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Categoria: EEB Wanda Krieger

UM SONHO NÃO SONHADO

02/02/2006 – Adaptado em 11/10/2017

Primeiro de março de mil novecentos e oitenta e um, uma hora da tarde, início do ano letivo na Escola Básica Salgado Filho. Entre os alunos encontra-se um menino de sete anos, está lá pela primeira vez. A única experiência que teve com escola até então, foi no jardim de infância, no ano anterior, onde ficou, desafortunadamente, apenas por um dia, à custa de muito choro, não suportando a ausência da mãe que, apesar de ter cursado apenas a segunda série primária, o ensinou a ler e escrever, e naquela ocasião, o trazia pela mão para seu primeiro dia de aula na primeira série “C”.

Lá estava ele, meio sem jeito, calçando conga azul com solado branco, trajando calça de tergal azul-marinho e uma camisa social branca abotoada nos pulsos: uniforme usado por todos os alunos daquela escola. Entra na fila ao ouvir o sinal, sem tirar os olhos da mãe que o observa apaixonadamente de longe, senta-se num dos últimos lugares de onde pode ainda avistar sua maternal proteção, que permanece por ali até o recreio, quando sua turma é dispensada em virtude de ser a primeira semana de aula.

Aquele menino tímido, inseguro e dentuço jamais poderia imaginar que estava vivendo o primeiro dia dentro de um ambiente que mais tarde seria o seu sustendo e sua realização profissional… Os anos passaram e nosso protagonista sonhava em ser carpinteiro, como seu pai (de fato adquiriu muitos conhecimentos deste ofício); pensou também em ser advogado e até artista… Iniciou sua vida profissional como auxiliar de produção numa indústria madeireira, de onde saiu para ser radialista (sua grande obsessão até então), foi também auxiliar de enfermagem, recondicionador de autopeças, vendedor e até “carpiu” lotes para sobreviver…

Este menino cresceu, reuniu toda a sua experiência escolar e profissional em uma única, envolvente e maravilhosa profissão que não fez parte de seus sonhos infantis ou adolescentes: o ofício de professor… Hoje ele volta à sala de aula com dezessete anos, não de vida, mas de serviço no magistério, calçando sapato preto, trajando calça jeans, camisa polo com uma caneta no bolso, óculos para corrigir o astigmatismo, em uma das mãos uma pasta preta e na outra uma caixa com pincéis e apagador, sua principal ferramenta, tomando o lugar do martelo, do serrote, do microfone, da seringa e da enxada.

Por um instante, vê aquele menino encabulado rompendo as barreiras do tempo e adentrando a sala de aula, sente sua mãe descer do céu e levá-lo pela mão até a classe, dedicando sua espontânea proteção maternal… Volta seus olhos para o céu e agradece àquela que ensinou as primeiras palavras para seu filho caçula, primeiro da família a ter um diploma universitário, ainda que com muito custo e que hoje ajuda muitos outros “caçulas” a descobrirem a importância das palavras em suas vidas…

O tempo passa, a educação muda, os alunos mudam, o menino mudou: agora é um educador, por vezes inseguro e amedrontado, sem saber o que o espera na escola, mas como no primeiro dia de aula, revigora suas forças na maternal proteção e adentra a sala de aula para compartilhar o pouco que sabe com seus alunos, que talvez também sejam, no futuro, felizes e realizados com uma profissão que nunca sonharam.

Márcio Roberto Goes

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Aula de cidadania

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Uma escola pública que sofre com o descaso das autoridades no maior e mais populoso bairro de Caçador e, por consequência, com o maior número de eleitores… Não é novidade pra ninguém que escrevo sobre meu querido Wandão que continua daquele jeitão, sem teto na área de convivência, obrigando alunos e professores a molhar os pés e cobrir a cabeça para transitar nos dias de chuva e tals…

Confesso que cansei de lutar… Cansei de não ser ouvido… Cansei de ver meus queridos alunos se dedicando ao máximo pela qualidade de ensino desassistidos por aqueles que são eleitos para cuidarem deste patrimônio de aprendizado e de convivência científica entre jovens e professores… Percebo que a comunidade escolar também cansou de nadar contra a maré e resolveu fazer a sua parte…

Meus alunos do noturno deram um exemplo de empenho comparecendo em peso nas aulas de reposição da greve durante as férias: Prova de que, apesar de minha desistência (da boca pra fora), a luta continua e, se os alunos estiveram presentes nas aulas de reposição, é sinal que entenderam e apoiaram nossa ausência nos dias de paralisação… Nota 10 na aula de cidadania…

