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Em busca do artista

 

Guiando pela cidade com o fusquinha da cor de seus sonhos, João dos sonhos azuis para no semáforo da parte baixa da avenida Barão do Rio Branco, num desses sábados movimentados que só fazem bem aos favorecidos do capitalismo que lucram em cima da cobiça e das emoções dos seres humanos iludidos pensando que pacotes de presente compram a paz…

Enquanto espera o sinal abrir, recebe todo tipo de panfleto de supermercado e, na faixa de pedestres, surge um jovem, chapéu de tecido listrado preto com branco, camisa azul, bermuda jeans com suspensório e um tênis já surrado pelo tempo. Carrega um monociclo e, debaixo do sol forte, sobe naquela única roda. Lá de cima, mostra ao motorista do fusquinha azul algumas facas. Bate uma na outra a fim de mostrar que são reais, de metal… Então começa o malabarismo: Um show fantástico de equilíbrio, habilidade e perigo… “Já pensou se ele erra o lado e pega a faca pelo fio?” – Pensava João enquanto aprovava o espetáculo com sorrisos e sinais de cabeça… Trocaram olhares por alguns segundos, até que o artista desce do monociclo, dirige-se à janela do fusquinha e estende o chapéu… “Não tenho nada agora!” – Declara, meio contrariado, o João – “Vou ao banco, daqui a pouco, volto”… O artista de rua agradece num portunhol meio complicado…

Abre o sinal e o fusquinha sobe a avenida com aquele ronco inconfundível do besourinho querido por tantos brasileiros… Passando no banco, nosso sonhador de sonhos azuis saca o dinheiro de seu salário e esquece do fato, vai cumprir seus compromissos financeiros na cidade e volta para casa ao meio dia…

À tarde, busca sua namorada no trabalho e, lembrando do fato, conta a ela. Juntos têm a ideia de voltar ao semáforo e procurar o malabarista para dar a devida contribuição pelo espetáculo feito anteriormente… A generosidade é a melhor das qualidades humanas, João e sua namorada são generosos ao extremo… Todo trabalho deveria ter seu devido reconhecimento. Existem várias formas de se ganhar a vida, uma delas é a arte. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, as artes também são uma forma de trabalho. O artista estuda, ensaia, treina várias horas diuturnamente para se preparar. Portanto, merece o reconhecimento pelo seu empenho… João, como gosta de ser justo, vai em busca do artista para cumprir a promessa…

De longe, não foi possível ver o jovem. Pensaram ter perdido a viagem, mas ao aproximarem-se do sinal, lá estava ele, se empenhando novamente para agradar aos olhos e divertir as pessoas que esperavam a hora de arrancar novamente…

João, estaciona o fusquinha da cor de seus sonhos próximo ao semáforo. Ao término do show, chama o artista. Ele, por sua vez, olha para os lados para averiguar se o chamado se referia a sua pessoa e, olhando para João, aponta para si cochichando: “Eu?”… João faz um sinal com a mão para que se aproxime, puxa cinco reais e entrega na mão do artista… “Fiquei te devendo de manhã!” – diz ele com um sorriso… O malabarista olha para ele e agradece, faz o mesmo com a namorada do sonhador de sonhos azuis… Ambos observam. O jovem sai contente e, num gesto impensado, levanta as mãos para o alto fechando os punhos, como que agradecendo a Deus pela contribuição recebida…

Teria alguém reconhecido seu trabalho com alguma contribuição naquele dia?.. Será que seu esforço teria valido a pena até então?… Seriam aqueles cinco reais a garantia de seu lanche?… Infelizmente, aquele que se dedica no trabalho e no empenho de sua arte, dificilmente é reconhecido. Conheço muitos artistas caçadorenses, eu sou um deles, afinal, a Literatura também é arte. E com todos que conversei, ouvi queixas da desvalorização de seu trabalho… Já vi cantores de lanchonete serem vergonhosamente ignorados pelos clientes que não se dignaram largar os talheres, ou interromper a conversa, nem mesmo para aplaudir o empenho dedicado para chegar àquele momento. Já fui condenado por querer ver meus alunos cantando e mostrando sua arte para os diversos públicos… Presenciei a destruição dos grafites maravilhosos de nossos alunos, cobertos com tinta marfim para embelezar a escola… Pois bem, se o objetivo era deixar bonito, não funcionou. Os desenhos feitos pelos nossos amados alunos agradavam muito mais aos olhos, do que aquela cor de vomitado…

Nosso amigo João dos Sonhos Azuis e sua namorada, deram um exemplo de solidariedade, generosidade e reconhecimento do trabalho alheio…

Senhores governantes, aprendam com essas pessoas simples a incentivar e valorizar a cultura em nossa cidade… Chega de ficarmos idolatrando só aqueles artistas reconhecidos no Brasil e mundialmente. Eles já tiveram sua recompensa. Ainda existem muitas pessoas que vivem da arte muito perto de nós e continuam anônimas por não ter acesso à mídia… Infelizmente olhamos tão longe através de uma telinha, mas esquecemos de olhar as maravilhas da arte ao nosso redor… Pior ainda, quando estes artistas anônimos dão o melhor de si e não recebem a devida recompensa… Paga-se cem, ou duzentos reais para viajar quatrocentos e poucos quilômetros a fim de ver um show de rock, patrocinado por uma grande rede de rádio, mas renuncia-se ao show gratuito no parque central, feito por bandas locais, talentosas e empenhadas na sua arte…

Infelizmente, existe uma inversão de valores. Alguns shows são superfaturados e outros permanecem quase no esquecimento, por não terem os mesmos recursos nem os mesmos patrocínios e, portanto, “morrem na casca”… Muitos projetos são engavetados por falta de verba, mas aquele que sobrevive da arte, precisa enfrentar o sol forte em cima de um monociclo, jogando facas para o alto dependendo exclusivamente da generosidade dos seres humanos desumanizados…

Márcio Roberto Goes

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