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Márcio Goes Posts

Porco com batatas

Sempre gostei de animais. Quando tinha cerca de doze anos, tínhamos um porquinho e, por se tratar de um bairro próximo ao centro, era necessário limpar muito bem o chiqueiro todos os dias para não haver nenhum mal cheiro que atrapalhasse a qualidade de vida dos vizinhos. No verão, a sequência da higienização era ainda maior. Eu era encarregado da limpeza da residência oficial daquele suíno que se tornou um de meus melhores amigos de infância, ocupando o lugar ocupado pela dinastia de cães chamados Bilu e o periquito que vivia no meu ombro quando eu tinha remotos cinco aninhos…

Meu porquinho gostava tanto de mim que, ao me ver, chegava a abanar o rabinho em alta velocidade. Todos os dias, eu calçava a bota de borracha, puxava a mangueira do poço até sua casa e ligava o motor para transladar a água até aquele local. Lavava todo o ambiente, depois dava banho no meu amigo que gostava a ponto de deitar-se para receber carinho na barriga, depois enchia o coxo da mais deliciosa lavagem que, para ele era um manjar dos deuses… Era muito bom cuidar de outra vida animal e poder, mesmo involuntariamente, identificar o humano dentro dele… Um quadrúpede, originalmente fedorento e com hábitos não muito higiênicos, me ensinava a cada dia aquilo que a humanidade toda precisava e ainda precisa aprender: o amor ao próximo…

Nossa relação suína era altamente humana e ganhava de muitas pseudo-amizades que vemos por aí entre seres humanos racionais com o encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores… Por várias vezes tentei abraçar meu porquinho, perdi o equilíbrio e fui parar no chão, na mesma altura e situação dele… Apesar de tudo, não parecia tão mal assim viver num chiqueiro…

Acima do chiqueiro, que ficava ao pé de um pequeno morro, havia uma plantação de batatas-doces, cuidadosamente preparada por minha mãezinha querida… Ocorre que um dia caiu um toró e o morro quase veio abaixo em forma de enxurrada. Era água que não acabava mais, nunca tinha visto tanta chuva em tão pouco tempo. As batatas-doces desceram o morro junto com a terra vermelha e invadiram a casa do meu amiguinho… Da janela, eu olhava preocupado, sem saber o que fazer. Minha mãe não me deixava sair naquela chuva para socorrê-lo, temendo que eu fosse levado também pela enxurrada… Então eu ficava olhando a chuva cair e amedrontado pela possibilidade de perder meu amigo no meio da tempestade…

Mas depois da chuva vem a bonança e, quando tudo acabou, voltei ao chiqueiro para ver se conseguia encontrar algum vestígio do meu porquinho e grandiosa foi minha surpresa quando o vi atolado até a barriga, imóvel e, sem nenhuma preocupação com o resto do mundo, comendo batata-doce trazida durante a chuva…

Mais uma vez, aprendi com ele… Aprendi que nem toda tempestade traz desgraças… Aprendi que podemos tirar proveito das situações, aparentemente, negativas… Aprendi que, se olharmos com atenção ao redor, sempre encontraremos as batatas-doces no meio da enxurrada. Mesmo que estejamos imóveis e atolados até a barriga, sempre existe uma possibilidade de sobrevivência… Aprendi a ver desafios em cada situação complicada… E, acima de tudo, aprendi que se nos jogarem lama de cima para baixo, é possível encontrar, no meio da amargura humana, uma batata-doce que alimente nossa esperança e nos dê forças para reagir e tirar o pé da lama…

Só não consegui entender a razão pela qual minha família me tirou de casa um dia cedo e, quando voltei, meu melhor amigo já estava sem vida na geladeira, parte dele na panela e algumas migalhas de amizade transformadas em salame…

Márcio Roberto Goes

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Plano de aula da depressão

Atividade: Produzir uma dissertação argumentativa objetiva.

Tema: Atual conjuntura política no Brasil.

Peraí… Não posso pedir isso aos alunos de ensino médio. Vão dizer que sou esquerdopata, petralha, que sou contra privatização, que acho que foi golpe, que defendo bandido, que isso que aquilo…

Mudança de plano… Novo tema: A influência dos movimentos LGBT na construção da democracia…

Não… Não dá… Dirão que sou homofóbico, que não respeito as diferenças, ou dirão que sou gay enrustido… Não sou… Mas se eu fosse, qual o problema?… Diriam que eu seria uma má influência, que estaria contribuindo para a destruição das famílias dos alunos… Que isso, que aquilo…

Bem… Vamos lá… Mudança de plano novamente: Análise sobre o posicionamento da Igreja diante da intervenção militar… Meu Deus!… Seria o caos na educação: Diriam que eu estou tentando converter os alunos para a minha religião, que sou, contra, ou a favor da intervenção militar, que defendo bandido, que adoro imagens, que sou papa-hóstias, que apoio o comércio das igrejas evangélicas e católica, que discrimino outras religiões, que Oxum, Maomé e Buda vão me castigar… que isso… que aquilo…

