Aperte "Enter" para pular para o conteúdo

Categoria: Sonhos Azuis

A volta dos sonhos azuis

 

Foi-se o tempo em que o maior sonho do João era ter um fusca azul, da cor de seus sonhos… Realizou, teve sua história escrita num romance, casou, descasou, namorou, “desnamorou”… Sonhou “desonhou”…

Seus sonhos foram se somando: Um grande amor… A casa própria… A valorização pessoal e profissional… A vivência da fé exemplificada por sua mãe há quase dez anos falecida, porém viva em seus costumes, gestos e no coração… Nunca teve pretensões materiais… É um homem de hábitos e costumes simples… Simples como a vida, como a família, como um fusquinha azul da cor do céu…

Muitas pessoas o influenciaram e o fizeram mudar conceitos. Casou-se e trocou de carro. Para a cônjuge, um fusca não era um carro digno… O casamento durou longos nove meses… Mudou de vida, seus hábitos e costumes já não eram mais tão simples como antes… Tornara-se um homem exigente, sisudo, rancoroso, mau humorado… Pensava, erroneamente estar feliz. Todos o alertavam, mas seu coração iludido não dava ouvidos… Era enfim, outro ser humano, do jeito que a sociedade lhe impunha. As pessoas ao seu redor, não alimentavam nele a ideia de que sempre é melhor agir com bondade… Deveria ser vingativo, não podia levar desaforo para casa…

João então resolveu continuar lutando pelos seus ideais de sempre, porém procurou a forma errada e despertou a fúria de seus líderes… Queria uma educação de qualidade, humana, solidária… Queria, como sempre quis, trabalhar com amor, de rer humano para ser humano… Não de professor para aluno… Foi mal compreendido, foi condenado… Todos lhe apontavam o dedo julgando seus atos que lhe aproximavam cada vez mais dos alunos como seres humanos que são… Lutaram e conseguiram (Ou quase) destruir sua moral… Afastaram por um tempo o problema… e o problema era ele: O João, seus sonhos azuis e seus ideais de uma sociedade mais justa e igualitária…

Mas o problema voltou… Porém, antes da volta, João dos sonhos azuis resolveu retomar seus ideais e tentar novamente da maneira que julgava certa: com amor, simplicidade e fé… Provou novas situações, mudou novos conceitos e voltou aos velhos com roupagem nova… Adaptou seus sonhos, mas os manteve simples e solidários… Teve outras namoradas até a definitiva, em quem encontrou toda a simplicidade que buscava. Ela não sabia ser tão simples, teve que descobrir-se também… Sonharam juntos, amaram juntos um ao outro e aos animais… Lutaram pelos mesmos ideais até que o destino os afastou e, pouco tempo depois, inevitavelmente, os aproximou novamente…

Numa certa tarde de outono, nosso sonhador de sonhos azuis resolve recomeçar… Desejou, profundamente voltar a ser aquele sonhador entusiástico e combativo de sonhos azuis que estava quase sepultado no cemitério dos sonhos que morreram precocemente… Ressuscitou seus ideais e recomeçou a luta… Só a intenção já magnetizou seu mundo de volta… Voltou a trabalhar em rádio, mesmo que voluntariamente… Retomou seu trabalho com a juventude… Novamente começou a ouvir e ajudar seus alunos nos assuntos sérios da adolescência que os adultos julgam bobagem de momento… Retornou a pensar com o cérebro do povo e não daqueles que sentam na cadeira de quem pensa que manda… Tudo isso, acompanhado da maior crise financeira que já vivera… Teve que perder tudo para poder recuperar só aquilo que o faria simples e feliz como outrora…

Mas ainda faltava um pequeno detalhe… Algo que iria enterrar de vez a coroa da simplicidade em sua cabeça sonhadora de sonhos azuis… O fusquinha… Jogou fora todo o luxo da indústria automobilística que a sociedade lhe impunha para uma pseudo-felicidade e foi em busca do terceiro besourinho de sua vida… Encontrou de todas as cores: areia, verde, branco, prata… Modelo novo, antigo, inteiro, carente de manutenção… Mas nenhum o agradava.. Nenhum o chamava a atenção como seu primeiro há dez anos… Até que um belo dia, ao passar numa revendedora, tem a mesma emoção de uma década atras… Lá estava ele: Lindo, inteirão, charmoso como todo fusca, seu olhar encontrou os faróis e trocaram brilhos… Azul, da cor do céu, da cor de seus sonhos ressurgidos das cinzas…

