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“Eu entendo vocês”

 

Ainda era um acadêmico de letras no antigo campus da Unc Caçador, quando, em 2002 encontrei um dos maiores exemplos na profissão que eu estava abraçando: a professora Ilse, que numa de suas aulas nos trouxe outro exemplo de vida. Trata-se da história de Gabriel Emmer:

Gabriel Emnmer

 

O Gabriel nasceu com paralisia cerebral que afetou severamente o desenvolvimento de sua coordenação motora, jamais seria capaz de falar, andar, ou ter domínio total sobre seus movimentos. Sua família, sobretudo dona Sofia, sua mãe, nunca teve vergonha ou reclamou do fardo. A partir do momento em que seu filho atingiu a idade escolar, caminhava com ele nos braços por quilômetros do interior do município até o ponto para pegar o ônibus da APAE…

Com o passar do tempo, vieram morar na cidade, mas a rotina continuava e assim, o Gabriel cresceu ao redor de pessoas, com exceção da família, que o tratavam como criança e subestimavam sua capacidade de compreender o mundo ao seu redor… Passavam-se os dias, e aquele jovem continuava sem progresso aparente, apesar dos inúmeros esforços das professoras que teimavam em alfabetizá-lo… Enquanto cuidavam, carinhosamente daquele jovem, faziam seu trabalho de alfabetização, aparentemente sem resposta para muitos, mas elas sabiam em cada sorriso, em cada olhar que o esforço estava sendo de grande valia…

Um dia, os alunos da APAE foram convidados a fazer uma experiência no laboratório de informática da Unc. Amarraram o Gabriel numa cadeira em frente a um computador e lá o deixaram… Alguns minutos depois, ouviu-se gritos inexprimíveis do jovem que reagia ao ver as letras correndo no descanso de tela… Todos ficaram assustados e então, a professora Ilse tomou uma atitude que mudaria a vida dele: Abriu o Word e pediu-lhe que escrevesse algo. Muito demoradamente, com a ajuda da professora para apoiar os braços, ele digitou, letra por letra:

“EU ENTENDO VOCÊS”

Palavras simples, corriqueiras, mas que, em vista da situação, tocam nos mais profundos e sublimes sentimentos humanos… Atitude que só foi possível depois da determinação de pessoas, que mesmo desacreditadas teimaram em alfabetizá-lo. Depois disso, foi dado a ele uma máquina de escrever que o permitiu declarar seus sentimento ante o mundo ao seu redor através de uma carta onde dizia ter consciência da própria deficiência e revelava a angústia que sentia quando era tratado com desprezo, ou de forma diferente das outras pessoas, só porque sua comunicação não poderia ser recíproca, já que até então, não lhe havia sido dada a devida oportunidade…

Passei a admirá-lo sem conhecê-lo e contava esta história a toda turma nova que eu assumia… Numa destas turmas, uma aluna se manifestou dizendo que o conhecia e queria nos levar para fazer-lhe uma visita, já que no dia seguinte haveria uma exposição na APAE. Consultei a direção e tive uma resposta negativa. Enquanto subia aqueles degraus, pensava numa maneira de dar a má notícia aos alunos. Ao dizer-lhes que o diretor não havia autorizado nossa saída no dia seguinte, a turma toda levantou-se e foram, em peso falar com ele. Diante de tamanha pressão, nosso gestor obrigou-se a autorizar o passeio, desde que este professor que vos escreve, ficasse responsável…

Era tudo o que eu queria!… Fomos a pé da escola Irmão Leo, que ainda funcionava nas dependências da antiga Universidade do Contestado, até e APAE e nenhum aluno ficou pelo caminho. Todos saíram e todos chegaram ao destino. Assistimos ao teatro e lá estava nosso herói, fazendo o papel de aluno, amarrado na cadeira de rodas, atuando com seu sorriso e seu olhar que nos fazem perceber o quanto são importantes as pequenas atitudes para transformar nosso dia, nossa vida e a vida daqueles que nos rodeiam… Buscamos coisas grandiosas e deixamos de perceber a ternura e o amor fraterno através de um tetraplégico que nos fala sem palavras que somos muito maiores do que pensamos… E que diante de Deus, somos todos iguais, embora nos julguemos uns melhores que outros…

Neste dia, vivi uma das maiores emoções de minha vida de educador: Ao terminar o teatro, dirigi-me até a sala onde o Gabriel expunha seus trabalhos, tendo em minhas mãos a cópia daquela primeira carta produzida numa antiga máquina de escrever, sentei-me ao seu lado, em cima de um lixeiro e, com a folha na mão, perguntei-lhe: “Gabriel, você conhece este texto?… A alegria tomou conta daquele corpo amarrado à cadeira de rodas e seu sorriso contagiou todo o ambiente. Então completei: “Aí fora tem trinta e poucos alunos que leram suas palavras e querem conhecê-lo”…

Com a ajuda de sua professora e de uma tabela onde ele me mostrava as letras do alfabeto, conversamos alguns minutos e o levamos até o pátio onde foi recebido com aplausos pela turma que me acompanhava naquela visita. Fizemos fotos, conversamos e meus alunos saíram dali, com certeza melhores, assim como eu, repensando muitos dos valores que prezamos em nossa breve vida terrena…

Minha emoção foi ainda maior alguns dias depois, quando recebi um bilhete digitado por ele, que entre outras, destaco as seguintes palavras dirigidas a minha pessoa: “Gostei de você porque me tratou normalmente”… Tenho certeza que fiz bem, porém se não soubesse, antecipadamente da história deste que tem nome de anjo, não teria a mesma atitude diante de uma pessoa tão especial… Hoje o entendo, graças à oportunidade que ele teve de, um dia, quase por acaso, ser o primeiro a dizer que nos entendia…

O computador é sua comunicação com o mundo

 

Agora, nos comunicamos, com certa periodicidade por correio eletrônico, tenho a alegria de encontrá-lo no MSN e no Orkut… É por essas e outras experiências que revigoro, a cada dia minha motivação para seguir a sublime profissão de professor, além de expressar minhas ideias através da palavra escrita, da mesma forma que o Gabriel…

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Informe – O diário Regional

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