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MURO DAS LAMENTAÇÕES

Um jovem recém-casado resolve plantar uma árvore em frente a sua casa, talvez seguindo aquela máxima que diz: “um homem, para ser feliz, deve fazer um filho, plantar uma árvore e escrever um livro” (não necessariamente nesta mesma ordem)… Agora só faltam dois passos: o filho e o livro…

 

Pois bem, aquela plantinha inofensiva cresce vagarosa e silenciosamente, abrindo com total liberdade seu leque de galhos e folhas verdes, penetrando o solo, sem pudor, bem à vontade, em busca de alimento e sustentação…
Que maravilha!… Aquela árvore crese livre, leve e solta, até que seu proprietário resolve construir, sem consultá-la,uma calçada ao seu redor e um muro ao seu lado, símbolo máximo da insegurança do capitalismo selvagem e egoísta, que , neste caso, separa o homem de sua árvore, mas serve também para separar nações e causar até guerras…
Porém, árvores não se entregam facilmente… Nossa protagonista permanecia crescenco em tamanho e graça, indiferente àquele paredão de concreto (quase armado), que acabou não resistindo a seus impulsos irriquietos, vagarosos e silenciosos de sempre buscar o infinito… O muro cedeu… quebrou… rachou… esquartejou… Em outras palavras: se abriu, entregando-se àquele tronco grande, grosso e teimoso.
Indignado com aquela fissura, o proprietário, cheio de cólera, agora não tão jovem assim e antes mesmo de fazer um filho e escrever um livro prepara suas armas mortíferas e sangrentas: a motosserra e o machado, que juntos têm um poder destrutivo semelhante a bomba de hidrogêneo, para acabar com a fotossíntese e o oxigêneo…
Sem dó, nem piedade, aquele homem, fora de sí, sente a cada machadada uma vitória, permitindo-se levar pelo riso sarcástico… A árvore chora, deixando escorrer a resina sobre a calçada que nunca suportou sua capacidade de crescimento e desenvolvimento… Para dar o “tiro de misericòrdia”, o lenhador, antagonista improvisado e desequilibrado aciona a motosserra que penetra sua seiva de uma extremidade a outra… Não resistindo à cobiça da construção civil, aquele pé de vida, depois de tantos anos é derrubado… cortado da sociedade… rachado… e a única herança que lhe resta por direito é o fogão à lenha: destino de toda planta que tira o sossego de um muro.
Mas a natureza é sábia e teimosa… ao destruir aquela árvore, o homem esqueceu,-se da raíz que ainda teima em viver e buscar o infinito. Luta do seu jeito infeliz, penetrando ainda mais o solo num sofrimento inenarrável e buscando inutilmente a superfície outra vez. Por vezes, a terra retumba, numa atitude de protesto e solidariedade ao esforço daquele ser vivo que já não se permite mais ser tão vegetativo…
A terra treme, a raíz cresce, a calçada se parte de ódio (sim, porque o ódio só parte o ser que odeia, não o odiado), ciúmes e superficialidade… E o muro, com uma profundidade razoável, porém, não maior que as raízes, entrega-se às forças da natureza e num ato desagradável e humilhante, cai como uma peça de dominó… No tombo leva todo o sonho e a cobiça do capitalismo que separa vidas e em nome deste “aparteid”, destrói a natureza silenciosa, nobre e gigante, que às vezes tarda, mas nunca falha, nem deixa de ser justa…

Márcio Roberto Goes
Fugindo do IBAMA

One Comment

  1. Inhu
    Inhu 27 de fevereiro de 2009

    Após derrubarem o muro de Berlin, aconteceu algo inesperado, as pessoas de lados opostos do muro, não se conversavam, não se familiarizavam… então criou-se na Alemanha a seguinte frase: – o muro de pedra é muito mais frágil que o muro de nossas mentes!

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