João então completou sua volta à vida simples e sonhadora… Voltou a ser o cidadão pacato de hábitos simples, de riso fácil e generoso, voltou a ser o João dos sonhos azuis, da cor do céu, limite de quem sonha com a justiça, da cor de seu fusquinha… Voltou a viver… Voltou a escrever… Voltou a sonhar… Sonhos azuis…

 

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

www.portalcacador.com.br

www.cacador.net

www.portalcdr.com.br

Deixe um comentário

Sonhos azuis – Último capítulo

Do fundo do meu coração, agradeço a cada um dos 16000 leitores assíduos deste site e do Portal Caçador que acompanharam cada capítulo desta que é a primeira trama prosaica de um cronista que resolveu dar uma de romancista… Gostei da ideia e, com certeza, teremos um novo romance de folhetim com minha assinatura, em breve… Semana que vem, uma jovem escritora, que além de namorada é uma companheira para todas as horas e compartilha comigo a paixão pela escrita, vai revelar seu talento aqui neste portal com o romance Mariah, de autoria de Bruna Tainara Bialeski que faz uma participação especialíssima neste último capítulo…
Mais uma vez, obrigado por valorizarem minha obra e espero que gostem do final desta trama escrita e revisada com o coração de um sonhador que tentou projetar aqui muitos dos sonhos das pessoas ao seu redor…
Com vocês, o último capítulo!

CAPÍTULO XXIV

Adam não aceitou Iracema em sua casa, preferiu pagar um hotel. E ela, por sua vez, foi parar num prostíbulo, obrigada a vender o corpo para sobreviver… João, naquele mesmo dia, registrou, na delegacia o abandono de lar e trocou as fechaduras das portas externas para garantir que Iracema não entrasse lá enquanto ele não estivesse em casa… Não se sabe de onde garrou coragem para tomar tais atitudes, visto que sempre fora pacato, mas as intempéries da vida ensinam o ser humano a ser duro consigo mesmo em alguns momentos…
Naquela noite, João quase não dormiu… Já fazia uma semana que dormia sozinho, mas a situação agora era diferente, aquela cama parecia ter triplicado o tamanho e a frieza. A solidão não dava tréguas e o travesseiro encharcava com suas lágrimas de dor e indignação… Assim foi durante três noites.
Na sexta-feira pela manhã, ao chegar na escola, João visualiza, vindo ao seu encontro, sua aluna mais querida, com um sorriso terno e protetor atípico de uma jovem de ensino médio… Não se sabe porquê, nosso sonhador presta atenção nos olhos da Roseli:
Bom-dia, querida! Seus olhos são verdes?
Sim, sempre foram, professor…
Outro dia, quando você me esperava no fusca eles estavam azuis. Percebi quando você levantou a cabeça e me abraçou…
Quando eu choro eles ficam azuis…
Interessante! Nunca tinha visto nada parecido…

João não queria admitir, mas sabia que sua aluna estava chorando por causa dele. No fundo, ela sabia que seu professor preferido ia sofrer e, antes de qualquer coisa, Roseli pergunta:

E aí, sua mulher já voltou?
Ex-mulher…
O que houve?
Ela me abandonou. Disse que tem outro…

E os olhos de sua aluna mais querida ficaram azuis, da cor de seus sonhos, da cor do céu, da cor do seu fusquinha e de suas esperanças meio apagadas pelos atropelos que a vida lhe proporcionou nos últimos dias… Os dois se abraçaram, choraram juntos meio sem saber os motivos um do outro para tantas lágrimas. Por alguns minutos, assim ficaram, sem se importar com o mundo ao redor… Chamaram a atenção de todos, mas ninguém conseguiria tirar a atenção de um pelo outro…
Um sentimento muito forte tomou conta do coração de nosso sonhador. Não sabia a razão, mas sentia uma imensa tranquilidade nos braços de sua aluna mais querida. Não queria largá-la. Queria tornar eterno aquele momento. Sua mente e seu coração provaram, ao mesmo tempo uma série de sentimentos contraditórios, mas que o faziam sentir-se bem, de uma maneira que há muito tempo não sentia…
Lá por meados da terceira aula, alguém bate à porta da sala de aula, no meio de uma oração coordenada assindética recém escrita e explicada pelo sonhador de sonhos azuis… Ao abrir a porta, se depara com uma aluna que trazia em mãos um papel manuscrito, devidamente dobrado e lacrado:

Mandaram entregar pra você, professor…
Quem mandou?
Alguém que gosta muito de você.

