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Combustível voador

 

 João dos Sonhos Azuis está de volta… Pacato, honesto, pobre e sonhador como sempre, protagonizando cenas do cotidiano que poderiam ser perfeitamente vividas por qualquer um de nós, em qualquer lugar do planeta ou desta cidade, igualmente pacata e sonhadora… O nosso amigo sonhador de sonhos azuis, pegou seu fusquinha da cor de seus sonhos e foi até o posto de combustível mais próximo de sua residência, para ver se o “ponteirinho”, finalmente subia um pouco da reserva…
 Chegando lá, cumprimenta a frentista educadamente e sorridente como sempre o faz, afinal, desde que adquiriu seu fusquinha Celestino, ele é cliente daquele posto, portanto conhece todos e os tem como amigos:
– Pode ser no cheque?
– Pode!
– Então, coloca setenta reais, por favor… (caso raro, pois nunca passava dos vinte)…
 Enquanto a bomba derramava no seu veículo da cor de seus sonhos o líquido precioso do qual o Brasil já é autossuficiente há algum tempo (apesar de os brasileiros ainda não terem nenhuma vantagem por isso…), nosso amigo se dirige até o caixa afim de preencher o cheque, carregando o talão com muito orgulho, afinal, o fato de “limpar o nome” e conquistar, finalmente o direito de ter um talão de cheques outra vez, custou muito para ele.
 A moça do caixa o atende educada e com um sorriso que não demora muito a se desmanchar.
– Não posso preencher seu cheque, existem restrições…
– Mas como?… Eu finalmente paguei o que devia no comércio, consegui sair do CCF, SERASA e SPC… Será que ainda não deram baixa?
– Você não tem como conseguir esse dinheiro?
– Não! O pagamento é só no final do mês…
– Então deixe o celular empenhado até que consiga pagar!
– Olha, isso já me aconteceu antes, eu assinei um documento me comprometendo a pagar numa certa data e paguei… Conforme o prometido. Além disso, custa confiar um pouco numa pessoa que é cliente há anos?
– Sinto muito! Teremos que tirar a gasolina…
 E assim fizeram: Bate daqui, chupa de lá, chacoalha acolá… Chegaram até a erguer o Celestino no elevador de troca de óleo para facilitar o trabalho que durou mais de meia hora… Ao terminarem de retirar os vinte e seis litros e meio de combustível voador, João ouve a conversa entre os dois frentistas que fizeram o serviço:
– O que faremos com esta gasolina agora?
– Certamente, a patroa vai mandar pôr no carro dela…
 Infelizmente, o pobre, mesmo sendo cliente fiel, não tem direito sequer a um voto de confiança, enquanto os donos do capital usufruem dos benefícios de um sistema excludente que só direciona os olhos para os vitoriosos… (vitoriosos em quê?…)
 João dos Sonhos Azuis, apesar de já ter pago milhares de litros de combustível para aquele posto, perdeu a abastecida da semana… Ele perdeu a gasolina do Celestino, mas o posto perdeu um cliente assíduo…

 

Márcio Roberto Goes

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