Pois bem… Preciso trabalhar argumentação com meus alunos… Vou usar o clipe do Gabriel o Pensador, com a música: “Quem é você”. Servirá de motivação para eles formarem uma opinião e, então argumentarem sobre… Nãããããoooo… Não dá… Vão dizer que sou contra o sistema, que falo mal do governo, que quero doutrinar os alunos… Que isso, que aquilo…

E agora… Preciso ajudá-los a argumentar, afinal vão precisar disso na vida acadêmica, no vestibular, nos concursos e processos seletivos. Além de ajudá-los a raciocinar e não publicarem porcarias no facebook… Mas que tema propor? Tudo leva a uma reflexão… Tudo leva a pensar… E aqueles que estão na cadeira de quem pensa que manda, não querem que o povo pense… Mesmo assim preciso ajudá-los a raciocinar…

Um bom tema, seria sobre o assassinato da vereadora no Rio de Janeiro… Pera lá… Vão dizer, novamente que sou petralha, esquerdopata, comunista, ou pior, que sou contra a polícia, a favor de bandidos, que isso, que aquilo… Dirão tudo isso, repetindo como papagaios aquilo que alguém divulgou, sem averiguar os fatos…

E agora… O que fazer?… Acho que vou deixar tema livre… Não dá… Diriam que não sei dar aulas, que não estou preparado, que sou matão, vadio, preguiçoso, grevista, arruaceiro… Além do mais, eles ainda não estão preparados para argumentar sozinhos… Precisam de ajuda… O professor poderia ajudá-los, mas não pode, pois qualquer tema que proponha, será julgado como parcial, petralha, ou coxinha, comunista, ou golpista…

Bem… Para não deixar um planejamento em branco, pode-se propor o seguinte: “A influência da propagação acústica amplificada do vaso sanitário na convivência humana”… Gostei desse tema. Totalmente imparcial. Vão me chamar de retardado, mas ainda é melhor do que todos os outros possíveis xingamentos daqueles que acham que entendem de educação e se acham no direito de dizer o que se deve trabalhar em sala de aula…

É… Parece que estamos vivendo uma ditadura, não a civil, militar, comunista, ou capitalista… E sim, a pior de todas: A ditadura da falta de conhecimento… A ditadura da insanidade programada… Querem calar nossa voz… Agindo assim, calam também a voz das novas gerações, tornando mais fácil a dominação pelo poder…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

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Conhecer pessoas fantásticas

Um dia, um menino tímido e meio esquivo adentrou a uma sala de aula sob os olhos atentos, amorosos e cuidadosos de sua mãe. A progenitora o alfabetizara em casa, pois não teve jeito de ele ficar na sala do pré, portanto ela optou por dar-lhe as primeiras lições e, então o menino iniciou seus estudos no ano que completaria 8 anos, direto na primeira série da Escola Básica Salgado Filho, na década de 80… Desde então, o menino não arredou o pé da escola, exceto por duas vezes que desistiu de estudar, causando uma defasagem de seis anos em seu conhecimento…

Mesmo assim, conseguiu um diploma de licenciatura e, depois de especialista… Letras é sua formação acadêmica, o primeiro de cinco filhos a se formar, apesar de ser o mais novo… Há dezoito anos dedica sua vida à educação pública, o que lhe rendeu muitas vivências positivas e, outras experiências que quase o fizeram desistir da educação…

Já recebeu prêmio de professor nota dez, já foi duramente criticado e acusado de coisas que nem mesmo ele tinha conhecimento que acontecera… Viveu, caiu, levantou, venceu… Viu seus alunos viverem, caírem, levantarem, vencerem e, com eles, viveu cada conquista, cada esperança, cada medo, cada derrota, cada vitória… Tentou fazer o melhor com amor… Assumiu cargo de gestão, foi secretário, tentou até a carreira política, mas volta e meia, seu mundo se revelava a sala de aula, lugar de onde nunca deveria ter saído…

E eis que, o menino, agora crescido, com platinado na barba e alguns fios de cabelo branco que se multiplicam feito pulgas na poeira, retorna ao melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas: A sala de Aula… Esteve afastado por um tempo, mas está de volta… Mais vivido, mais experiente, menos tímido, porém se mantém esquivo… O medo agora é outro: O de ser o mesmo num mundo em constante evolução. Está rodeado de pessoas fantásticas. Tem medo de não ser fantástico para elas…

Mas, como dizem, faz seu trabalho com medo mesmo, de cabeça erguida, coração imensamente aberto e apaixonado pela educação… Mas não qualquer educação, a pública, cheia de desafios, esperanças, temores e pessoas fantásticas…

Por um momento, o menino para, olha para o céu, agradece a Deus pelo dom de ser professor e entra na sala de aula, num novo ano letivo, cheio de vontade de conhecer e conviver com novas pessoas fantásticas: Seus ecléticos alunos…

Márcio Roberto Goes

Professor, por amor

 

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A insignificância do risco

De acordo com o dicionário Aurélio Digital, uma das definições da palavra “risco”, é a seguinte: Qualquer traço em cor, ou sulco pouco profundo, na superfície dum objeto…