Não poderia lê-la de imediato. Estava trabalhando. Segurou-a com as duas mãos por um momento, levando-a até o peito e depois guardou-a, cuidadosamente no bolso do jaleco… Já suspeitava o conteúdo e a remetente…

Obrigado! Em casa eu leio…
Ela quer a resposta…
Segunda. Pode ser?
Tá…

Trabalhou o resto da manhã ansioso e, ao meio dia, a primeira coisa que fez ao chegar em casa foi ler, atenciosamente a carta enquanto esquentava o almoço no micro-ondas. Conheceu a letra e as palavras comumente usadas nas produções de texto de sua aluna mais querida no conteúdo daquele manuscrito:

 

*“Hoje vi o meu professor mais querido triste, sem ânimo para nada. Não vi aquele sorriso lindo, nem ouvi sua voz inconfundível. Sei bem que não é um dia bom para você, mas eu precisava que este dia chegasse para te dizer algo muito importante.
Desde a primeira vez que te vi e ouvi, senti meu coração acelerar, não sabia porque, não tinha ideia que o carinho que sentia por você se transformaria nisso: Amor. Na verdade era só paixão, e eu achei que fosse passar. Mas infelizmente, ou felizmente, não passou. Presto atenção em cada gesto seu, cada palavra pronunciada por sua boca. Sua voz é a mais suave que já ouvi, seu abraço é o mais apertado e caloroso, logo se percebe que não é difícil se apaixonar por alguém assim. Ao vê-lo triste e magoado, me senti na obrigação de lhe contar isso, quem sabe um dia eu tenha a chance que sempre esperei de te fazer feliz. Só não havia contado antes, porque você era comprometido, e não queria atrapalhar seu relacionamento. Mas agora, sei que posso ao menos tentar tirar essa dor de dentro do seu coração. Sei que deve ser estranho ouvir isso de uma aluna de primeiro ano de ensino médio, com apenas quinze anos, uma “menina de bosta”. Mas uma menina que jamais faria você passar por isso novamente. João…Você é o homem mais incrível que já conheci. Deve ser por isso que amo tanto você…”
“Não acredito!”… Pensava ele…
Ela sempre escreve textos maravilhosos falando de amor e das coisas do coração – Falava baixinho enquanto lia – Mas nunca pensei que o destinatário fosse eu..

Agora tudo fazia sentido: Os abraços demorados as carícias discretas, os olhares que sempre o buscavam durante as aulas, a preocupação com a vida sentimental de um professor… Mas, apesar de Roseli mexer com seus sentimentos há muito tempo, preferiu ignorar as palavras daquela carta corajosa e reveladora. Foi com o coração doído que disse a ela na segunda-feira:

Não dá!
Mas porquê? Você está livre agora…
Sou professor e você é aluna. Temos que manter a relação profissional. Acho que você está confundindo as coisas. A diferença de idade é muito grande. Haverá sérios conflitos de gerações, vamos nos complicar aqui na escola além de não haver aprovação por parte das pessoas ao nosso redor e das nossas famílias.

 

Roseli não desejaria sua dor a ninguém naquele momento… Seu mundo caíra e parecia que não havia possibilidades de levantar novamente. Estava loucamente apaixonada. Finalmente teve coragem de se revelar e foi duramente rejeitada…
João sabia que estava machucando um coração puro, mas não queria viver o mesmo tormento que teve com Iracema. No entanto, por alguns dias prestou mais atenção na sua aluna mais querida e percebeu que havia uma diferença monstruosa nos pensamentos e atitudes dela comparados com as meninas da mesma idade na escola. A viu com outros olhos. Era uma mulher, linda por dentro e por fora, sempre sorridente, alegrava o ambiente por onde passava, mostrava-se generosa e atenciosa com ele, mesmo depois de tê-la magoado…
Um dia, na primeira aula, João a encontra triste no seu lugar:

O que houve, querida?… Seus olhos estão azuis… Você chorou?…
Ainda pergunta?… Não esperava que fosse assim. Queria que você me desse uma chance de fazê-lo feliz como a outra não fez…

Os olhos cor de mel de nosso sonhador também encheram-se de lágrimas, mas conteve-se antes que elas escorressem para o mundo exterior:

