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Dois pregos no Martello

 

Ainda era aluno de magistério na década de noventa quando tive a primeira experiência como professor numa escola municipal de Caçador. Tratava-se de uma segunda série do ensino fundamental. Gostava muito deles. Conseguimos uma relação tão sólida e amigável que não era preciso dar ordens. Meus alunos sabiam quando era possível ir ao banheiro e quando era preciso atenção ao que o professor explanava. Sabiam também que nenhum aluno poderia se ausentar da sala de aula se outro já estivesse fora. O professor estando ou não na sala implicava no mesmo comportamento por parte dos alunos que, desde cedo, já sabiam organizar seus horários e compromissos… Mérito só meu? Não! Com certeza tinha uma enorme responsabilidade nas costas da professora a qual eu substituía enquanto ela aproveitava sua merecida licença…
Vivi muitas e inesquecíveis experiências, foi lá que aprendi a abraçar de coração e sem preconceito, pois as crianças sempre agem com o coração, os adultos é que as ensinam a ser falsas com o passar do tempo… Constantemente ganhava presentes dos alunos, mas um deles, o primeiro de todos, me chamou especial atenção: Dia de festa junina, nossa turma ficou encarregada da quadrilha… Era hora deste que vos escreve mostrar o que aprendera no magistério com o professor Adalberto. Ensaiei passo a passo, cuidadosamente com as crianças e o resultado não foi outro: um espetáculo que rendeu muitos elogios aos meus anjinhos. Após a apresentação, um aluno procurou-me, abraçou-me demoradamente conforme havíamos aprendido e me ofereceu um masso de palha de milho que usava como ornamento atrás da orelha: “Meu presente pra você, professor” – Disse-me ele, agradecido… Este presente… Este pequeno presente, guardo comigo até hoje. Para muitos não passa de um montinho de palha, mas para mim foi a primeira de muitas agradáveis lembrancinhas  que recebi nas escolas por onde andei…
Depois disso, ganhei de tudo: soldadinhos de chumbo, bilhetinhos (não respondi nenhum, é claro), balas de todos os gêneros, cartas quilométricas, canecas das mais diversas formas, bichinhos de pelúcia, canetas… muitas canetas, cartões para todas as ocasiões e até flores… Na verdade já ganhei de tudo e tudo tem o seu valor, pelo menos para mim. Uma lembrancinha, por menor que seja, recebida de um aluno, merece um lugar especial na minha caixinha de lembranças que fica lá dentro de meu coração apaixonado incorrigivelmente pela educação pública… Não importa o presente, o que importa é o coração tanto de quem recebe, quanto de quem o oferece… Experimente você, dar uma flor a uma vaca. Provavelmente ela vai comê-la, ou na melhor das hipóteses “não dará a mínima”. Porém, se fizer o mesmo presente à pessoa que ama, a reação será completamente oposta. Na verdade, junto com cada presente, vai um pedaço do coração de quem oferece… E quem recebe, ao agradecer sinceramente, está dando também um pedaço de seu coração…
E eis que, mais de dez anos depois, no Abacatão do Martello, meu querido Wandão que continuo amando apesar das intempéries, quando pensava que já tinha ganhado de tudo dos meus alunos, me acontece um fato inédito: Um aluno, o mesmo que outrora me derrubara por conta da força motriz de seu abraço amigo, para em minha frente com dois pregos na mão, aliás, dois pregos bem novinhos: “Meu professor querido” – Disse-me depois do costumeiro abraço de quebra-costelas – “Encontrei estes dois pregos na rua e resolvi lhe presentear.”… Agradeci sorrindo, como se estivesse recebendo duas canetas foleadas a ouro e lhe dei um novo abraço. Fato merecedor de grande destaque, pois não é todo dia que recebemos dois pregos de presente de um amigo, ainda mais quando se trata de um amigo-aluno que, como poucos, não tem vergonha de demonstrar carinho pelos seus professores… Alguém pode me dizer que não passa de uma brincadeira da parte dele… Mas, com quem ele teria intimidade suficiente para brincar desta maneira?… Somente com alguém que julga ser seu amigo a ponto de rir da situação e retribuí-lo com o mesmo senso de humor e carinho. Sinto-me honrado por ser merecedor destes dois pregos encontrados nas ruas do Martello…

Márcio Roberto Goes

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