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O ÉBRIO E O CONVENIADO


PUBLICADO EM: 14/09/2006
JORNAL INFORME

Numa quinta-feira cinzenta, seu Tavares sentiu-se mal, com dores pelo corpo, febre alta e fraqueza generalizada… Obrigou-se a ir ao médico, optou pelo plantão, já que passava das dez da noite. Ao chegar no hospital, recebido muito cordial e educadamente pelo atendente de plantão, pergunta mostrando o cartão de seu plano de saúde:
– O hospital atende por esse convênio no plantão?

– Sim senhor! Só preciso de sua identidade.
– Aqui está.
– Pode aguardar.
Sentou-se na sala de espera que estava lotada de pessoas que chegaram antes dele, pensando consigo:
– Parece que vai demorar… a fila está grande.
Porém seu palpite estava totalmente errado… Foi o primeiro a ser chamado. Mesmo com estranheza, Tavares adentrou ao pronto-socorro para ser atendido, apertou a mão do doutor (não sei se ele cursou um doutorado, mas todos chamam médicos de doutor, então vou chamá-lo assim também…) e contou-lhe seus sintomas:
– Olha doutor, há dois dias que tenho dores de cabeça e no corpo, fraqueza e febre muito alta…
O médico examina seus olhos, músculos da face e ouve seus pulmões…
– Penso que possa ser sinusite, mas vou pedir algumas radiografias para me certificar… por favor, assine aqui, para que possamos mandar para seu convênio…
Enquanto isso, entra pelo pronto socorro, um cidadão totalmente embriagado, trazido de maca pelo corpo de bombeiros voluntários (melhor dizendo, anjos sem asas), que também fura a fila do atendimento. Tavares vai para a fila do raio-x e é chamado antes de esquentar o banco (mesmo estando com febre). O atendente o recebe com toda cordialidade e também o pede para assinar a nota. Em menos de cinco minutos sai o diagnóstico e o médico prescreve o tratamento… Tudo muito rápido para ele e para o bêbado, enquanto o povo do SUS espera impaciente lá fora pelo exercício de um dos direitos primordiais do ser humano: a saúde.
Nosso empresário enfermo procura a farmácia de plantão e vai para casa fazer seu tratamento; e nosso outro amigo embriagado é medicado, antes mesmo de qualquer outro cidadão, também pagador de impostos, ser atendido com a mesma cordialidade, educação e talvez, mesma qualidade, porém com velocidade muito menor…
Parece que com o passar do tempo foram criadas prioridades que não coincidem com as necessidades e urgências que não são tão urgentes assim, salvo se você tiver um bom plano de saúde particular ou for um bebum à beira do coma alcoólico… Os dois extremos são prioridades. E os demais?…
Para não penar com os demais, desenvolvi uma estratégia a fim de ser atendido rapidamente numa emergência: Ao entrar no pronto-socorro, basta trazer em uma das mãos o cartão do plano de saúde e na outra um litro de cachaça, de preferência vazio, para dar a entender que seu conteúdo foi dolorosamente sorvido pelo paciente (aprecie com moderação)… Mas o melhor mesmo é cuidar bem da saúde para jamais precisar de um pronto socorro e esperar que a saúde faça o mesmo por nós.

Márcio Roberto Goes
Saudável e sóbrio

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