Precisamos conversar – Disse, após recuperar os sentidos – mas tem que ser fora daqui…

Marcaram um encontro no parque central no domingo a tarde… Garoava. Recebeu sua aluna mais querida no fusquinha que os levou até um lugar mais sossegado, onde o amor tomou conta. Um abraço apertado, troca de olhares, palavras sinceras e bonitas… Um sentimento puro e mútuo tomou conta dos dois corações.. E, finalmente, o beijo… Meio tímido, demorado e maravilhoso como nenhum outro na vida de ambos…
Naquele momento, João dos sonhos azuis volta a ser o que era na sua essência: um sonhador… Fita os olhos de sua aluna ainda mais querida e vê renascer do fundo do seu baú de sonhos azuis aquele jovem sonhador que há muito tempo esteve adormecido para a vida… E volta a sorrir… E volta a viver… E volta a sonhar… Sonhos azuis da cor do céu, da cor de seu fusquinha, da cor do amor… Sonhos azuis…

 

* Trecho da obra de Bruna Tainara Bialeski

 

 

FIM

Deixe um comentário

Sonhos Azuis – CAPÍTULO XXIII

 

Chegando em casa, João é recebido pela sua esposa que lhe parece um tanto indiferente, mesmo assim mantem o sorriso:
Oi, Cema! Como foi a viagem?

Boa! Muito proveitosa…

Nosso sonhador de sonhos azuis estranha a falta de detalhes no relato da viagem:

Por que não deu notícias?

Meu celular estava sem bateria, além do mais estava muito ocupada…

Posso ver o certificado?

Que cerificado?

Do curso… Você viajou para fazer um curso… Ao final de todo curso, os participantes recebem um certificado…

Vem pelo correio.

Quando?

Não sei! Por que tanto interesse num pedaço de papel?

Um pedaço de papel que prova que você fez um curso… A que horas você chegou?

Perto das oito…

Quase que me pega em casa ainda… Estava recém saindo para trabalhar…

Eu vi!

Como?…

Iracema percebe a bola fora, mais do que de pressa disfarça:

Não me amola! Vou para a cama, preciso descansar…

Antes, quero te fazer uma pergunta: Não tem nenhum ônibus de Florianópolis a Caçador neste horário. Com que transporte você voltou?

Por favor, preciso descansar!…

Sem maiores satisfações, a morena traíra entra no quarto batendo os calcanhares de brava, enquanto João acompanha tudo calado. Depois de um momento extasiado, Nosso sonhador começa a preparar o almoço para sua amada enquanto prepara o coração para uma conversa mais séria. Aquela uma hora e meia até a refeição do meio-dia, parecia não ter mais fim, entre um tempero e outro, João se pegava pensando no pior… Será que esta mulher está me traindo?… O que farei se for verdade?… Como viverei sem ela?…

O almoço está pronto, meu amor!

Sua esposa sai do quarto com cara de quem não descansou um minuto sequer, vai até o banheiro, joga uma água no rosto e senta-se à mesa com ar disfarçado…

Fiz aquele macarrão que você gosta…

Unhum!

Depois da quinta garfeada, João não suporta a agonia e pergunta:

Tá acontecendo alguma coisa?

Por que?

Você está estranhamente diferente…

Nada, só estou cansada. Ainda bem que o Adam me deu folga hoje…

Você viu o Adam Hoje?

Hã?

Tem alguma coisa estranha nesta história…

O que?

Tá acontecendo alguma coisa. O que é?

Não quero falar agora!

O que está acontecendo, Iracema?

Você não está preparado!

Estou, pode falar…

Nada, não! Paranoia sua! Você tá colocando chifres em cabeça de cavalo…

Será que o cavalo em questão não sou eu?

Para João!

Me diga, o que está acontecendo?

João, pela primeira vez, desde o casamento, acaba perdendo a paciência com sua amada. Iracema, acuada, obriga-se a antecipar sua sentença:

Quero me separar de você!…

Ela estava certa: Seu marido não estava preparado para receber tal notícia. João não contem as lágrimas, mas logo recuperou o fôlego:
Por que quer fazer isso comigo Cema?

Não me faça perguntas. Quero a separação e pronto!

E tudo o que vivemos juntos?… Lutei contra minha família para ficar com você e agora você me abandona assim?… Qual é a razão dessa decisão?

Chega! Nada do que você me disser, vai fazer eu mudar de ideia!

Você tem outro?

