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Ébrio

Quando eu não bebo… E quase nunca bebo… Sou feliz, mas dentro de minha
felicidade sóbria, vivo a realidade, sofro, rio, choro, entristeço,
alegro, luto, venço, perco, estresso, desestresso, enfim sou um ser
humano, vivo…

Quando eu não bebo e você bebe, me embriago junto, perco a noção do que
é certo e errado, faço coisas impensadas, me irrito mais, amo
menos, sou menos feliz, desprendo menos sorrisos, faço mais cara
feia, deixo de ser irmão, sou um monstro…

Quando você está sóbrio, sentimo-nos mais família, nos abraçamos,
beijamos a fronte um do outro, fazemos palhaçadas, arrancamos
sorrisos até perder o fôlego, nos respeitamos e respeitamos as
pessoas ao nosso redor, sinto-me mais irmão, sou de novo um ser
humano graças ao poder divino do sangue que nos une…

Quando você bebe e eu não bebo, você fica chato, sem noção, sem pudor,
sem freio nas palavras, sem objetivo, sem coordenação motora,
começa tudo e não conclui nada, ofende, afasta as pessoas, mente
descaradamente e culpa o resto do mundo pela situação…

Quando eu não bebo e você não bebe, passeamos com o cachorrinho,
visitamos os amigos, rimos muito, rimos até das desgraças, rimos
das cinzas do pai, das lembranças da mãe e da infância pobre que
ambos vivemos e vencemos… Vemos graça em tudo, nos comparamos com
os avós, saímos vendo lojas sem a mínima intenção de comprar
alguma coisa, ligamos os aparelhos de som do mostruário, fazemos
festa com as músicas das promoções do capitalismo, conversamos com
os vendedores sem pressa, rimos e somos ridos… A vida é uma
comédia!…

Quando estamos sóbrios, juntamos restos de guarda-roupas jogados nas
calçadas para reciclar e fazer prateleiras, paramos o carro e
pedimos para alguém do supermercado se podemos pegar as caixas de
madeira empilhadas do lado de fora, sempre arranjamos utilidade para
elas, pintamos, reformamos e damos vida para aquilo que foi
descartado pelos seres humanos descartáveis, sejam eles físicos ou
jurídicos…

Quando eu não bebo e você bebe, perco o rumo, me distraio, bato o carro,
durmo de menos sofro demais, viro as costas para o álcool que me
rouba o irmão, volto para casa chorando, não trabalho direito, não
consigo rir, não consigo arrancar sorrisos até perder o fôlego,
fico áspero, sem vida, sem perspectiva, sem ânimo… Morro um pouco
a cada porre seu… Você se mata um pouco a cada garrafa e não
percebe…

Quando ambos não bebemos, conversamos sobre tudo, consertamos o mundo, o
mundo nos conserta… Fico feliz ao ver teu sorriso sóbrio e receber
teu abraço caloroso… Já não temos pai nem mãe, temos um ao
outro e mais três irmãos… Somos uma família quando eu não bebo
e você não bebe…

Quando você está ébrio e eu sóbrio, a família desaba, divide opiniões,
divide vidas, tudo é desconfiável, o medo e a insegurança são
constantes, a festa acaba antes da hora e, às vezes nem começa…

Quando eu não bebo e você não bebe, a família se completa, lutamos
juntos, repartimos esperanças, as vidas são unidas e confiáveis,
somos fortes, nos divertimos, tudo vira festa…

Quando não convidamos a caninha, a festa dura mais tempo os sorrisos e a
felicidade são mais presentes… Somos, enfim felizes…

 

 

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Folha da cidade

 

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