu-se até o cliente, perguntando:
“O que está acontecendo aqui?”
“Este piá de b… enganou minha filha ontem, quero ver ele me enganar hoje”
Depois de tudo esclarecido, o motorista, transtornado pela traquinagem de seu ajudante (possivelmente orientada por ele mesmo), resolve ressarcir o prejuízo do dia anterior e deixa o comprador, cuja raiva já era maior que os bigodes, pesar as bananas com sua própria balança.
No final, nosso filósofo italiano nos dá uma lição de cidadania, fazendo cumprir seus direitos de consumidor. Porém, quantas pessoas possivelmente tenham sido enganadas por não terem uma balança em casa e nem a noção do peso exato da mercadoria adquirida? Infelizmente, situações como essa são freqüentes no mundo capitalista selvagem…

Márcio Roberto Goes
Oitenta e um quilos bem pesados

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