Tenho…

Pronto! Aquela foi a gota d’água. Tudo estava consumado. João sabia que seu casamento poderia ter salvação, mas se existia a traição é por que o amor abandonou aquele lar há muito tempo… Não tinha mais o que fazer, transcendia a sua vontade de pobre e miserável sonhador de sonhos azuis. Lá do fundo do seu coração, toma coragem para dizer as palavras que serviram de consolo para ele mesmo:
Hoje você dorme no quarto de visitas… Procure o mais breve possível outro lugar para morar…

Não! Saio hoje mesmo desta casa. Só te peço uma coisa: que me leve até a revendedora, amanhã venho buscar o resto de minhas coisas…

É o Adam?

O quê?

O teu amante, é o sem-vergonha do Adam?

Já disse para não me fazer perguntas…

Enquanto Iracema arrumava as malas, João dos Sonhos Azuis chorava baixinho imaginando como seria a vida dali para frente… Todos os seus sonhos de constituir uma família perfeita estavam sendo jogados, cruelmente, no abismo… Todos os seus sonhos azuis abortados de seu coração e lançados ao lixo, por causa de uma aventura: loucura da cabeça daquela safada ingrata, fazendo com ele o mesmo que fez com seus padrastos e seus namorados no passado. Nosso sonhador era agora mais uma vítima da Iracema… Pensava que poderia mudá-la, sempre acreditou na mudança das pessoas, afinal um professor sempre acredita… Mas não conseguiu… Foi vitimado, martirizado, mutilado pelo coração cruel e desumano de uma mulher que não fez mais que brincar com seus mais sublimes sentimentos, fato que era uma constante na vida dela… Pelo jeito, voltava a ser… Além do mais, tudo desmoronou, afinal perdera as duas mulheres mais importantes de sua vida: a mãe e a esposa…

Depois das malas prontas, conforme o combinado, levou-a até a revendedora.

Deixe um comentário

Sonhos azuis – CAPÍTULO XXII

 

 

Estranho… Já é o terceiro dia e a Cema nem me ligou para dar notícias do curso…

Desabafa João em visita ao Teófilo naquela tarde de quinta-feira em que ambos tinham folga:
Não se preocupe, amigo! Com certeza está tudo bem… Tirou aquelas minhocas da cabeça?

Minhocas, não!… Todas as evidências levam a comprovar minhas suspeitas…

Ligou para a revendedora?

Ainda não, mas cada vez que passo lá não vejo o carro do Adam…

Mas o portão está aberto?

Sim!

Então alguém está na loja… Porque não entra para se certificar de que ele está na cidade. Seja lá quem for que esteja cuidando do estabelecimento, poderá te dar esta informação….

Seja lá quem for que esteja lá, deve ter ordens para mentir para mim, se minhas suspeitas estiverem corretas…

Mas não custa tentar…

Meio ressabiados, a bordo do fuscão da cor do céu e das desconfianças do João, os dois amigos vão até a revendedora, onde são recebidos por um atendente estranho:

Boa tarde senhores! Em que posso ser útil?

Em seu crachá, lia-se: “Robson Smit – Vendedor”… Era o mesmo sobrenome do Adam

Boa tarde! O Adam se encontra?… Semana passada estive aqui vendo alguns carros e gostaria de ver se fechamos negócio hoje…

Pode ser comigo mesmo!

Não! Gostaria de continuar negociando com ele!

Qual seu nome?

João da Silva…

Robson lembrou-se logo das recomendações do irmão: Não ligar para ele, em hipótese alguma e não dizer para ninguém onde ele estava, principalmente para um tal João do fusca azul…
Ele teve que sair…

Tudo bem, eu espero…

O senhor não gostaria de voltar amanhã?

Não! Prefiro esperá-lo!

Mas ele não volta hoje…

Certo! Eu volto outro dia…

Quer deixar recado?..

Não precisa… Obrigado!

Estava comprovado: O atendente reserva não falara a verdade: alguma coisa estava sendo escondida de João… Completaram-se os sete dias de gestação da desconfiança do João e da preocupação de Adam que não via nenhum resultado ao tentar convencer Iracema a mudar de ideia… Tentara de tudo, até prometer mais um aumento de salário, mas nada adiantava…

Na manhã daquela terça-feira, enquanto os dois amantes já estavam na estrada, quase chegando a Caçador, João se preparava para o trabalho: Cada gole de café aumentava sua angústia… – “Por que ela não deu notícias?… Será que chega hoje conforme o prometido?…”- Pensava ele enquanto abotoava o jaleco… Escovou os dentes demoradamente e seguiu lentamente até sua máquina azul, da cor de suas melancolias…
Te deixo na rodoviária?

