Aperte "Enter" para pular para o conteúdo

O estranho de cristal

Por Daniel Portela Nunes

Daniel portella Nunes, Professor de História. EEB Wanda Krieger Gomes, Caçador, SC.

 

Enquanto secava o vidro do espelho embaçado, depois do banho, pensava na quantidade de vezes que já repetira aquele gesto. Aquela mesma forma de segurar a toalha de rosto com a mão direita. A expressão fingindo surpresa ao deparar-se com os cabelos desgrenhados, os olhos vermelhos pelo excesso de xampu, a mesma forma de segurar o velho pente escuro mal cheiroso enquanto recolocava a tolha de volta em seu lugar. Tentou repartir o cabelo de forma diferente, como já fizera milhares de vezes, mas ao abrir os olhos, novamente não viu uma figura recomposta e sim o mesmo rosto de tantos outros outonos.

Aproximou o nariz cada vez mais daquela figura estranha e patética que o observava de outra dimensão até o ponto de se tocarem. Sua respiração tornou a embaçar a boca e o nariz de cristal, muito mais séria do que ele sempre imaginou. Franziu as sobrancelhas e lançou um último e fulminante olhar. Semelhante a uma luta de espadas eterna onde os combatentes se defenderiam com tanta paixão fosse por ódio ou por amor. Então recuou. Soltando de leve a respiração para comemorar a vitória. A toalha de novo, o pente de novo, o cabelo, desta vez para o lado certo, logo iria à sala e a poltrona. Novamente vencera o desafio, a provocação.

Mas dessa vez sentia nojo, raiva. Perguntava ao estranho desconhecido: O que ele estaria fazendo? Onde queria chegar? Realmente pelo quê era isso tudo?

Fixando novamente os olhos percebeu que tanto fazia se os mantivesse abertos ou fechados. O estranho de dentro do vidro o fitava até mesmo no escuro de seu quarto, no vazio de sua cama onde por várias vezes tentou imaginar-se sem um corpo. Sem pernas doídas, sem braços cansados. Apenas energia e consciência vagas nos labirintos do nada inequívoco e ainda assim o encontrava em algum canto com um meio sorriso em algum canto da boca e um martelo nas mãos a contar e julgar suas ações.

Às vezes discutiam, às vezes trocavam confidências e às vezes enquanto um trabalhava, o outro cantava feliz em uma praia deserta. De vez em quando invertiam.

Varias vezes se perguntara: Qual dos dois seria o verdadeiro? A figura do martelo na mão e dos cantos escuros (ou claros) da consciência? Ou aquele do lado de cá da bancada onde poderia segurar o pente e a toalha e depois correr se refugiar na poltrona?

Antes de abrir a porta do banheiro, uma rápida olhadinha para trás, um sorriso e a sensação de ter vencido mais uma vez. Até quando não sabia.

Daniel Portella Nunes

Professor de História

EEB Wanda Krieger Gomes

Caçador, SC

Um Comentário

  1. Elison Batista
    Elison Batista 15 de Janeiro de 2011

    kkkk Aza Professor veio…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *