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O PROFESSOR NO BANCO DOS RÉUS

PUBLICADO EM: 13/10/2005
JORNAL INFORME. CAÇADOR-SC

O PROFESSOR NO BANCO DOS RÉUS

Antigamente, ser professor era sinônimo de status, inteligência e respeito. Aliás, um grande respeito tinha a sociedade pela pessoa do professor, tanto é que os pais confiavam ao profissional docente seus filhos e jamais contestavam uma decisão por ele tomada, até porque, no dia da colação de grau, o professor faz o juramento de agir sempre com ética, respeitando as diferenças e capacidades de cada educando, pelo menos comigo foi assim, em 2003.
Porém, parece que a rotina do mundo atual tem contaminado agressivamente a mente e o coração de alguns alunos e pais com aspectos muito negativos em relação ao professor, fato que comprovei in óculo:
Um dia desses, na escola em que trabalho, compareceu uma senhora, apresentando-se como mãe de uma aluna de primeiro ano de ensino médio, tendo em mãos um bilhete com o nome de uma de nossas professoras, mostrando-me o bilhete, expressou-me o desejo de falar com a referida pessoa.
Muitas alternativas passaram em minha mente: Será que sua filha teve notas baixas em Português?… Será que é uma aluna faltosa ou indisciplinada?… Teria ela faltado aula no dia da prova ou deixado de entregar algum trabalho?… Bem, na pior das ipóteses, imaginei que professora e aluna não entraram em acordo no aspecto pedagógico, ou não concordaram com algum assunto referente à disciplina (atualmente, o aluno tem direito de discordar do conteúdo)… Mas, minha criatividade não foi suficiente para descobrir do que se tratava, mesmo assim, contive penosamente minha curiosidade.
A referida mãe foi levada até a sala onde a professora se encontrava. Tamanha foi minha surpresa quando, minutos mais tarde, deparei-me com a docente justificando para a turma e para a mãe o porquê da sombrinha de sua filha estar quebrada, já que fora acusada de tamanha traquinagem por mãe, filha e alguns alunos.
Novamente, minha curiosidade criou asas: Em nenhum momento, é claro, imaginei que esta professora tivesse imaturidade suficiente para cometer tal molecagem, visto que foi uma das melhores professoras que tive na faculdade, costumo chamá-la de “mi maestra”, título merecido, não só por ter cursado um mestrado, mas por ser uma professora que ama sua profissão, não só professa, mas atua como mestre e aponta os caminhos, assim como muitos dos professores que conheço; porém, algumas dúvidas cruéis me assolaram a alma naqueles poucos minutos em que observava “mi maestra” justificando-se perante os presentes: Teria ela derrubado aquela sombrinha no chão por descuido?… A sombrinha estava no chão e a professora, por engano pisou em cima?… A aluna deixou a sombrinha em sua mesa e a professora largou seu material em cima, danificando-a? A sombrinha chegou atrasada à aula, faltou à prova, não entregou trabalho na data marcada ou desrespeitou a professora e por isso foi arremessada contra a parede?… Não!… Nada disso. Tudo o que ela fez foi fechar o objeto que estava aberto nos fundos da sala a fim de aproveitar melhor o espaço para realizar a prova bimestral , já marcada anteriormente, tudo isso, com a devida autorização da proprietária.
Mas, como os fatos foram destorcidos dessa maneira?… Através de picuinhas (ou fofocas, melhor dizendo) entre os alunos até chegar aos ouvidos da mãe, que aparentemente acreditou mais nas especulações do que na professora, na escola ou na própria filha.
O fato é que apareceu um objeto quebrado, ninguém sabe quem foi, mas é preciso, como sempre, encontrar um culpado: a professora.
A que ponto chegou a educação pública ao longo dos anos!?… Os papéis inverteram-se: mentiras, especulações e picuinhas têm mais credibilidade que o professor ou a própria unidade escolar.
Esta realidade não é exclusividade desta escola (e mesmo que fosse, não seria motivo para estar me gabando), é a nível nacional e até mundial. Se assim continuar, logo teremos uma escola falida: A instituição que mostra os caminhos para o conhecimento (e assim o faz apesar de todas as dificuldades) repentinamente é vencida por boatos…
Isso aconteceu com uma de minhas colegas, mas poderia ter acontecido com qualquer um de nós, professores ou não, afinal todos estamos vulneráveis ao julgamento dos boatos e picuinhas. Depois, para provar o contrário é uma labuta desumana e penosa para todos os lados…
Sem desmerecer nenhuma profissão, pois o mundo evolui por causa das diferenças, mas não é o médico, o engenheiro ou o advogado que “removem montanhas” no âmbito do conhecimento e sim o professor, afinal, médicos, engenheiros, advogados, operários, gente boa, gente ruim, armados, desarmados, corruptos e “mensaleiros”… todos, absolutamente todos, em algum momento de suas vidas freqüentaram a escola, inclusive aqueles que colocam hoje o professor no banco dos réus.
Portanto, professor, tenha fé, porque a fé do professor remove montanhas de conhecimentos e torna os educandos pessoas melhores.
Parabéns, professor, por acreditar em si mesmo, na escola, nos seus alunos e no mundo, que é um mundo em desenvolvimento e pensante por causa de você.

Márcio Roberto Goes

Um Comentário

  1. Alisson
    Alisson 28 de outubro de 2006

    Você pode conhecer muitas pessoas que jamais passaram pelas mãos de um médico, nunca precisaram de um, mecânico, jamais precisaram consultar um psicólogo ou advogado.
    Porém jamais você encontrará alguém que não teve “vários” professores na sua vida e inclusive estes são grandes responsáveis pelo sucesso e formação de toda uma sociedade.

    Por que é tão difícil valorizar aquele que forma a cultura de um povo?

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