Além disso, nas últimas semanas, alunos e professores resolveram, apesar da estrutura precária, embelezar a escola com pinturas artísticas… Mas não se trata de qualquer arte. É arte com cidadania. As paredes foram pintadas com temas que abordam a sustentabilidade, o cuidado com a natureza, a reciclagem, a compostagem… Entre personagens de Maurício de Souza, borboletas, pôr do sol, Simpsons, encontram-se frases e imagens que nos remetem à reflexão sobre o que fazemos com nosso lixo… Será que reciclamos e reaproveitamos o que é possível?… Será que somos generosos o suficiente para dar o destino certo para cada lixo a fim de manter nossa qualidade de vida?

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Não me admiraria se chegasse o dia em que a comunidade da Escola Wanda Krieger Gomes, cansada de esperar solução, pusesse a mão na massa para arrumar o telhado, além de outros problemas estruturais… Uma vergonha para as gravatas, pois estaríamos fazendo aquilo que seria de competência delas…

Aqui, o povo faz o que pode pela nossa escola… E lá na ilha, estão nos representando como manda a constituição?… Estão defendendo os interesses deste povo desassistido que os elegeu?

Senhores ilhados, está na hora de seguirem o exemplo desta comunidade escolar dedicada em melhorar nosso ambiente e fazerem aquilo que lhes compete… Que tal atravessarem a ponte até o meio-oeste do continente e participarem de uma aula de cidadania conosco?…

Márcio Roberto Goes

 

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Humanas prioridades

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Reposição de aulas: Isso acontece pelo fato de alguns professores comprometidos com as causas populares, terem feito greve por algum período a fim de lutar por melhorias na educação pública. Além da greve, particularmente na escola Wanda Krieger Gomes, tivemos outras manifestações: paralisações e mobilizações envolvendo alunos, pais, professores, APP, Conselho deliberativo, Grêmio Estudantil e toda a comunidade escolar para cobrar das autoridades competentes os reparos urgentes de que a escola necessita…

Se formos comparar o antes e depois das manifestações, a única diferença é o tempo que passou e prejudicou ainda mais a estrutura que, se fosse reparada a tempo, seria muito mais simples e barato. Mas sempre existe a desculpa de falta de verba, de licitação e tals… Por aí, pode-se traçar o perfil de prioridades dos governantes que não tratam uma escola sem teto na área de convivência e sem energia elétrica na metade do prédio como algo urgente…

Nós, que ousamos lutar, temos férias reduzidas em julho, precisamos improvisar aulas, em algumas salas, na penumbra de uma escola quase totalmente alagada pelas chuvas. Já presenciei vários tombos por conta do piso escorregadio. As meninas da limpeza não dão conta de passar o rodo cada vez que chove… Mas para as gravatas está bom. Tem sala suficiente, tem estrutura suficiente para a escola funcionar… Queria que uma gravata dessas passasse um dia trabalhando nestas condições…

Alguém pode argumentar que não é culpa de ninguém, foram as intempéries que levaram o telhado e circuitaram a rede elétrica e os reparos são muito complicados para serem feitos de uma hora para outra… Concordo que não podemos controlar o tempo, mas já seria possível solucionar tudo isso, visto que o problema se arrasta por mais de um ano…

Me recordo da última enchente que alagou parte da SDR: Tudo foi resolvido e a estrutura reparada em pouquíssimo tempo, aliás, as folhas ofício, vitimadas pela enxurrada, foram gentilmente cedidas para as escolas usarem a vontade. Até hoje estamos aproveitando papéis enrugados e destorcidos pela enchente… Parece que a única coisa partilhada com a educação pública, neste caso, é o prejuízo, pois nosso querido Wandão não mereceu reparos com a mesma urgência…

Muitas pessoas que ocupam cargo de confiança já vieram ver os estragos, mas nada foi feito. Esperamos por meses por uma dita licitação que nunca se resolve. Mas penso que seja este um caso de calamidade pública e deveria ser tratado com a urgência que merece.