Dizia Adam para a índia dos cabelos cor da noite sem luar, ainda na estrada:
Não precisa! Já está na hora do João sair para trabalhar… Vai me dar folga hoje?

Claro! Você se dedicou muito neste curso…

Entendo…

Enquanto isso, João entra no seu veículo da cor do céu, coloca a pasta no banco de trás e dá a partida… Adam e Iracema já ultrapassam a entrada principal de Caçador… João dirige de vagar e distraído em direção ao trevo que dá acesso à rodovia que o levará até a escola… Adam a cento a vinte por hora se aproxima do mesmo trevo… João a sessenta, ouvindo rádio, com o pensamento distante nos seus sentimentos cheios de conflitos… João saindo… Adam voltando… João sinaliza para a esquerda… Adam para a direita… João obedece a placa de “ Pare”… Adam está na preferencial… João viaja nos seus pensamentos… Adam passa… Por um instante os veículos se cruzam, mas os olhares não. Nosso sonhador de sonhos azuis estava muito preocupado para prestar atenção nos carros que cruzavam o trevo em direção contrária. Ainda bem… acabara de se livrar de mais uma angústia…
Olha, Adam!… Um fusca azul… É o João!

Por que esse professorzinho tinha que passar por aqui justamente agora?

Será que ele nos viu?

Espero que não!

João segue seu trajeto absorto em suas preocupações até a chegada na escola. Sua aluna mais querida o encontra no portão com o abraço de sempre:

Oi professor! Como vai?

Tudo bem, querida… E você?

Também estou bem! Sua mulher já voltou de viagem?

Ainda não… E o estranho é que não me mandou nenhuma notícia nestes dias!…

Não acredito que ela fez isso com o senhor!… Quando ela chega?

Hoje!

Então logo vão matar as saudades!…

Na verdade, estou até com medo do reencontro…

Ela tem feito o senhor sofrer, não é?

De certa forma sim…

Pois eu acho que ela não é merecedora do seu amor!

Aquelas palavras ecoaram em seus ouvidos durante as três únicas aulas que tinha naquela manhã. Achava tudo aquilo muito estranho, além de tudo, pegou-se desabafando com uma aluna… Não era certo, mesmo sendo sua aluna mais querida, não deixava de ser uma aluna e ele não deixava de ser um professor…

Ao final da terceira aula, pega seu material e segue para o estacionamento. Em frente ao fusca da cor de seus sonhos, encontra-se a aluna mais querida, cabisbaixa com seus olhos azuis escondidos pelo lindo cabelo loiro, sentada no para-choques:

Desculpe, professor! Mas eu não podia deixar de te dar mais um abraço hoje. Sei que está precisando e de certa forma eu devo obrigação ao senhor…

Obrigado, querida… Logo estarei bem! Tudo vai passar! Acho que minha esposa já chegou…

Nenhum deles entendeu o porquê, mas naquele momento escorreu uma lágrima dos olhos de sua aluna mais querida, parecia tomar as dores de nosso sonhador… Parecia prever algum tipo de sofrimento por parte de seu mestre… João voltou alheado em seus pensamentos, dentro de sua condução azul da cor de sua falta de sono, rumo a sua casa do outro lado da cidade… Não sabia o que encontraria lá… Não sabia o que fazer com seu coração apertado… Só sabia que já não era mais o mesmo… Iracema também…

 

 

 

Deixe um comentário

Sonhos Azuis – CAPÍTULO XXI

 

As suspeitas de nosso sonhador, infelizmente estavam corretas mais uma vez, apesar de nunca render-se aos seus pensamentos proféticos… Já se passava mais de quatro horas que os dois amantes se encontraram na rodoviária:

Bom-dia amorzinho!

