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Categoria: Política

O professor maluco

No dia de sua formatura, o professor maluco ergueu os braços para o céu, agradecendo a Deus por aquela conquista e ajoelhouse no palco do auditório da universidadeEmocionouAs luzes todas foram acesas para focalizar com maior clareza aquela cena descomunal. Sua mãe, na plateia chorava emocionada. Seus amigos o felicitaram depois pela atitude emocionante e corajosaEstava feliz, irradiava felicidade por onde passavaAs pessoas percebiam o brilho no seu olhar, próprio de quem fez a escolha certa se orgulha por poder exercer a melhor e mais maravilhosa profissão do mundo: ProfessorFinalmente poderia incluir mais quatro letras antes de seu nome: ProfSeria agora um profissional de verdade, habilitado para a função como nunca, apesar de, desde a primeira fase atuar como professor em algumas escolas que o fizeram amar a educação pública e lutar por ela

As coisas, de vagarinho, iam melhorando na vida daquele sonhador que vivera a infância e a adolescência no meio da pobreza, sem perspectiva, nem ânimo para lutar… Venceu tudo isso antes de receber aquele diploma inacreditável para muitos do seu convívio… Muitos o desanimavam, porém, muitos outros acreditavam piamente nas qualidades que o levariam ao sucesso em breve… Para os desanimadores de plantão, não era possível uma burrice tamanha a ponto de se investir numa graduação sabendo que não teria o retorno financeiro merecido pelo esforço desprendido…

Mas o professor maluco não pensava na questão financeira, aliás, nenhum maluco pensa. Ele queria ser protagonista da própria história e ajudar seus alunos também a serem. Acreditava que poderia mudar a escola, a comunidade, o município, a nação e muito mais, partindo da sua sala de aula…. Prometera a si mesmo ser no mínimo, amigo de seus alunos… E conseguiu: Vivia rodeado de estudantes, todos queriam se aproximar para acompanhá-lo até a sala, disputavam entre si quem carregaria sua pasta. Como diz Ruben Alves, “Por amor, os alunos carregam até a pasta pesada do professor”… Além de tudo, o professorzinho maluco repartia, de igual para igual com seus alunos, esperanças, temores, conhecimentos. Trocava confidências, aconselhava e era aconselhado… Suas aulas eram esperadas ansiosamente.

A teoria só aparecia quando necessário, tudo o mais era prática… Ninguém aprendia só por aprender, sempre existia uma motivação e uma aplicabilidade para aquele conhecimento… Muitos e muitos alunos passaram pela sua vida, aprenderam a querer escrever e escreviam com emoção, colocavam o coração no papel… Com ele, os alunos do ensino médio reaprenderam a abraçar, a ser solícitos, a gostar de contar o que liam, a querer apagar o quadro e carregar a pasta, declamar poesias e ler, com orgulho, suas produções… Como era maluco aquele professor! Distribuía abraços descarada e generosamente pelos corredores… Muitas vezes parecia matar aula, mas quando seus queridos alunos percebiam, estavam trocando ideias, discutindo e escrevendo sobre aquilo que conversaram quando pensavam que não faziam nada… Muitas vezes, de tão maluco que era, ele pedia para seus amados estudantes produzirem um texto, qualquer texto, qualquer gênero, qualquer número de linhas, sobre qualquer coisa, com duas condições: Não valeria nota e deveriam escrever com o coração. Todos faziam… E todos sabiam que, de qualquer forma seriam avaliados…

Um dia, o professor maluco foi duramente questionado… Não se importava com isso, até gostava, pois acreditava ser a discussão uma importante forma de seus alunos crescerem na vontade de se aprimorar e argumentar cada vez com mais convicção sobre o assunto proposto… Mas o questionamento não era dos alunos e sim de seus superiores… Houve denúncias. Ele não sabia dar aulas, não trabalhava direito, não ensinava nada de útil, não preparava os educandos para os vestibulares e as provas teóricas da vida de quem se baseia só nos números… Os números ainda não foram humanizados, os humanos é que foram emplacados e numerados por outros seres humanos que se julgam, sabe-se lá baseados em quê, perfeitos… Foi responsabilizado pela pseudo-burrice dos seus ex-alunos desconhecedores das regras que deveriam ser ensinadas por ele no ensino médio…