Pois bem, quem usa óculos sabe que, apesar de nos proporcionar um charme inigualável, eles também nos proporcionam uma despesa exorbitante cada vez que se faz necessária a mudança de grau. Mas tudo bem, como dizia o saudoso Dr Seiko Aguni: Devo cuidar de meus olhos, simplesmente porque são meus… É com eles que vejo o mundo ao meu redor, defino cores, profundidade, foco… Bem… No meu caso e de tantos outros míopes, astigmáticos, estrábicos, para que se tenha uma visão próxima da normal, necessita-se lentes corretivas…

Na minha última consulta, constatou-se que necessito de óculos multifocais, ou seja, grau para perto e para longe na mesma lente. Me doeu o bolso ao saber o valor, mas, valeu a pena, pois, após adaptar-me com a nova maneira de enxergar erguendo e baixando a cabeça conforme muda o foco, no estilo: “Cara, crachá… Cara, crachá… Percebi o quanto a vida fica melhor quando a gente enxerga com mais qualidade…

Fiquei alguns dias errando degraus, confundindo distâncias e profundidades, mas logo me adaptei… Neste período, numa destas tardes felizes e ensolaradas, como de costume, resolvi fazer pão caseiro… Sou um homem prendado, senhoras e senhores… Ao enformar os pães e colocá-los no forno elétrico que fica mais, ou menos na altura de minha cabeça, deixei a porta aberta, me virei de costas para fazer qualquer coisa e, ao retornar, minha testa foi de encontro com a tampa do forno… Disse ligeiramente uma lista de palavras que minha consciência não permite escrevê-las para um público tão distinto e educado… Mas o fato é que, a paulada atingiu também meus óculos novos, arremessando-os ao chão…

Corri pegar meus óculos reserva de leitura, de qualidade inferior, sem lentes transitions para ver o estado físico de meus queridos óculos multifocais… Um risco… Isso mesmo: Um desnecessário, inútil e inconveniente risco na lente esquerda de meu olho biônico… Disse toda a lista de besteiras novamente e acrescentei algumas palavras… Fui até a pia, limpá-lo com detergente neutro, conforme orientação da moça da ótica… Quem sabe limpando, o risco sumia… Nada… Para minha infelicidade, permaneceu ali, rindo de mim…

Passado o momento de cólera, coloquei de volta meus óculos e percebi o imperceptível: Não fez a menor diferença para minha qualidade de visão. Perto dos olhos o risco não aparece, não existe, não incomoda… Depois percebi que, de longe também não faz a menor diferença…

Às vezes, costumamos dar uma importância absurda a pequenos riscos em nossa vida, mas quando paramos para pensar, eles são insignificantes o suficiente para não fazer a menor diferença no cotidiano. Os problemas têm a importância que damos a eles…

Às vezes focamos tanto num risco minúsculo, esquecendo de ampliar o campo de visão e observar as maravilhas ao nosso redor. Estamos repletos de coisas, acontecimentos e seres que contribuem para o nosso conforto. Nada justifica o fato de nos desesperarmos com um pequeno risco diante dos olhos. Quando ousamos desfocá-lo e olhar o horizonte, percebemos que somos muito mais do que supomos com nossos pensamentos mesquinhos e discretamente riscados…

Márcio Roberto Goes

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Reticências

… Alguém já pensou começar um texto assim…? Com reticências?…

Eu já… Aliás, as reticências são uma constante nos meus escritos… Elas são minha salvação quando não consigo concluir uma ideia, quando preciso seguir o pensamento e me faltam palavras, quando tenho a intenção de fazer o leitor continuar pensando e analisando o assunto, ou para ficar bonitinho mesmo… Eu acho que fica… Será?…

A exclamação indica surpresa, admiração, grito, raiva, espanto… Portanto é muito seletiva… Um sinal de pontuação com capacidade limitada. Não me serve para expressar o que sinto agora… Céus!…

A interrogação vem de dentro, do íntimo: Inter-rogar é rogar algo lá do âmago, do fundo dos pensamentos e do coração. É pedir, perguntar, indagar… Também não tem serventia quando a liberdade de expressão se torna uma necessidade maior que a dúvida… Não acha?

Os dois pontos servem só para dizer que, depois deles, haverá uma explicação de algo que já foi citado. Ou seja, é um sinal quase redundante, pleonásmico: algo que expressa uma repetição, intencional, ou não…

Portanto, estes três pontinhos chamados reticências funcionam como um curinga, nos salvando nos momentos mais absurdos e perigosos das produções de texto. Penso que sejam a mais completa expressão do nada e do tudo ao mesmo tempo… E mesmo assim não merecem uma tecla exclusiva: para construí-lo, é necessário digitar três vezes o ponto final…

Penso que as reticências sejam um bom exemplo do que é a vida… Não temos exclusividade no teclado da existência humana, precisamos nos construir a cada dia, buscar e arriscar novas combinações e, quando encontramos a combinação perfeita, devemos aproveitá-la, mas não é um ponto final, nem uma vírgula. Não há tempo para paradas, a não ser com o intuito de rever as combinações e procurar aprimorá-las… Afinal, a vida continua e sempre encontraremos novas reticências que nos farão continuar mesmo quando parecer o fim…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

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