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Dor filosófica

Um bom professor deve estar sempre ao lado de seus alunos… Um bom professor o é dentro e fora de sala de aula, não faz distinção de cor, sexo, idade, raça… Um bom professor é, como diz a canção “A chave de toda conquista”…

Esforço-me a cada dia para ser este bom professor… Esforço-me diuturnamente para não decepcionar meus queridos e amados alunos, tanto no quesito formação pessoal, como na humildade, pois um professor, apesar de seus títulos, não passa de mais um ser humano limitado diante dos seus alunos…

Às vezes aprendemos muito mais do que ensinamos com os estudantes e com qualquer pessoa que nos rodeia. Queremos ser mestres para os outros, mas constantemente deixamos de ser mestres para nós mesmos e raramente permitimos que os outros nos ensinem os diferentes saberes da vida…

Acreditando no trabalho com seres humanos sedentos de saber, organizamos uma caminhada de nove quilômetros até a comunidade do Castelhano. Não muita gente: eu e mais quatro alunos nos dignamos a acordar às cinco da manhã, no feriado de Corpus Christi, encostar o carro e partir com a força dos pés que caminharam sobre um chão com temperatura negativa durante quase duas horas…

No caminho, muitos flagrantes de atentado à sustentabilidade: garrafas pet, plásticos de toda espécie, metais, tudo perfeitamente reciclável, jogado de forma relapsa às margens da rodovia. Uma lição negativa de que a sustentabilidade ainda parece uma teoria para um mundo que já está vivendo, na prática, as consequências das atitudes antiecológicas de nossos antepassados…

A caminhada foi tranquila, arriscamos até um pouco de corrida… O mais arcaico presente era eu, portanto, o mais vulnerável aos efeitos do amarelão na certidão de nascimento… Passaram-se dois dias e fomos, a mesma equipe, cantar na Rádio Caçanjurê. Muita gente ouviu, muita gente gostou, muita gente nem tanto. Mas o importante é que estávamos lá abrindo o gogó para milhares de pessoas, apesar de trancados num estúdio com isolamento acústico… Cantamos tranquilamente, voltamos felizes com o estrelato fugaz que nos traz motivação para continuar a caminhada e acreditar em nossos talentos…

Os alunos deixaram o professor passional e andarilho cheio de orgulho… O professor fez seus educandos acreditarem que ele também é gente, imperfeito, desafinado, cheio de defeitos, mas esforçado o suficiente para ter coragem de soltar a voz ao vivo abraçado ao violão sem medo de mostrar o pouco que sabe e compartilhar com quem quer que aprecie suas artes…

Manhã de domingo. Ao acordar, tento levantar-me da cama normalmente. Impossível! De repente, uma dor insuportável nas costas… O que é isso? Dormi bem e acordei um trapo… Meu Deus… O que fazer agora?… Pra quem mora sozinho, nestes momentos é melhor suportar a dor e vencê-la, do contrário o sofrimento será muito maior e mais solitário… Todos os meus movimentos, a partir daquele momento, deveriam ser friamente calculados, pois se houvesse um erro seria muito sofrido repeti-lo… Mais tarde, em consulta ao médico de plantão, depois de duas horas e meia esperando acompanhado pela namorada mais maravilhosa do mundo, ouvi o diagnóstico do plantonista: Foi a caminhada… E a dor só apareceu três dias depois… São coisas que o tempo se encarrega de nos apresentar: a cada instante, uma nova dor e uma situação nova para enfrentá-la: Fatos que só acontecem para quem está vivo…

À noite, já no conforto do meu lar, converso, por MSN, com um grande amigo meu, cadeirante que não tem domínio sobre os próprios movimentos por conta de uma paralisia cerebral que sofreu durante o parto, portanto ele também não fala. Só consegue se comunicar através da linguagem escrita, mesmo assim de forma demorada e muito sofrida… A ele me queixo das dores nas costas… Ele me conforta dizendo que logo passa…

Mas o que foi que eu fiz?… Queixar-me de dores nas costas para alguém nesta situação é até um pecado… Naquele momento, senti uma vergonha imensa de mim mesmo, como nunca sentira antes… Quem sou eu para me queixar de dores causadas por uma longa caminhada?… Devo agradecer pelo fato de ter saúde o suficiente para percorrer o trajeto tranquilamente e só sentir dores três dias depois…

Lembrei do meu amigo Gabriel e tantos outros conhecidos que têm suas limitações, vencem barreiras, preconceitos e limites com um sorriso nos lábios e uma gigantesca força de vontade no coração… Recordei-me de todas as pessoas imperfeitas dentro de sua perfeição, que passam todos os dias pela minha vida… Percebi, sobretudo, que também sou limitado, tenho deficiências e, nem por isso me torno um ser humano incompleto… Preciso de óculos para enxergar um mundo de cores e formas que, muita gente vê perfeitamente a olho nu, mas conheço muitas pessoas que não enxergam o mesmo mundo nem com auxílio de lentes corretivas e, nem por isso deixam de ser felizes aguçando os outros sentidos…

Não são nossas limitações que nos tornam imperfeitos e sim a maneira como as encaramos… Enquanto a queixa diária for uma constante, estaremos reforçando o problema e nos distanciando da sua solução…

Então, tudo o que eu preciso é fazer o tratamento medicamentoso com disciplina, levantar a cabeça e seguir em frente com ou sem dores… Afinal, a dor nada mais é que um sinal alerta nos mostrando o quanto somos vulneráveis às imperfeições que, por muitas vezes discriminamos em nossos semelhantes… Quando os seres humanos reconhecerem estas imperfeições e acreditarem-se mais iguais e menos superiores, quem sabe teremos um mundo mais igualitário com justiça e dignidade para todos…

 

Márcio Roberto Goes
www.portalcacador.com.br
www.cacador.net

Um Comentário

  1. Anônimo
    Anônimo 23 de Janeiro de 2015

    Legal show esse blog. Problema

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