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O TRISTE FIM DE UMA SOMBRINHA

Texto de Márcio Roberto Goes que compõe a antologia Fantasiando, Página 79

 

Era uma vez, uma sombrinha, dessas que a gente compra em qualquer loja de um real. Uma sombrinha “made in Taiwan” azul estampada com lindas rosas amarelas, pequena a ponto de fechada caber na bolsa e grande a ponto de aberta servir de proteção contra o sol ou a chuva. Uma sombrinha bonita, mas simples… tão simples que chega a ser frágil, de uma fragilidade tão grande que tem até medo de ir à escola, tanto é que só frequenta as aulas nos dias de chuva.
Foi num desses dias de chuva que ela preparou-se para ir à aula: seu lugar já estava reservado na bolsa, envolvida numa sacola amarela de supermercado, ao lado do estojo em forma de guaxinim, também made in Taiwan, com dois zíperes: um para lápis, caneta, borracha e apontador; outro para o corretivo e o celular que é a ferramenta básica dos alunos na escola moderna, destinado a tocar justamente no ápice daquele problema matemático envolvendo álgebra, no meio do segundo argumento daquela brilhante e agradabilíssima dissertação argumentativa, ou no terceiro elemento dos não-metais da tabela periódica, mais conhecida do que a “Salve Rainha”, porém, mais difícil do que contar estrelas ao meio dia. Junto com a sombrinha e o guaxinim, transporta-se um caderno universitário com Tiago Lacerda na capa, adesivos que dizem tudo mas não falam nada na contracapa e no seu interior, entre uma matéria e outra, o autógrafo dos “amigos” com recados simpáticos que arrancam suspiros da menina apaixonada… Tudo isso, dividindo espaço com os trabalhos de biologia e química a serem entregues e ainda por terminar, o rascunho da cola da prova de português, além de um CD do Luan Santana… Uma bolsa típica de uma adolescente de 1º ano de ensino médio.
Porém, nossa protagonista fica por pouco tempo nesse ambiente agradável e caloroso, logo ela é aberta para proteger alguém da chuva. No caminho, retém a água e a joga para os lados com aquela classe que só os “guardachuváceos” sabem fazer, sem deixar cair nenhum pingo na jovem estudante. Ao chegar à escola, está molhada demais para voltar a fazer companhia ao guaxinim e ao Tiago Lacerda. Continua aberta, desta vez parada na última carteira da fila da parede.
No entanto, seu sossego dura pouco: chega a professora de português, decidida há apenas duas semanas a aplicar prova naquela turma, naquele dia, naquela hora, e incomoda-se com a presença daquela sombrinha. É necessário fechá-la para aproveitar melhor o espaço da sala, contudo foi fechada com tamanha agressividade que chegou a quebrar (até hoje ninguém provou, mas como o objeto apareceu quebrado, a professora deve ser condenada).
Por fim, lá está ela, pobre sombrinha… destruída, dilacerada, estraçalhada… tão inútil quanto o boné do colega ao lado, o chicle de bola da menina da frente ou o piercing adolescente e rebelde da fila da janela… Nunca mais encontrar-se-á novamente com o guaxinim ou com o Tiago Lacerda, nunca mais ouvirá “Ai se eu te pego” no celular a seu lado… Sombrinha miserável, agora não passa de um monte de arames com um tecido florido que cheira queijo vencido.
Toda a turma se comove a ponto de clamar por justiça e acusam a professora, tendo como advogada a mãe da aluna dona da falecida sombrinha. Justiça seja feita! Não podemos permitir que professoras malucas continuem destruindo sombrinhas made in Taiwan por aí, à luz do dia sem que haja uma punição severa e exemplar.
Ao final da aula sobram apenas papéis no chão, chiclete por baixo das carteiras e em cima desenhos altamente artísticos, pano, vassoura, balde e uma servente que despreocupadamente joga a sombrinha para a sua derradeira morada: o lixo… A essas alturas, pela lógica dos fatos, posso até visualizar, no lixeiro uma coroa de flores com a seguinte frase escrita em letras douradas numa faixa roxa:
Aqui jaz uma sombrinha azul estampada com lindas rosas amarelas. Eternas saudades.
Assinado: O Guaxinim.
Márcio Roberto Goes
Com profundas condolências.

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