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O branco que incomoda

Aconteceu de novo!… Estou diante do computador, BR office aberto e uma página quase em branco… Será que José de Alencar também passou por isso? Ele que foi o primeiro escritor brasileiro a fazer literatura com a cara do Brasil, teria se deparado com um momento de branco total sem cara nenhuma?… Teria Machado de Assis ficado também sem um pingo de criatividade para escrever em algum momento de sua vida célebre? Seria ele, pelo menos por uma vez, protagonista de uma narrativa em branco nas páginas da história da Língua Portuguesa?… E o que dizer de Érico Veríssimo? Em algum momento as Vidas Secas estiveram na situação de vidas vazias e sem conteúdo?…

Se os grandes escritores, sobretudo os cronistas, passam por isso, eu não sei. Só sei que os meia-boca passam… Sou um deles… Como diria Raulzito: “humano, ridículo, limitado que só usa dez por cento de sua cabeça animal”… Alguns discutem, batem de frente, fazem greve, lutam por seus direitos, não se entregam jamais à tirania… Eu, simplesmente escrevo e acho que faço um pouco de todo o resto desta maneira, menos usar armas…

Mas meus dez por cento de inteligência resolveram também fazer greve hoje… Não vem nada à cabeça, não passa nada por esse cérebro passional pela educação e criativo… Quer dizer, no momento, nem tanto… Tentei imaginar tudo lilás, acender incenso, meditar, recitar um mantra e tudo o que consegui foi pegar no sono… Nenhuma palavra bonita visitou minha mente para escrever aqui e “matar a pau”… Palavras bonitas enganam muita gente, enobrecem muita gente, empobrecem outros tantos e elegem muitos dos nossos representantes que, depois esquecem as palavras e partem para a ação… Ação em favor daqueles que pagaram pelas palavras bonitas ditas no horário eleitoral e não daqueles que as ouviram… Atitudes que beneficiam os financiadores das cestas básicas e das ordens de combustível e não dos pobres de bolso e de espírito que venderam seu voto…

Porém, a verdade é cruel: não tenho palavras, tampouco ações para realizar neste momento, sou mais uma página em branco na história da literatura e das lutas populares… Espero recuperar minhas ideias que se transformam em palavras neste teclado, antes que o Bial chame seus heróis do zoológico humano lá dentro da caixinha preta que nos permite economizar cérebro, pois se eu me ligar na poderosa do “plim plim” com a cabeça vazia, talvez não sobre cérebro sadio para contar a história dentro deste crânio que sustenta a cabeça deste corpo que vos escreve…

Céus!… O que aconteceu comigo?… Quase seis anos escrevendo por paixão às letras, por amor às causas populares e em defesa de uma escola pública de qualidade e agora nada me ilumina o suficiente para merecer uma crônica… Uma lástima!… Deve ser um surto de falta de consciência…

Não ter assunto é muito embaraçoso para quem recebe uma visita e fica sentado no sofá da sala ouvindo a grama crescer lá fora, para as comadres e compadres que repartem esperanças e temores passando a cuia de chimarrão de mão em mão, para os fofoqueiros de plantão. Mas é catastrófico para um escritor… Escritor sim!… Apesar de alguns engravatados que sentam na cadeira de quem pensa que manda não gostarem deste título, eu o assumo: sou escritor… Exatamente, um escritor professor, imperfeito em ambas as situações, mas que está aí tentando fazer alguma coisa para compartilhar seus ideais e procurando ser melhor a cada dia… Se eu quero aparecer?… Sim!… E quem se incomoda com isso, deveria fazer o mesmo… Sei que existem muitos e muitos talentos para a literatura escondidos por aí e só não se mostram por falta de oportunidade, ou por medo do que os outros vão pensar… Apareçam! Se mostrem e parem de se incomodar com alguém que ama a palavra escrita e só quer divulgar suas ideias, mesmo sem nunca ganhar um centavo com isso…

Vivemos num país que garante o direito de livre expressão… Tentaram calar minha voz, não conseguiram… Tentaram de novo, conseguiram parcialmente… Tentaram uma terceira vez e, de novo não tiveram sucesso… Enquanto os grandes continuarem tentando me emudecer, continuarei com a certeza de que os pequenos necessitam de minhas palavras. Até porque sou um deles, portanto, meus textos sempre serão de autoajuda…

É tudo muito lindo, mas estou amarrado pela falta de assunto… Não tenho nada a declarar… Opa! Esqueci que estou proibido de escrever esta frase… O jeito é me render ao monstro devorador de cérebros chamado televisão, que entra em nossos lares sem pedir licença, divulgando tudo aquilo que os maus pensadores querem pôr na cabeça dos desprovidos de pensamento como eu neste momento… Sou um prato cheio para eles, pois uma cabeça vazia é um excelente objeto de dominação…

Deus me livre de esvaziar meus pensamentos todos, principalmente aqueles que se referem a meus ideais e minha ideologia, sobretudo antes de me entregar à caixinha preta que economiza cérebro… Não quero ser espectador da vida. Quero e preciso ser protagonista da minha história… Quero e preciso alertar meus jovens estudantes da diferença que faz o fato de eles também serem protagonistas da própria história…

Márcio Roberto Goes
 www.portalcacador.com.br
www.cacador.net

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