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Infelizes

Assistindo aos comerciais de TV, percebe-se um grande empenho em fazer o consumidor sentir-se valorizado pela mercadoria, quando na verdade acontece o contrário: as grandes empresas argumentam de tal forma que atribuem superpoderes a seus produtos nos fazendo perceber o quanto somos inúteis enquanto não nos rendermos à obsolescência planejada dos gigantes do capitalismo…

Sinto-me desconfortável ao assumir que não gosto de cerveja, seja ela quadrada, ou redonda, seja aquela que estufa, ou não… Aliás, para mim é tudo a mesma coisa, tudo o que vejo nos comerciais desta bebida oriunda da cevada, eu consigo conquistar sem ela, inclusive dirigir melhor. Mas a TV me mostra que preciso beber cerveja para ser feliz e fazer feliz as pessoas ao meu redor e, ao final dos trinta segundos, uma voz do além diz: “Se dirigir, não beba!”… E agora? Não posso ser feliz e dirigir ao mesmo tempo?… Céus! Acho que não sou deste mundo. Pelo menos não do mundo que a cerveja prega…

Me acho o pior dos homens quando me vejo rodando por aí com um automóvel 2003, pois os comerciais dizem que devo aproveitar a oportunidade e adquirir um carro zero, só assim serei feliz. O problema é que toda montadora diz que o seu é o mais completo da categoria, é o melhor, mais econômico, mais forte e com melhores condições de pagamento… Mas ninguém divulga que, ao adquirir um carro destes, é preciso pagar milhares de parcelas que, nem sempre cabem no bolso, quando há atraso, o juro é infinitamente maior que qualquer outro do mercado e, pior: qualquer negociação de dívida, certamente se desenha em favor da financiadora e nunca do proprietário do veículo que, se bobear, fica com a dívida e sem o carro… Sem falar que, por precaução, é melhor contratar um seguro que não é nada barato…

Mas os comerciais que mais me causam contradição são os de creme dental… Já percebeu que todo comercial de pasta de dente divulga que aquela marca é a mais recomendada pelos dentistas?… Ou os dentistas são muito indecisos, ou alguém está mentindo por aí… Todos prometem branqueamento e diminuição da sensibilidade, refrescância e hálito puro, mas não gostam que usemos todo o produto. Outro dia tentei aproveitar tudo o que podia de um tubo de creme dental, apertei o máximo com as duas mãos até conseguir meio centímetro pra fora, quando larguei uma das mãos para pegar a escova, o desaforado voltou para dentro. Continuei com os dentes sensíveis, não tão brancos e sem o hálito puro prometido pelo fabricante… Mas bem sabemos que o creme dental tem função exclusivamente estética e olfativa, já que os dentes são limpos, realmente pela escova que, seja qual for, também é a mais
recomendada pelos dentistas indecisos…

A verdade é que, cada vez que se produz um comercial de TV, ou outra mídia qualquer, existe um único propósito: Fazer-nos sentir
infelizes com aquilo que temos e somos, do contrário, não buscaríamos coisas novas se as velhas nos fossem úteis. Aí vemos um monte de campanha em favor do meio ambiente no meio dos comerciais que nos obrigam a consumir cada vez mais. E, bem sabemos que, quanto maior o consumo, maior a poluição… O que adianta reciclar inocentes garrafinhas pet, se continuamos procurando produtos novos para antigas necessidades. Cada carro novo que sai da montadora, corresponde a toneladas de entulhos gerados só para manter o conforto e o status de alguém que se julga infeliz pelo simples fato de não ter um carro zero… Porém os comerciais nos fazem infelizes sem o automóvel novo. Quando o temos, somos felizes por pouco tempo, pois logo deixa de ser zero quilômetro…

Mas é preciso manter o consumo, girar a economia, gerar emprego, renda e poder de compra. Afinal, é muito deprimente para os grandes empresários, perderem um único ponto percentual nos seus lucros. Quando isso acontece, sacrificam-se os funcionários do chão de fábrica e suas famílias que, para o sistema, não se importam de baixar o padrão de vida em favor dos lucros do patrão…

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