Infelizmente, educação pública só é prioridade nos palanques podres da politicagem que, infelizmente, contamina nossas relações políticas entre povo e governantes… Mas as gravatas esquecem que só estão lá pelo voto popular e que são pagas por nós para trabalhar pela comunidade que espera o dia em que seus direitos sejam, de fato, respeitados…

Enquanto isso, continuamos trabalhando na penumbra e molhando os pés para chegar até a sala de aula… Mas isso não é nada. É mais importante construir elevados e viadutos para melhorar o fluxo no trânsito. Pena que só os seres humanos votam, pois as máquinas são as mais favorecidas depois das eleições e nossos estudantes precisam se conformar em buscar algo tão inútil para os governos como o conhecimento. Não me admira que os jovens pensem primeiro em fazer a carteira de motorista pra depois pensar numa faculdade. Afinal os automóveis têm mais benefícios que os seres humanos…

Márcio Roberto Goes

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A teoria que desencanta

Certa vez, fiz uma avaliação com meus alunos… Pouca coisa: Uma produção de texto que destacasse a importância do estudo da Literatura para alunos de ensino médio. Deveriam, para isso, valer-se de argumentos retirados dos conteúdos de Literatura, gramática e produção de texto trabalhados em sala… Teriam duas aulas para fazer a prova e poderiam consultar tudo o que estivesse ao seu alcance, inclusive o colega…

Foram devidamente avaliados por mim e as respectivas notas (nenhuma menor que sete) registradas no diário que ainda insiste em nos convencer que devemos resumir o conhecimento de nosso aluno num número. Na folha de avaliação, somente um “visto” e minha rubrica. Nada de números… Os professores de matemática me perdoem, mas colocar um número de um a dez em vermelho no trabalho do aluno não reflete a qualidade de sua produção, além de ser um fator excludente, pois aqueles que tiram melhores notas têm subsídios suficientes para humilhar aqueles com notas menores que a sua… Meus colegas das exatas: prefiro que os números fiquem somente nos cálculos que já são difíceis de ensinar de forma prazerosa por vocês em sala de aula…

Muitos me perguntaram: “Cadê minha nota, professor?”… “Está no diário”… Respondi imediatamente… “Então diga nossas notas”… Quando o professor atende um pedido desses, comete um erro gravíssimo que acontece em todas as escolas por onde passei… A divulgação de notas em público, não deixa de ser uma forma de bullying contra aqueles que não alcançaram aquilo que exige o sistema… Outra coisa humilhante é divulgação de resultados finais no mural. Todos verão quem passou e quem reprovou… Poderão parabenizar os aprovados, mas também terão a chance de humilhar os reprovados… Que tal a gente discar 100 e denunciar isso também?…

Perguntei a um aluno, qual a razão de querer saber a nota da prova. Ele me respondeu que queria saber onde poderia melhorar. Pedi que sentasse ao meu lado com seu texto e fizemos, juntos, a correção. Naquele instante, nem eu nem ele lembramos da nota. Ele se tornou um dos melhores alunos escritores daquele ano…

Quantas vezes cortamos as asas do nosso aluno só pelo fato de o tratarmos como número. Não o deixamos voar. Queremos que ele espere a sua nota e, quando atingir o tão sonhado 10, não precisa mais se esforçar. Afinal, chegou ao topo, já tem a nota máxima, não há necessidade de melhorar, já está moldado na forma da educação tradicional…

Até que ponto uma nota dez no boletim ajuda na vida cotidiana do estudante? Conheci uma pessoa que foi aprovada no segundo ano de ensino médio com quarenta pontos em Língua Portuguesa… No terceiro ano, sua professora lhe pediu que produzisse uma dissertação argumentativa e ela não havia conseguido desenvolver, sequer um parágrafo, mesmo tendo visto todo o conteúdo necessário para realizar aquela tarefa no ano anterior… Suas notas estavam no topo, mas seu conhecimento não passava de teoria… Nós, professores, insistimos em ensinar um monte de regras inúteis que só servirão para o aluno odiar ainda mais as linguagens. E o pior é que, muitas vezes nós mesmos as julgamos sem serventia, mas ensinamos para não fugir ao planejamento… Aliás, planejamento feito por nós mesmos, muitas vezes repetido ao passar dos anos, tendo somente a capa e folha de rosto modificadas…

Para inflamar ainda mais as críticas ao meu trabalho, resolvi aplicar a mesma prova no exame final. Desta vez, é claro que o aluno não teve direito a nenhuma consulta… “Assim todos vão ser aprovados na tua matéria”… Me criticava alguém…. Mas nem todos alcançaram a vitória, pois a meu ver, um aluno de ensino médio deve ler, analisar e produzir bons textos. Não me importa se ele não souber fazer perfeitamente uma análise sintática (A maioria de nós, graduados em Letras, também não sabemos), o que realmente vai torná-lo um cidadão melhor e atuante na sociedade é aquilo que ele interpreta dela, por consequência forma uma opinião e busca soluções… Isso deveria ser o grande objetivo dos professores de todas as disciplinas. Ocorrendo isso, certamente nosso aluno se tornaria um adulto maduro e impossível de ser manipulado pelas autoridades que já começam abusando de nossa inteligência e cidadania com a compra de votos nas eleições democráticas e corruptas que temos a cada quatro anos…