Naquele dia, o sorriso do professor maluco inverteu-se… Poxa vida! Ele recebia alunos semianalfabetos e, nem por isso, responsabilizava os professores anteriores. Arregaçava as mangas e tentava recuperar o tempo perdido. Inúmeras vezes conseguia grandes avanços, mas só era lembrado quando não o fazia… E o brilho do professor maluco, aos poucos foi se apagando. E foi se afastando de seus ideais. E foi querendo cada vez menos transformar a sociedade através das aulas. E foi murchando… Andava cabisbaixo pelos corredores. Sofria ameaças… Paranoico, pensava que todos estavam contra ele… Não sentia mais vontade de estar ali com seus alunos, abraçava menos, não aconselhava, nem era aconselhado, não sorria, nem arrancava sorrisos… Estava apático… Morria, aos poucos para dar lugar a uma pessoa arrogante, de mal com a vida, intransigente e de pouquíssimos sorrisos…

Todos notaram a mudança e ninguém gostou. Pobre professor maluco! Havia ajudado tantas vidas e deixava a sua se perder por causa de interesses mesquinhos de alguns pesos mortos que não viam a hora de tê-lo em seu grupo de desmotivadores de plantão… E então o professor maluco percebeu-se no caminho errado. Encheu o quadro e o caderno de seus alunos de teorias e mais teorias…

No ápice de sua desordem moral, o professor maluco se debruçou em sua mesa e, ali mesmo, deixou a dor da ingratidão e da injustiça corroerem sua alma e escorrerem pelos olhos… Ele então chorou… Chorou para não ferir ninguém, condenou-se para não condenar ninguém, calou-se para não calar ninguém… Já não tinha forças para lutar nem sorrir despreocupadamente. Já não via motivos para cultivar a amizade pelos alunos, visto que o fato de serem amigos não estava surtindo o efeito esperado por aqueles que sentam na cadeira de quem pensa que manda…

Enquanto soluçava sua dor doída pelo transpasso do punhal da intolerância, sentiu uma mão carinhosa em seu ombro… Por um momento estranhou, era hora-atividade, não haveria de ter ninguém além dele naquele recinto… Levantou lentamente a cabeça e viu, com os olhos embaçados pelas lágimas, duas alunas. Uma delas, a que estava com a mão em seu ombro, lhe disse:

    • Professor, há dias que quero lhe dizer uma coisa, mas não achava jeito: Já faz dois anos que sonho em ser sua aluna… Antigamente observava você nos corredores da escola, rodeado de gente e pensava: Não vejo a hora de chegar no ensino médio e estar lá no meio daqueles alunos. Conviver com aquele professor tão querido por todos. Agora sou sua aluna e me sinto muito feliz por isso. Você é mais do que um professor, é um amigo para todas as horas. Sinto muito orgulho em ser sua aluna…

O professor maluco levantou-se e caprichou no abraço, daqueles compartilhados só pelos melhores amigos: Bem apertado, sem preconceito, sem medo… O choro agora era de alegria e ambos deixavam a emoção tomar conta daquela sala de aula que, em breve, estaria novamente cheia de alunos sedentos por conhecimento e curiosos para ver qual seria a nova dinâmica que os faria ler, analisar e produzir mais um texto…

Naquele dia, o professor maluco ressuscitou. Voltou ainda mais forte, mais destemido e com a certeza de que sempre esteve no caminho certo. Não esqueceu, porém, que é um ser humano e, como tal, passível de erros. O importante é manter o sorriso e o coração aberto a novas emoções que, facilmente se transformam em obras literárias dele e de seus sempre amados alunos…

Desde então, o professor mais maluco que nunca, resolveu aprimorar sua maluquez e usá-la para o bem da educação pública, sem medo de ser feliz e fazer felizes as pessoas ao seu redor. E percebeu que, na verdade, malucos são aqueles que pregam uma educação de vitrine, cheia de conceitos e regras que só fazem o ser humano se tornar mais dependente dos supostos superiores. Criam padrões que transformam os seres humanos em produtos alienados e obrigados a colocar o cérebro numa forma para serem moldados todos iguais, sem questionamento, sem discussão, sem revolução, sem emoção… Enfim, malucos são aqueles que acham que nossos alunos devem aprender os conceitos prontos daqueles que esperam rendimentos e potencialidades iguais de pessoas diferentes…

Daí o maluco sou eu?

