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Márcio Goes Posts

O GRANDE CONDUTOR – primeira publicação de Márcio Goes

PUBLICADO EM: 06/10/2005
JORNAL INFORME – CAÇADOR, SC.

O GRANDE CONDUTOR
(crônica)

Era por volta das 13h.30min, dirigi-me ao ponto de ônibus, onde esperei cerca de cinco minutos. Subi no coletivo, entreguei o passe ao cobrador cumprimentando-o com um sinal de cabeça e sentei-me no terceiro banco.

Aparentemente, tudo normal… Pessoas dirigindo-se ao centro para fazer compras, passeio ou a trabalho… Tudo perfeitamente rotineiro (aquela rotina que, às vezes incomoda) até o motorista parar ao aceno de uma velhinha de bengala. Neste momento, vi um ato descomunal na rotina daquele ônibus: o condutor parou, puxou o freio-de-mão, ajeitou o bigode, destravou a cadeira, desconectou o cinto de segurança, levantou-se, acomodando a camisa do uniforme dentro da calça e dirigiu-se até a porta estendendo a mão para aquela senhora e conduzindo-a até o banco, só voltando a seu posto depois da certeza de que a velhinha estava perfeitamente acomodada.
Aquele senhor, proletariado, como a maioria dos brasileiros que não pode contar com mensalão ou mensalinho para ajudar no orçamento, quase no fim de seu turno de trabalho, cruza seu olhar com uma senhora quase no fim do turno de sua vida.
Duas vidas totalmente diferentes, unidas por um único objetivo, por um instante, aproximadas pela situação e pelo destino.
Talvez, nunca mais se encontrem, novamente, talvez seja o último passeio de ônibus daquela senhora, ou o último turno daquele motorista que dedicou alguns segundos de sua vida a um ser humano desprezado por muitos, amado por alguns, respeitado por outros.
Por que ele fez aquilo, mesmo não se tratando de uma obrigação profissional (pelo menos, não dele)?… Por respeito, talvez ou por amor?!…
Sim, por amor. Amor fraterno do qual o mundo anda tão carente… Quantas pessoas têm demonstrado amor por aquela senhora ultimamente?… Quantas pessoas têm demonstrado amor pelos idosos ou por qualquer pessoa no mundo atual?…
Tenho certeza que, ao descer daquele ônibus, nem motorista, nem velhinha serão os mesmos, pois provaram a alegria e a ternura de viverem em comunidade fraterna.
Que bom seria se os grandes condutores das grandes nações presenciassem esta pequena cena, deste “pequeno condutor de ônibus” e seguissem seu exemplo, pequeno, mas grandioso. Porém, trata-se de uma utopia, pois grandes condutores de grandes nações, jamais usam ônibus em direção ao centro da cidade, para passear, fazer compras ou trabalhar… Aliás, grandes condutores de grandes nações trabalham?… Creio que grandes condutores têm grandes problemas para resolver. Deve ser por isso que não resolvem, porque são grandes, e tornam grandes os pequenos problemas.
Afinal, há tanto mercado para conquistar, tanto mensalão a pagar ou receber, tanta CPI para resolver, tantos deputados e senadores corruptos para comprar, vender ou julgar, tanta coisa para justificar, que não há tempo para pensar em um motorista de ônibus parando seu trabalho para ajudar uma velhinha desconhecida a subir.Não há tempo para perceber o quanto este exemplo de vida nos torna mais humanos.E quanto mais humanos somos, mais divinos nos tornamos. Sendo divinos, somos grandes, de uma grandeza que transcende a pequenez dos problemas grandes dos grandes condutores.
Márcio Roberto Goes
06/10/2005
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