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Martinha

Ela estava desempregada… Sempre foi uma pessoa simples, mas por onde passou, deixou sua marca registrada de boa profissional: vendedora, atendente de posto de gasolina, caixa de supermercado e panificadora, microempresária. Esta última experiência frustrou-a profundamente após a falência…

Agora, inflava as estatísticas daqueles que procuravam um emprego. Estava só, com dois filhos e uma vida cheia de altos e baixos… Precisava dar a volta por cima… Precisava reagir… Parece que as forças já não eram as mesmas… As oportunidades já não sorriam para ela como outrora… Sofria a discriminação doída daqueles que se acham os juízes da vida alheia… Não tinha mais perspectiva de avanços… Só tinha a oitava série do ensino fundamental. Seria difícil conseguir um bom emprego com tão pouco estudo, apesar da grande e eclética experiência adquirida durante anos de dedicação por onde passou… Mas tanto empenho só engordaram o bolso de seus patrões e a deixaram na sarjeta, sem voz, sem oportunidades, sem futuro…

Porém, o destino a levou até o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas: uma escola pública. Não era o melhor trabalho do mundo. Tinha que pegar na vassoura, usar luvas de borracha que deixavam suas mãos com um odor desagradável, principalmente quando precisava limpar os dejetos dos gênios e futuros gênios distraídos o suficiente para errar a mira do vaso sanitário e evitar a fadiga de dar descarga no momento oportuno. Calçava botas de borracha, lavava o chão por onde transitava o conhecimento, as paredes onde brotavam a sabedoria e as escadas por onde desciam e subiam os conteúdos que tornariam melhores os seres que por ali passavam…

Seus dotes foram logo identificados. Agora estava na cozinha. Sua função era preparar o lanche dos mestres e seus discípulos… Que maravilha! Poderia usar seus conhecimentos culinários para melhorar a vida das pessoas ao seu redor através do paladar… Estava feliz! Fazia seu trabalho simples e desvalorizado por alguns com muito amor… Recebia elogios, pedidos… Conversava com todos, sem discriminação… Servia com carinho, desde o mais humilde aluno até o professor mais cheio de títulos… Sentia-se cansada no final do dia, porém realizada por ver cada sorriso, cada agradecimento sincero à tia da cozinha… “Deus que ajude, tia!… O lanche estava delicioso!”… Diziam os alunos mais educados…

Mas, na concepção de alguns, ela não poderia continuar ali. Era muito para uma servente… Conseguiram fazê-la voltar ao lugar de onde nunca deveria ter saído… Enquanto limpava uma sala de aula, subitamente para, encosta o cotovelo na vassoura e observa lentamente as carteiras, o chão por limpar, o lixo por recolher, as cortinas balançando ao vento como bandeiras da paz, parecendo chamá-la para aquele mundo, o quadro branco… Viu tudo com outros olhos, com olhos de sonhadora. Lembrou-se de todas as batalhas vencidas até então. Sempre foi forte e corajosa, nunca deixou a desejar no seu trabalho… aquele ambiente lhe chamou especial atenção…

Vinte e cinco anos depois, ela volta aos bancos escolares. Matricula-se no magistério, curso que prepara bons professores, expondo-os a conhecimentos que nem mesmo a faculdade proporciona… Volta no tempo, compra alegremente seus materiais e dedica-se de corpo e alma a uma nova, fascinante e edificante profissão… Durante o dia, continuava limpando e organizando, discretamente a vida escolar de professores e estudantes, ouvia muitas críticas, sofria muitas discriminações, mas continuava lá, cumprindo seu papel, fazendo sua parte para o bem da educação pública… À noite, mesmo cansada da labuta, sentava na cadeira do aluno… Estudava, buscava o conhecimento, pesquisava, errava, acertava… Descobriu, inclusive as maravilhas do mundo virtual que a ajudou na busca por conhecimento… Aprendia a aprender novamente… Aprendia a ensinar…