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O errado é sempre o outro

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Muitas pessoas me questionam por que, de repente, parei de escrever sobre política… Portanto, resolvi responder da maneira que gosto: Escrevendo…

Primeiro que, não foi de repente. Há muito tempo venho percebendo que, minhas palavras não fazem diferença no contexto político e politiqueiro atual do Brasil. E segundo que, somos rodeados pela política, é ela quem rege nossas vidas de cidadãos de bem (Ou não…). Se faz necessário abandonar a ideia de que a política e, por sua vez a politicagem só acontecem em Brasília, ou nos palácios por este Brasil afora…

Em 2014, fui candidato a deputado estadual (Deus que me perdoe!). Aceitei este desafio por acreditar que poderia realizar nas ruas, junto ao povo, uma troca de ideias, apresentar sugestões para melhorar a vida das pessoas ao meu redor através de projetos de leis e tals… Estive em todos os bairros de minha cidade natal, a querida Caçador e cidades vizinhas. Bati de porta em porta, acompanhado de alguns colaboradores que, voluntariamente apoiaram o projeto…

Fui muito bem recebido na maioria das residências, porém muitas portas se fecharam na minha cara, alguns mostravam cartazes de outros candidatos de forma provocativa… Mas os piores foram aqueles que, após me ouvirem falar, faziam perguntas do tipo: Quanto eu ganho votando em você?… Minha resposta era: Quatro anos de um mandato popular… Mesmo assim, deixavam claro que queriam dinheiro imediato, ou favores particulares, derrubando todo o meu discurso e dizendo que fulano os ajudaria se votassem nele…

Por diversas vezes, tentei argumentar, dizendo que compra de voto é crime e que, desta forma não poderíamos reclamar da corrupção, etc… Tenho certeza que, muitos colegas candidatos faziam o mesmo, tentando dar sua contribuição para a moralização da política… Sei que seria muito difícil eu ser eleito, mas minha decepção começou vendo que, um grande número dos vencedores nas urnas, compraram a vitória com combustível, cestas básicas, favores e agradinhos em troca de votos…

Tudo isso me leva a crer que, muitas pessoas querem ser corrompidas e buscam isso nos corruptos… Muitos cidadãos que protestam e gritam contra isso, contra aquilo, praticam a corrupção passiva e seu sonho é receber algum benefício dos engravatados…

Continuo tendo minhas ideias, convicções e ideologias… Porém me decepciono, a cada dia com aqueles que foram eleitos para nos representar e, no entanto não representam nem a ideologia que seu partido defende e o ajudou a ser eleito, seja de direita, centro, ou esquerda… Quase todos estão cegos, surdos e mudos para o povo, mas têm os sentidos bem aguçados para defender os próprios interesses, em detrimento das necessidades urgentes da população…

Há muito tempo vejo, muitas pessoas idolatrando nomes, criando líderes deste, ou daquele partido, numa eterna disputa de poder que jamais favorece aos que brigam por eles… Pelo contrário: Até hoje, nunca vi um político, em nível nacional, que lutasse verdadeiramente em favor do povo…

Senhoras e senhores, não escrevo mais sobre política para não ser mais um no meio desta intolerância declarada e descarada que vivemos… Pois os fanáticos querem ser ouvidos, mas não suportam ouvir as ideias, nem conhecer a ideologia do outro… Ou seja, aquilo que eu defendo é perfeito e os defeitos são privilégio dos partidos, ideias e nomes contrários…

Na vida e na política, estamos cada vez mais cegos, pois o errado é sempre o outro…

Márcio Roberto Goes

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Não precisa

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Não precisa ser do MST para apoiar a luta daqueles que não têm um pedaço de chão para plantar. Sabe-se que existem muitas pessoas infiltradas no movimento que não defendem os mesmos interesses, mas não é justo sacrificar toda uma coletividade por causa de uma meia dúzia…

Não precisa ser beneficiário do Bolsa Família para defender as lutas do povo empobrecido. Sabe-se que existem muitas pessoas que usufruem sem, na verdade, necessitar, mas não é justo chamar todos os beneficiários dos programas sociais de “vagabundos” por conta de alguns que burlam o sistema. Para isso existem as denúncias que podem ser feitas e investigadas…

Não precisa ser beneficiário do PROUNI para defender os universitários e lutar para que todos, do operário ao empresário, tenham uma educação com a mesma qualidade…

