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O avesso dos avanços

 Um dia destes… normal, melancólico e monótono… ao entrar na sala dos professores da escola municipal onde trabalho, me deparo com um ser estranho e sobrenatural logo na entrada: Um relógio ponto digital… Verdade! E nada de cartãozinho, o negócio é no dedo mesmo. Tem um orifício com um sensor que reconhece o funcionário pela impressão digital. Chique, né?… Pena que ainda não está funcionando, mas em breve fará parte da vida de todos os funcionários municipais de Caçador (assim espero, pois não me agrada nada saber que se trata de mais um desperdício de verba pública..).
 Lembrei-me de um fato ocorrido em uma escola estadual que trabalhei algum tempo: Foi instalado naquele estabelecimento de ensino um relógio-ponto digital, neste porém era necessário passar o cartão… Acontece que só a presença do relógio-ponto já foi suficiente para tirar a paz dos professores: Alguns posicionaram-se contra, diziam que era uma humilhação ter que bater cartão para trabalhar, etc e tal… Ora, ora! A meu ver, humilhação é ter que assinar um caderninho do século retrasado, a caneta, todos os dias na entrada e na saída da aula… Mas o livro-ponto é nosso amigo, registra só o que queremos, sem atraso, sem saída cinco minutos antes, sem faltas injustificadas e sem nenhum prejuízo nas tais horas-atividade, que são outro fantasma no magistério público… O livro-ponto, nosso amiguinho do peito, aceita tudo o que escrevemos… Bem, para resumir a história, o relógio-ponto daquela escola acabou servindo apenas para programar a sirene automaticamente nas trocas de aula.  
 Há dezesseis anos, quando eu trabalhava numa empresa madeireira de Caçador, presenciei um grande avanço: trocamos o cartão-ponto de papel pelo cartão magnético: uma novidade que deu muito o que falar, ficamos um mês batendo os dois cartões a fim de se adaptar… tivemos até curso para aprender a lidar com o “bichinho” que deveria ficar permanentemente pendurado no pescoço, servindo também de identificação dos funcionários… Isso aconteceu quase duas décadas atrás, e naquela época, meus professores já assinavam o livro ponto… Hoje, século vinte e um, o professor sou eu… Me vejo sentado na sala dos professores, com a caneta na mão, escrevendo horário de entrada e de saída e validando com minha rubrica, preenchendo um diário de papel na sala de aula, atribuindo nota, como se pudesse medir numericamente o conhecimento do aluno, enquanto a empresa em que eu trabalhava continua se modernizando a cada dia.
 Qual será a razão de tanta resistência, não só por parte das autoridades, mas também por parte dos professores, no fato de se modernizar a educação pública?… Se a educação é prioridade, porque continuamos usando saliva e giz?… O que o ponto eletrônico tem de tão assustador assim?…
 É! Parece que não são só os governantes que enroscam a escola pública, apesar de serem eles que deveriam lutar realmente por uma educação de qualidade.
 Precisamos romper com as coisas antigas para abraçar o novo, se quisermos ver alguma progressão na educação pública. Sei que o registro das horas trabalhadas não é o mais importante numa escola, mas começa por aí nossa aversão às mudanças que cedo ou tarde, deverão acontecer. Vivemos num mundo globalizado… isso tem vantagens e desvantagens… tudo muda numa velocidade inacreditável e parece que a escola é a única instituição que estacionou no tempo, quando deveria ser a primeira a abraçar as mudanças, pois é nela que nossos alunos são preparados para viver nos contrastes desta globalização.

 

Márcio Roberto Goes

2 Comments

  1. Fábio
    Fábio 16 de dezembro de 2008

    O problema disso tudo, para os que trabalham como eu na secretária de educação, é que acabamos nos tornando condicionados, nos sentindo dentro de uma indústria, na qual, a todo tempo, devemos pautar nossas atividades em função da demarcação eletrônica do ponto.
    Fui convidado para uma comemoração numa escola, olhei para o relógio, pensei e refleti, que ir até lá seria, na verdade, muito bom, mas depois teria que ficar justificando meu atraso no retorno.
    Ou seja, até quando a modernização continuará tornando a educação um mero processo coadjuvante das transformações sociais, conduzindo-a a “engolir” sua lógica colonizadora e própria do mercado de trabalho? Será que controlar, especialmente aqueles que precisam de flexibilidade para realizar suas atividades, é o melhor caminho para a construção de um ambiente de trabalho humanizante e conscientizador?
    Concordo, de fato, com sua opinião sobre o receio dos professores quanto ao ponto eletrônico, mas está mais do que certo, que essa inovação, é absolutamente muito insignificante, perante um panorama educacional tão precário, quanto o brasileiro, onde os recursos públicos já são tão escassos e ainda usa-se dinheiro público para engessar as ações de funcionários que cumprem suas obrigações.
    A título de exemplo, entro no meu serviço às 7h10min, quando deveria entrar às 7h30min, entretanto, costumo almoçar, dias 11h30, dias 12h, dependendo de volume de atividades a serem cumpridas, retornando ao serviço, cerca de 40 minutos depois, quando tenho o direito de 1 hora e meia de almoço. Faço isso, não por caridade, mas porque moro longe e prefiro ficar no próprio serviço após o almoço.
    Assim, reclamo a perda desta flexibilidade, do espaço flexível se transformando em rígido, o qual impera nos pátios empresariais. Não sou um funcionário da quantidade e da produtividade, mas da qualidade e da solidariedade. Se querem me avaliar, tem-se os instrumentos próprios da legislação ou das avaliações de desempenho, mas transformar meu trabalho em um espaço fabril, com issso não posso concordar.

  2. Silmar Bohrer
    Silmar Bohrer 30 de novembro de 2008

    É bem essa a verdade, Márcio, as pessoas têm
    medo das mudanças, do desconhecido (muitas vezes), mas esquecem que estamos no século 21, onde tudo é muito rápido, é veloz, é inesperado. E a escola deve ser, logicamente, o transmissor oficial desta avalanche de coisas novas que nos chegam diariamente. E aqueles nela envolvidos – secretários de educação, diretores, professores – devem ser os primeiros a arregassar as mangas, se atualizando e passando aos alunos as novidades de um mundo maravilhoso que chega a cada dia…
    Cada um deve lutar com suas próprias forças contra tudo, maus salários, más dependências, más línguas, as opositoras, para trazerem aos estudantes o que eles realmente precisam, uma educação atualizada em todos os sentidos.
    Os recalcitrantes a mudanças que tomem outro rumo, outros caminhos, sigam no seu pensar ainda retrógrado, que apenas pede que o tempo passe e a vida siga a seu bel prazer, porque MUDANÇA é coisa muito ruim para eles.
    Muito boa sua crônica, nada anacrônica, mas bem sintonizada com o mundo em que vivemos. Bom… Bom… !!!!!

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