“Não vai aguentar muito tempo!”… Cochichavam em segredo os mais pessimistas ao seu redor… “Você é especial!”… Diziam-lhe outros… Quando queria desistir, alguém lhe batia no ombro e dizia: “Vá em frente! Você é capaz de vencer novamente! Aqueles que te humilham hoje, num futuro muito próximo a verão largando a vassoura para abraçar os livros e os pincéis a fim de ajudar as crianças e jovens em busca do conhecimento…”

“O problema não é limpar banheiro…” Dizia ela… “O problema é aguentar desaforos, todos os dias, daqueles que se julgam melhores…” E como tem gente que se acha melhor que os outros…

Mas ela era persistente e, com sucesso, concluiu os quatro anos de magistério… Nem acreditava ao receber o diploma… Noites de sono perdidas, estágios, relatórios feitos e refeitos tantas vezes… Mas não bastava, afinal continuava limpando fezes e aguentando insultos durante o dia… Ela queria mais. Só mais um pouquinho!… Passou no vestibular para Artes Visuais e, ainda na primeira fase, assumiu algumas aulas na educação de jovens e adultos numa cidade vizinha… Sua rotina continuava corrida: De dia servente… À noite, pegava a estrada cheia de curvas até Rio das Antas para lecionar e, nos finais de semana, ocupava um lugar nos bancos acadêmicos… Continuava, pacientemente servindo alunos e professores com carinho… Continuava estudando e buscando mais conhecimentos… Mas agora, em alguns momentos, era a professora, amada e respeitada pelos alunos que, como ela, não tiveram a oportunidade de estudar no tempo certo… Seu testemunho fazia seus amigos estudantes acreditarem que nunca é tarde para t
omar a decisão de aprender…

Porém, o contrato de professora era temporário e acabou… Ficou triste… É assim que ficam os professores que educam com o coração quando não podem mais continuar em sala de aula… Seu trabalho de servente também estava sofrendo duras críticas e não podia mais voar. Suas asas estavam machucadas, seu exoesqueleto de besouro teimoso, danificado… Não suportou a pressão e “chutou o balde”… Não teve direito nem mesmo ao aviso prévio. Saiu da mesma forma que entrou, sem nada, sem dinheiro, sem emprego, sem dignidade… Mas olhava o infinito… Mesmo sem emprego, sentia-se feliz…

Sua esperança a levou a inscrever-se no concurso de ACT (Admitido em caráter temporário) na rede estadual… Primeira chamada nem chegou perto da sua classificação, segunda chamada… nada… Terceira chamada. Estava lá a Martinha, carregava uma história única e, apesar do meio século de vida, trazia nas veias o desejo juvenil de contribuir para a melhoria da escola pública… As vagas passavam, apagavam-se do telão uma a uma… Desanimou. Deu alguns passos até a porta de saída, mas alguma coisa lá dentro de seu coração segurou seu corpo naquele recinto, como que dizendo: “Você chegou, com muito custo até aqui. Não é hora para desistir…” Não demorou muito até chamarem seu nome. Meio desconfiada aproximou-se da mesa e, ao sair de lá, trazia nas mãos a conquista de anos de luta contra a discriminação e humilhação… Um contrato de quarenta horas semanais numa das principais escolas públicas estaduais de Caçador, onde há décadas havia cursado o ensino fundamental… Ali nascia uma nova artista… Uma nova professora calejada pelos tropeços da vida que agora estava apta a entrar na escola pela porta da frente e ficar, diuturnamente no melhor ambiente para se relacionar com seres humanos: a sala de aula…

Com certeza, seus alunos, orientados por ela, saberão o valor de cada trabalho dentro da escola e colaborarão com a ordem e limpeza do ambiente escolar, pois ali está uma ex-servente que hoje tem a responsabilidade de auxiliar na limpeza da alma e do coração daqueles que serão o futuro da nação…

Márcio Roberto Goes

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