Não precisa receber benefício da lei Rouanet para prestigiar e defender a cultura popular. Sabe-se que muitos artistas consagrados já não precisam deste benefício, mas a imensa maioria trabalha, e muito para viver da arte e, mesmo assim, não são valorizados como deveriam, recebem um cachê vergonhoso dos estabelecimentos onde se apresentam, apesar dos proprietários lucrarem muito com isso… Além do mais, a maioria dos fãs investe mais de cem reais para ver artistas de renome nacional, mas se recusa a pagar uma dezena de reais para ver o artista local tocando num barzinho, sobrevivendo, aos trancos e barrancos, quase sempre tendo que ter outro emprego para garantir o sustento…

Não precisa ser mulher para ajudar nas lutas feministas, na conquista de espaço, nas batalhas por seus direitos e por seus sonhos… Não precisa ser estuprada para se indignar e se envergonhar com a situação, lutando por justiça…

Não precisa estar o tempo todo na rua, manifestando, batendo panela (Aliás, cadê as panelas?) para lutar por um país melhor… A luta contra a corrupção começa quando não me rendo a ela no cotidiano, quando não busco levar vantagem em tudo, quando peço a nota fiscal de minhas compras, quando não furo as filas da vida, quando respeito o direito de meus semelhantes…

Enfim, não preciso ser nem assumir todas estas lutas, mas preciso de um ideal, algo que mova meus atos e minhas ideias. Preciso, enfim ser autêntico sem deixar de ser alguém na multidão lutando pelas causas populares…

Levando-se em conta esta lógica, é possível compreender o fato de alguns empobrecidos pelo sistema defenderem seus opressores… Afinal, não precisa ter muito dinheiro para defender os interesses da classe alta e, em muitos casos, opressora…

Só existem empobrecidos porque uma minoria muito organizada e convincente fica com a maior fatia do bolo deixando o restante para a maioria oprimida dividir e se sentir agradecida aos opressores que lhe fornecem muito menos do que as mãos do trabalhador produzem…

Márcio Roberto Goes

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Em defesa de Tomé

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E jesus apareceu, ressurreto aos apóstolos que estavam trancafiados todos no mesmo lugar, cheios de medo e insegurança… Mas Tomé não estava lá… Onde estava?… Sei lá… Poderia estar em qualquer lugar, menos ali escondido… Certamente, Tomé foi o único que não se amedrontou diante do golpe que culminou na execução de seu mestre… Os outros, ao contrário, se fecharam a queixarem-se: – Jesus morreu… Mataram nosso mestre… Está tudo acabado… E agora?… – Talvez, Tomé possa ter feito os mesmos questionamentos em sua mente e em seu coração, mas em vez de ficar se lamentando, preferiu sair da zona de conforto e continuar a luta por justiça iniciada por Jesus… Naquele momento é que se poderia saber se os ensinamentos do messias tiveram alguma valia para seus apóstolos… “Só se sabe quando o discípulo realmente aprendeu, na ausência do seu mestre”…

Mesmo assim, jesus saúda seus amigos medrosos com a paz e dá a eles autoridade sobre seus liderados… E Tomé?… Certamente recebeu esta autoridade depois, com maior merecimento… Não é possível que o Cristo, filho de Deus, tenha esperado justamente o momento em que um apóstolo estava ausente para aparecer aos outros… Acredito que esse, condenado por tantos como incrédulo não tenha ficado por muito tempo com aqueles “cheios de fé”. É fácil ter fé trancado num quarto sem conhecer a realidade ao seu redor… É mais cômodo, não exige compromisso, não exige ação… É só acreditar nas sombras que se refletem na parede refletidas pela entrada da caverna (Platão)…

Ao saber do acontecido, Tomé diz claramente que só acreditaria se encostasse nas feridas de Jesus… O que muitos chamam de falta de fé, pode-se entender também como prudência, pois frequentemente acontece de se esperar um milagre sem fazer o mínimo de esforço para alcançá-lo… Mas Deus é bom e o filho dele também. Por isso apareceu primeiro para os medrosos de plantão e mesmo assim não tomaram coragem de sair dali para continuar sua a obra…

Uma semana depois, Jesus aparece novamente aos apóstolos… O detalhe é que eles continuavam lá, fechados, com medo, mas desta vez, Tomé estava presente, no mesmo instante caiu de joelhos, dizendo: – Meu Senhor e meu Deus!… Ao passo que Jesus respondeu: Você acreditou porque viu. Feliz quem acredita sem ver… Não se tratava de uma comparação com os outros discípulos, pois todos também acreditaram ao vê-lo na semana anterior e, mesmo assim, permaneceram confortavelmente trancafiados em sua fé… Desta forma, não faz sentido chamarmos o pobre Tomé de incrédulo, pois os outros também creram nas mesmas condições que ele. A única diferença é que ele viu depois…

