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O tronco do Zé

Tudo pronto. A mesa ampla e arrumada, pratos e talheres em seus lugares, cadeiras enfileiradas… A equipe de bar e cozinha trabalhando exaustivamente, afinal a ocasião merece, o homenageado é muito importante e todos os convidados dependem dele…

A primeira a chegar é Aurélia, meio ressabiada, pois nunca havia participado de um evento social, nem baile, nem festa, quem dirá um jantar chique como este. Ela vem acompanhada de Fernando Seixas, já acostumado com a alta sociedade e que não se intimida com a situação. Um contraste a olhos vistos. Ele deixa chapéu e casaco na recepção, ambos dirigem-se até a mesa indicada pelo garçom vagarosamente, observando atentamente a decoração e o requinte do local preparado especialmente para aquela ocasião…

Em seguida, chegam Mário e Alice, um jovem casal apaixonado desde a infância, aproximados pelo destino depois de Mário salvar Alice da maldição do Boqueirão, acompanham Negro Benedito que finalmente desencostou-se do tronco do ipê e, com muito custo, submeteu-se a vestir um terno listrado e, pela primeira vez, seus pés viram um sapato…

Augusto, apesar de não ter sido criação do homenageado, comparece em nome de Joaquim Manuel de Macedo trazendo os cumprimentos do próprio. De qualquer forma, sempre é bom ter um médico por perto, ele vem muito bem acompanhado pela Moreninha, sua grande conquista daquela viagem à ilha…

Peri, um autêntico Goitacá, chega pelo jardim de surpresa, a cavalo numa onça pintada, com Cecília na garupa. O espanto é geral, mas logo ele dispensa a fera para acalmar os ânimos dos presentes, dizendo ser aquilo apenas um pedido de sua portuguesinha amada e ele nunca nega um mimo para seu amor, não seria agora que o faria…

E assim, chegaram um a um, personagens vivificados pelo milagre da arte de usar as palavras, talento concedido a poucos, entre eles a grande personalidade que ora recebe esta homenagem: É a criação que se torna grata a seu criador e, como num passe de mágica salta das páginas dos livros para a existência física… (Pelo menos na mente deste que vos escreve)… Todos tiveram suas aventuras, amores e desamores que, apesar de fictícios, deixaram sua marca na Literatura nacional que vestiu as cores e a cara da nossa Terra a partir da obra deste que compõe o seleto grupo do movimento chamado Romantismo, em meados do século XIX…

De repente, ouve-se um zumbido no jardim: um enxame… milhares de abelhas perseguindo uma índia Tabajara que, sem tempo para tomar uma decisão mais sábia, atira-se na piscina. O Potiguara vem em seguida chamando por Iracema. Mário, ao ver o tumulto, tem um surto de síndrome do pânico, por um instante vê, na piscina, o Boqueirão e atira-se heroicamente para salvar a jovem índia em apuros. É recebido por um tapa na rosca do ouvido: – “Eu sei nadar, seu inútil!”… – “É claro!” …pensava ele… “Todo índio sabe. Como pude ser tão tolo”… Já em terra firme, Iracema justifica que sofre constantes ataques de abelhas depois que ele a descreveu como “A virgem dos lábios de mel”…

Por fim, beneficiado pelo mesmo milagre que chamou seus personagens à  existência, José de Alencar surge, no meio de sua obra para contemplá-la e ser contemplado por ela. Todos o recebem com aplausos e, para retribuir, o gênio prosaico cumprimenta-os um a um, lançando-lhes aquele olhar paterno de quem tem orgulho ao ver seus filhos crescerem.

Os tempos mudaram… A vida mudou… Os escritores já não são os mesmos, as obras literárias também não… Mas José de Alencar continua sendo o pioneiro na arte de usar as palavras em favor de nossa Terra e nossa realidade…

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

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