Portanto, vamos nos unir, professores, alunos e comunidade, a fim de trabalharmos aquilo que realmente vai fazer nosso aluno crescer enquanto cidadão… Façamos o nosso trabalho, sem criticar outras escolas e professores anteriores do nosso estudante… O aluno é um ser humano e deve ser tratado como tal… Mas ele deve saber que os professores também são humanos e passíveis de erros, enganos e atitudes errôneas… Escola é lugar de gente… E gente está sempre aprendendo e ensinando, independente de situação, ou títulos que carrega…

 

 

Márcio Roberto Goes

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Amados amigos

Este texto pode parecer só mais um de tantos que já escrevi… Mas é especial e único, pois é remetido a grandes amigos, aqueles que têm um cantinho todo especial e exclusivo no meu coração: Meus queridos e amados alunos de ensino médio da Escola Estadual de Educação Básica Wanda Krieger Gomes…

Quando resolvi ser professor, já ao optar pelo magistério no ensino médio durante a década de 1990, aceitei tal desafio com uma condição: Que eu pudesse ser, no mínimo, amigo dos meus alunos… Há doze anos atuo como professor na rede pública estadual e, por alguns momentos também na municipal… Em toda escola que passei, deixei nascer grandes amizades que até hoje estão vivas e presentes em minha vida. Porém, a paixão avassaladora pela educação nasceu mesmo ao me deparar com uma escola que, apesar de já estar há alguns anos em funcionamento, não tinha sede própria. O prédio foi inaugurado no dia 26 de fevereiro de 2006, desde então sou professor efetivo do querido Wandão; o abacatão do Martello que agora apagou-se com tinta marfim, cobrindo obras de arte e sonhos dos nossos alunos brilhantes, meus grandes amigos…

Meus queridos, vocês são a personificação da “Escola dos meus sonhos”… Foi com vocês que aprendi, mesmo contrariando as estatísticas, que é possível uma educação diferente, dinâmica e humana na nossa escola… Na companhia de alguns de vocês, passei por várias escolas da região proferindo palestras, falando, ouvindo, cantando e encantando no melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas: A escola pública… Fomos até cantar na rádio e no Festival da canção: Lá, não tinha diferença entre professor e aluno, éramos iguais, torcíamos um pelo outro e comemoramos juntos nosso esforço que, infelizmente, não rendeu a classificação… Mas valeu pela experiência que eu gostaria de repetir em breve…

Mas o antagonismo sempre está presente na vida dos sonhadores, por isso, tive que lutar muito para conquistar espaço e a confiança das pessoas que estiveram presentes nas minhas vitórias e derrotas e esta luta, quase solitária, por uma escola mais humana me rendeu algo que antes julgava ser frescura da cabeça das pessoas: O estresse… Este vilão lento e silencioso que, aos poucos toma conta da vida de quem não se conforma com tudo o que vem de cima… Quisera eu ser apático, obediente, conformado… Mas não sou assim, tenho sangue nas veias e um coração no peito que bate constantemente clamando por dias melhores, por uma atenção maior das autoridades para nossa querida educação pública, por uma união maior de alunos, professores, pais e comunidade…

É claro que, com tantas frustrações, além do estresse, tinha que ter um quadro depressivo… “Você não está bem”: Ouvi esta frase do diretor, da Bruninha, de alguns alunos e professores, de parentes e amigos… Enfim, a gota d’água que me levou ao psiquiatra. O diagnóstico: TAG, Transtorno de ansiedade generalizada… Graças a este antagonista, estou afastado do meu mundo… Por um tempo, preciso cuidar da saúde… Infelizmente o lugar onde eu mais gosto de estar é também aquele que mais afeta para o agravamento do TAG…

Portanto, queridos, não os vejo todos os dias, não temos mais longas conversas sobre tudo que remete ao estudo das linguagens, não cantamos mais em espanhol… Mas os tenho em meu coração passional e, em breve, voltarei renovado… Quero agradecer imensamente cada palavra, cada gesto de apoio que venho recebendo de todos vocês. É por vocês que o “professor maluco” continua vivo…

O vilão do TAG será sepultado junto com todas as frustrações de uma educação que só é prioridade no palanque eleitoral… Afinal, a luta continua e conto com a ajuda de vocês nesta batalha…

Márcio Roberto Goes

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