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Meu pão de cada dia

 

 

Duas xícaras de farinha de trigo, duas colheres de açúcar, meia colher
de sal, uma colher de nata, fermento biológico e, se quiser, um ovo. Tudo isso
multiplicado por três, o número de pães que costumo fazer. Esta é
uma receita que, por ser relapso, não aprendi com minha mãe, mas
bem que poderia, pois até hoje não encontrei um pão caseiro melhor
que o dela… Na verdade, o segredo está nas mãos que o preparam e
não na receita em si, portanto nem tento fazer pães semelhantes aos
da minha progenitora, simplesmente os faço para consumo próprio o
que me rende uma considerável economia…

Estou diante de um deles, feito por mim… Este alimento consagrado e
símbolo do fruto de nosso trabalho. É tudo o que eu tenho no
momento: Um pão caseiro, meio pote de margarina e café o suficiente
para preparar algumas xícaras da bebida preta, pois nem leite se
encontra mais nas prateleiras… A geladeira igual às sessões
ordinárias da câmara de vereadores: quase vazia. Um punhadinho de
carne moída, algumas batatas para o molho do macarrão também
caseiro, um ovo, uma forminha de gelo cheia e inútil neste inverno
rigoroso. Nos armários, um pouco de arroz, feijão, sal e farinha de
trigo para fazer mais pão e macarrão…

Tudo isso seria o suficiente até o pagamento que estava agendado para
ontem. Meu contracheque? Este está ainda pior que a geladeira, quase
zerado, contas a vencer, cheques para entrar, boletos para pagar…
Será necessário um novo tratamento para o estresse?… Espero que
não, pois a greve é legal, direito de qualquer trabalhador.
Trata-se  de uma causa justa. Queremos que se cumpra a lei,
simplesmente… Porém eu e meus colegas grevistas fomos penalizados,
simplesmente por reivindicarmos uma educação com mais qualidade e
menos vitrine….

A nota que vemos na imprensa tenta convencer-nos de que o “Colombinho” e
seus queridos aliados foram muito além do que o governo tem
disponível para nossos honorários e pede que os professores voltem
ao trabalho… Estive na frente de batalha por trinta dias, voltei
antes das ameaças repressoras de um governo que enobrece só quem já
é nobre e mente que não tem verba para pagar o piso que é lei…
Muitos colegas, porém, continuam de braços cruzados em protesto
contra esta repressão mascarada de uma continuidade de governo que
nunca cumpriu com as promessas de valorização do magistério
público… Aliás, até hoje não vi nenhum engravatado eleito pelo
povo que trabalhasse realmente em prol dos interesses populares…

Há! Mas o governador é bonzinho!… Diante da pressão, prometeu rodar uma
folha suplementar reparando o desconto ilegal e desumano que
“quebrou” financeira e moralmente todos aqueles que ousaram lutar
por seus direitos… É assim com o pagamento deste mês, está sendo
assim com a regência de classe: Primeiro retira, depois devolve…
Qual é a intenção disso? Será que nosso ilustre governador espera
que sejamos eternamente gratos por ele devolver aquilo que nos tirou
ilegalmente?… Numa análise mais profunda, estamos diante de um
estelionato disfarçado de negociação salarial… E nos dias em que
sobrevivermos a espera da milagrosa folha suplementar, quem vai
custear os juros pelo atraso das contas?… Não será o Raimundo
que, com certeza tem sua mesa, diuturnamente recheada de guloseimas
pagas por cada um de nós…

Não que eu queira me queixar, mas não seria preciso esperar por um direito
já garantido há quase três anos enquanto degusto as fatias que
ainda restam do pão caseiro feito pelas mesmas mãos que digitam
estas palavras de protesto… Sei que, como eu, milhares de
educadores estado afora encontram-se na mesma situação lastimável,
simplesmente porque não baixaram as orelhas para os opressores que
se acham no direito de pagar um salário indigno da formação dos
educadores das nossas crianças e jovens que também esperam por uma
escola pública com aquela qualidade prometida nas campanhas
eleitorais…

De qualquer forma, já fui chamado de vadio e sobrevivi, não me dói
nada ser chamado de chorão… Sei que os gravatinhas do palácio
dificilmente lerão minhas palavras, mas se isso milagrosamente
acontecer, já imagino o comentário:

    • Ora! Larga mão de chorumelas e come teu pão bem feliz, grevista de
      bosta!

 

Márcio Roberto Goes

 

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