Bom-dia! Você está atrasado, Adam… Vamos logo, antes que alguém nos encontre aqui…

Iracema tinha a impressão de que todos ao seu redor estavam olhando para ela… Sentia, lá no fundo de suas paranoias que todos a julgavam… Na verdade estava sendo julgada por ela mesma, por um instante teve um profundo sentimento de arrependimento, mas em seguida tentou esquecer, pois aquela situação tomava rumos sem volta para ela e para o Adam que, em silêncio, a ajudava com a bagagem até o carro… Ao ouvir a batida do porta-malas, ouve simultaneamente a voz do seu amante perguntando:
Pronta para nossa primeira viagem juntos?
Ela exitou por um momento, estava dividida entre a insegurança e a vontade de apimentar sua aventura com o patrãozinho, respondeu afirmativamente, apenas com um sinal de cabeça e entraram no carro em silêncio, rumo a capital, na casa de praia do microempresário… O local era perfeito: longe dos conhecidos de sua cidade, ainda não havia iniciado a temporada de verão, o que tornava o ambiente muito mais tranquilo e romântico. Os dois pombinhos fétidos seguiram uma viagem tranquila parando algumas vezes para se alimentarem e trocarem carícias. Numa das escalas, pararam em um motel por uma hora e meia, afim de diminuir um pouco a ansiedade, pois não suportariam as tentações da carne, estando tão próximos naquela situação tão sugestiva ao adultério… Ao chegarem na casa de veraneio do bonitão, encontraram muita coisa a ser ajeitada para preparar o ninho de amor daqueles fogosos amantes por uma semana… Adam preferiu não pedir à empregada que arrumasse, para não levantar suspeitas, adiantou a ela uma semana de férias, já que a funcionária nascera em Caçador e conhecia perfeitamente Iracema e o João… Passaram o restante do dia arrumando a casa para a estadia de verão antecipada…

Tudo muito bem planejado, mesmo às pressas: Jamais o professorzinho saberia da verdade, poderiam enganá-lo eternamente, já que até então, nunca havia demonstrado nenhuma desconfiança que oferecesse perigo aos amantes…

No terceiro dia da lua de mel, a índia dos olhos negros acorda cedo, vai até a varanda e fica a contemplar a tranquila e pacata praia do Pântano do Sul: os pescadores já em alto-mar, a água azul-esverdeado, a brisa que soprava em seu rosto, algumas gaivotas pousando nas pedras… Sentada na cadeira de balanço, ainda de camisola, olhava pensativa o horizonte. O barulho relaxante do mar interrompe-se com a voz de seu amado amante, seguida de um beijo apaixonado:
Bom-dia! O meu amorzinho acordou cedo hoje…

Não dormi direito à noite…

O que houve?

Eu estive pensando e tomei uma decisão…

Como assim?

Não podemos mais continuar nesta situação…

Hã?… Não acredito, minha morena quente está tendo um ataque de consciência…

Pra mim chega!… Vou dar um basta nisso tudo!…

Vou te perder?…

Não! Eu te amo… Quem vai me perder é o babaca do João!

O quê?…

Isso mesmo!… Ao voltar a Caçador, vou pedir a separação…

Não faça isso!

Por quê?… Você sempre demonstrou desejo de ficar comigo pra sempre… Mudou de ideia?

Não! Eu digo… Não faça isso já… Pode ser muito precipitado… Entende?…

Não posso adiar mais…
Adam não a queria como esposa, jamais passou por sua cabeça a ideia de firmar compromisso com sua funcionária… A queria como objeto para satisfazer seus desejos… E isso ela fazia muito bem… Mas, ser marido dela… Ou seja, viver com aquela mulher pelo resto da vida… Não!… Mais um casamento, não!… Mas ainda tinha uma esperança: restavam quatro dias para fazê-la mudar de ideia antes de voltar a rotina… Naquela noite, quem não dormiu foi ele… Pensou em tudo o que viveu no seu primeiro casamento, as traições, os prazeres fora de casa, as brigas, os constantes disfarces para manter a situação… Não! Ele não queria compromisso sério com ela… Era só sexo, nada mais… Tinha medo de ser explorado, tinha vergonha de aparecer em público com uma reles funcionária… Causava vertigens a ideia de ser visto de mãos dadas com ela… Gostaria de continuar cultivando a imagem de bom empresário, empreendedor, ousado e cheio de ideias para ganhar mais dinheiro com menos investimento e menor esforço possível, explorando funcionários, enriquecendo às custas dos trabalhadores e, o pior, sendo venerado e homenageado por isso… Sonhava em ampliar os negócios, abrir uma concessionária, ter muitos funcionários o ajudando a enriquecer cada vez mais rápido… Só queria desfrutar dos prazeres do capitalismo…

De fato, Adam tinha motivos de sobra para perder o sono naquela casa de praia…

 

www.marciogoes.com.br

 

Deixe um comentário