Sejamos, pois, sensatos na nossa fé, assim como Tomé. Pois não é possível ter fé sem contestação, sem serviço, sem partilha, sem luta pelos desfavorecidos… Deus se alegra com os louvores, mas se alegra muito mais com a capacidade de seu povo transformar a realidade através da partilha…

Márcio Roberto Goes

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Colo materno

COLO1

Numa bela manhã de quarta-feira ensolarada, transitava eu com minha forminha de pão prata que me dá 147 motivos para ser feliz pelas ruas do centro da cidade… Nem lembro direito o que eu tinha que fazer no centro, mas eu estava lá, ouvindo uma rádio FM qualquer, cantando junto uma letra qualquer, observando despretensiosamente o movimento dos carros e das pessoas nas calçadas. Gente indo e vindo… Pacotes e mais pacotes… Sorrisos… Caras fechadas… Passos rápidos… Caminhar lento… Carros estacionados em vaga proibida com o pisca alerta ligado, como se isso tornasse o motorista menos culpado. Imprudências inúmeras, falta de sinal para conversões, ou mudança de pistas… Gentilezas raras na faixa de pedestres… Ou seja… Trânsito normal para uma cidade de quase oitenta mil habitantes que completa oitenta e dois anos de emancipação…

Mas uma cena me chamou especial atenção: Uma moça, aparentava não mais que seus dezessete anos… Uma criança no colo, devia ter menos de um ano. Subentende-se que seja seu filho, subentende-se também que trata-se de mais um caso de gravidez na adolescência. Não me cabe aqui julgar as circunstâncias, e sim os fatos corriqueiros como faz todo cronista que segue a regra (ou não)…

Sei de muitos casos de meninas que engravidam, acham maravilhoso, se consideram guerreiras por serem mães solteiras, postam fotos orgulhosas da barriga crescendo… Mas depois que acriança nasce, deixam para os avós cuidarem, terceirizando assim a responsabilidade da maternidade…

Com muita alegria, constato que não é o caso em questão: Esta moça carregava seu filho muito perto de si, caminhando vagarosamente, ora olhava para o caminho, ora olhava orgulhosa para seu rebento ao colo… Acariciava seus cabelos, beijava carinhosamente o rosto e a fronte, balbuciava alguma coisa no seu ouvidinho… E o bebê retribuía a abraçando com toda força que seus bracinhos permitiam… Aparentavam ser mãe e filho felizes…

Estudiosos dizem que a personalidade do ser humano se forma nos seis primeiros anos de vida, portanto, esta moça não sabe o bem que está fazendo por aquela vidinha que carregou nove meses na barriga e agora segura carinhosamente em seu colo materno, protetor e amoroso…

Poucas coisas me emocionam, apesar de algumas pessoas entendidas no assunto dizerem que sou altamente sensitivo. Esta cena marcou minha mente e meu coração de tal forma que me fez parar o carro e observar com maior atenção. À medida que a mamãe coruja se aproximava, fui percebendo que conheço a moça. Foi minha aluna nestas minhas voltas pela educação pública… Não chamei a atenção, não acionei a buzina para não atrapalhar o momento… Havia uma barreira para o resto do mundo. Só havia ela e o filho numa longa caminhada despreocupada pela Avenida Senador Salgado Filho e um escritor meia boca parado dentro de um Fiat 147 admirando a cena de queixo caído… Desta forma, pouco importaria se eu chamasse a atenção, ou buzinasse… O resto do mundo não importava para ela, para a criança, tampouco para mim…

Como sempre, minha mente ficou matutando por horas sobre aquilo… Parece que ninguém mais notou além de mim. Em tempos de ódio espalhado por todos os segmentos da sociedade, intolerância, discriminação, preconceito, atos ilícitos, modinha de luta contra a corrupção (só a de Brasília, o resto querem que a gente esqueça)… Enfim, em tempos de conflitos ideológicos, políticos e egoísticos, ninguém tem tempo para observar a mais sublime demonstração de amor de uma jovem mãe pelo seu bebê em vias públicas… O amor contagia, mas é preciso estar aberto aos sinais…

Márcio Roberto Goes

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