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Derrubando a cerca

 

 Não vai muito longe o dia em que eu fiz uma colação de grau, tornando-me professor habilitado em letras, onde prometi, entre outros, educar meus alunos para a cidadania… Porém lá no fundo do meu coração, onde já brotava um imenso amor pela educação, eu fazia mais uma promessa: Contribuir para que meus alunos tivessem a coragem e a determinação de expressar e defender suas idéias com argumentos sólidos e de maneira diplomática… E o mais importante: não deixar jamais que sejam “abortados” os seus ideais.
 Durante este ano letivo, tive muitas surpresas por parte de meus “pupilos”, tanto de ensino médio, quanto de quinta a oitava série: Uma tarde, como sou regente de terceirão, eu deveria acompanhar minhas alunas da comissão de formatura para fazer orçamento de camisetas. Aconteceu um imprevisto e elas foram sem a minha presença mesmo. No outro dia, contaram-me tudo o que acontecera na jornada da tarde anterior, com uma intensidade e um envolvimento de alguém que julgava muito importante a minha presença naquele momento… Ao ouví-las, declarei: – “Isso  merece uma crônica”… Fui para casa pensando em escrever, mas não escrevi. Na manhã seguinte, a crônica estava pronta, coerente, coesa, impecável, hilária… Foi escrita despretensiosamente por minhas alunas queridas, com padrões invejáveis para alunos de ensino médio…
 Numa outra ocasião, outra aluna traz uma folha para eu ler e dar meu parecer: era um texto que expressava a profunda indignação pelos acontecimentos ao nosso redor, provocados pelos seres humanos e expressados pelo jornal. E o mais interessante disso tudo: Nenhum desses textos valeu nota, elas escreveram pelo simples prazer de expressar suas idéias, fato que deixa qualquer professor “rindo até para a sombra” de alegria do dever cumprido.
 Porém, a maior surpresa deste ano letivo eu tive nesta segunda-feira, quando os alunos da escola onde trabalho, com o apoio dos pais e professores, fizeram uma manifestação pedindo segurança especializada para garantir a integridade física dos cidadãos de bem que usufruem, ou dependem daquele estabelecimento de ensino. Isso depois de muito tempo tentando resolver através de ofícios e reuniões que “não deram em nada”… O último recurso possível foi a manifestação popular com  presença da imprensa local, que nos fez ser ouvidos, finalmente, pelas autoridades. Não foi uma baderna, como ouvi dizer, e sim um protesto pacífico e voluntário, feito pela comunidade escolar, para melhorar o ambiente onde passamos grande parte de nosso tempo. Um exemplo concreto daquilo que prometi na minha colação de grau: educar para a cidadania.
 No dia seguinte, tivemos a presença da Guarda Municipal para nos auxiliar e desde então, não registrou-se mais nenhuma presença de pessoas mal-intencionadas dentro da escola que voltou a cumprir seu papel social.
 Alguém (uma autoridade), me perguntava ainda ontem, ironicamente: – “Agora que transformamos a escola num presídio, está bom pra você?”… Minha resposta foi o silêncio, pois presídio não é lugar de estudantes e professores comprometidos com o crescimento pessoal. Além do mais, eu estava muito feliz para discutir picuinhas… Feliz por ver que nosso trabalho de educadores valeu a pena… Feliz por ter alunos conscientes que não se desmobilizam com represálias excludentes… Feliz porque aquela comunidade, tão “Martellada” pelas críticas e discriminações, foi destaque na mídia através de uma atitude altamente positiva, que surtiu efeito imediato: coisa que não aconteceu quando tentava-se discretamente.
 Não nego e jamais negarei meu apoio integral a qualquer atitude desta natureza que só faz crescer nossos alunos e comunidade… E se preciso for, não deixaremos de lutar por nossos ideais, pois o ser humano é maior do que pensa… E como diz o nosso bispo diocesano: – “Se o boi soubesse a força que tem, derrubaria a cerca”…

 

 

Márcio Roberto Goes

One Comment

  1. Márcio Goes- Conselho inicial…
    Márcio Goes- Conselho inicial… 5 de fevereiro de 2009

    […] que não mereciam, da mesma forma aprovamos outros que também não mereciam… Fizemos uma manifestação pedindo segurança e agora estão me dizendo que a guarda municipal não estará conosco este […]

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