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Os distraídos sofrem

A vida de um distraído é totalmente vulnerável aos acontecimentos do mundo ao seu redor, que muitas vezes passam despercebidos por ele, porém não para o restante da humanidade que ri descaradamente da situação.

Amigo leitor, já aconteceu de você estar no quentinho das cobertas, prestes a dormir o sono dos justos, já no último mistério do terço e de repente sua mente lhe acorda como num flash, para avisar que esqueceu alguma coisa? Algo como: “Será que tranquei a porta?” Nesta ocasião, meio a contragosto, obriga-se a deixar o aconchego dos cobertores para tirar a teima que na maioria das vezes é alarme falso, desperdiçando cinco preciosos minutos de sono em nome da distração compulsiva… Então, já passou por isso? Eu também. Saiba que você não está sozinho no clube dos desatentos, que sofrem com este distúrbio.

Nós, distraídos, constantemente temos lapsos de memória. Do que eu estava falando mesmo? Há, sim! Estava tentando descobrir onde deixei a chave do carro. Enquanto não encontro, vamos mudar de assunto. Os desatentos, além de tudo deixam de prestar atenção a detalhes fundamentais da vida cotidiana, que para um atento seria perfeitamente perceptível e… Encontrei a chave! Mas, onde está o carro?

Dia desses, eu voltava do trabalho, dirigindo meu pratinha 91, ouvindo despreocupadamente uma canção do “Tchê Garotos”:

“E joga as mãos pra cima… Tristeza não interessa… Vamo fazê festa! Vamo fazê festa!”

Quando de repente, encontro à minha frente um carro “devagar, quase parando”, com o pisca alerta ligado. Na frente dele outro, e mais outro, e mais outro. O que estaria acontecendo? Será que todos resolveram testar o pisca alerta ao mesmo tempo? Houve algum acidente? Alguma blitz? Conferi os bolsos, estava com todos os documentos e o cinto de segurança devidamente conectado. O que é um congestionamento na vida de um professor faminto que só teria quinze aulas naquele dia, o que totaliza os três períodos e cada minuto é precioso? Diante destes fatores, não havia motivos para me preocupar. Como sou um sujeito pacato, não me irrito por pouca coisa resolvi relaxar. Aumentei o som e continuei curtindo a música com o alerta ligado para acompanhar meus colegas de engarrafamento:

“E joga as mãos pra cima… Tristeza não interessa… Vamo fazê festa! Vamo fazê festa!… Uhú!!!”

E neste ritmo, com a “sonzera” detonando e o cotovelo esquerdo para fora, esperava alegremente o descongestionamento, quando pude visualizar o primeiro carro da fila fazendo a curva para a direita, dando-me a oportunidade de identificá-lo claramente:

Não pode ser! Eu não acredito! Como não percebi antes, meu Deus? É o carro da funerária! Estou no meio de um cortejo! E agora?

Mais do que depressa, desliguei o som que pareceu demorar duas horas e meia para desativar, tamanha era minha agonia. Procurei logo achar uma esquina para escapar daquela situação. Bem feito! Quem manda ser distraído assumido?

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