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O menino e o violão branco

 

Um menino de onze anos pulava de alegria pelas ruas da cidade, beijava e abraçava um violão envolvido por um plástico recém-saído da loja. Presente de sua mãe que ria ao ver tal cena no meio da rua… “Obrigado, mãe!”… Dizia ele alegre como ninguém ao receber o instrumento que o acompanharia durante toda a vida dali pra frente nos momentos de folga e na Igreja… Por semanas, o assunto foi pauta nas rodas de chimarrão da vizinhança.
Aquele menino contentava-se com tão puco… Não queria videogame, computador, tênis de marca, ou celular… Aliás, na década de oitenta, nem passava por sua cabeça a tal telefonia móvel, ou Internet… Só queria um violão, seu primeiro… Só queria aprender tocar e cantar. Nada mais…

Durante um ano, frequentou aulas de violão com o professor Edilson Fiamoncini, o Tuchê, todas as quintas-feiras e, um dia, mostrou para sua mãe a primeira canção tocada pelo filho mais novo da dona Áurea. A Canção para meu Deus:

 

“O orvalho da manhã criança
Me fala de meu Deus
O cantar da brisa mansa
Me fala de meu Deus.
A rola que turturina,
Me fala de meu Deus.
Minha vida uma canção ensina
A canção que eu fiz para meu Deus:
OoOoOoOo…

A dor do meu irmão que chora
Me fala de meu Deus.
A alegria que hoje eu vi lá fora
Me fala de meu Deus
A esperança que aqui dentro vai
Me fala de meu Deus
e bem dentro de minha alma sai
A canção que eu fiz para meu Deus:
OoOoOoOo…”
(Padre Zezinho SCJ)

O menino cresceu abraçado ao seu violão cor de madeira. O restaurou por duas vezes, na última, pintou de branco. Gostou desta cor. Depois teve um violão vermelho com detalhes que lembravam uma guitarra acústica, outro branco, um preto e mais um branco, este com captação ativa e afinador eletrônico, o que lhe dava maior conforto ao tocar em locais que exigiam amplificação… Porém, seu primeiro violão continuou guardado e zelado com todo cuidado, pois tratava-se de uma relíquia que lembrava sua mãe, agora falecida…

Ficou conhecido nas Igrejas e nos eventos por carregar consigo um violão branco, único para ele e raro de se ver por aí… Com ele cantou na rádio e, por duas vezes, no festival Caçanjurê da canção, animava as aulas de Língua Portuguesa e Literatura e de Espanhol. Seu violão branco era o companheiro para todas as horas…

 

Um dia, os atropelos da vida o obrigaram a ficar uns dias com um carro velho, branco também e totalmente inseguro. Entrou por alguns minutos na casa da namorada, por volta das onze da noite e, na volta, encontrou o carro com a porta aberta. Não havia sinal de arrombamento, mas o seu violão branco, companheiro para todas as horas, não estava mais lá…
O menino crescido então chorou. O choro doído das injustiças da vida e, mesmo assim, foi condenado pelas pessoas ao seu redor por deixar o violão no banco de trás do carro, por deixar o carro na rua, por não cuidar das coisas, por isso, por aquilo… Mas… E o ladrão, ninguém condena? O crime foi cometido por ele. Será que furtar não é mais grave do que o restante da situação?… A vítima foi condenada por ser roubada… É o mesmo que culpar o defunto pelo próprio assassinato…
Depois da poeira baixar, a sensatez nos mostra que é melhor perder os anéis do que os dedos… O menino então ergueu a cabeça, agradeceu a Deus pelo dom da vida, beijou seu velho violão , afinou-o e cantou novamente a “Canção para meu Deus”… Chorou de novo e seus olhos inchados viram, por um momento, sua mãe sentada a beira do fogão a lenha com a cuia de chimarrão na mão sorrindo e inclinando a cabeça para ouvir melhor seu filho derradeiro cantando para ela…

 

 

Márcio Roberto Goes
www.portalcacador.com.br
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