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Categoria: Educação

Síndrome do Já Passei

Em todo ano letivo, sobretudo agora que não existem mais exames finais nas escolas estaduais de Santa Catarina, acontece um fenômeno que atinge uma parte considerável dos alunos, principalmente aqueles que se acostumaram a valorizar muito mais os números do que o conhecimento real. Trata-se da Síndrome do “Já Passei”.

Entre os principais grupos de risco estão os inteligentes, porém preguiçosos, os que tentam levar vantagem de todas as situações e os que procuram a evolução só por mérito…

Tem uma frase, não lembro o autor, que diz: “Os preguiçosos revolucionam o mundo”… De fato, somente alguém extremamente preguiçoso para inventar algo como o controle remoto que celebra a lei do menor esforço e maior conforto… Mas os preguiçosos que fazem parte de um dos grupos de risco da síndrome não buscam evolução, tampouco procuram melhorar a vida das pessoas ao seu redor. São preguiçosos que vencem a preguiça só até que se tenha alcançado níveis satisfatórios de evolução, revelados, nem sempre de forma justa, através da média bimestral.

Outro grupo de risco é composto por aqueles que tentam levar vantagem em tudo. Buscam sempre uma recompensa muito maior que seu verdadeiro esforço e sempre reclamam da nota quando a comparam com a do outro. Afinal, se sua nota é menor, se sente injustiçado e não reconhece o esforço de seu colega com nota, numericamente maior. Mas, quando sua nota é alta, não chama de injustiça o fato de seu colega, mesmo se esforçando, ter alcançado uma nota menor…

O terceiro dos principais grupos de risco é aquele que está em constante busca por méritos, gosta de ser enxergado e citado entre os melhores, seu único objetivo, como nos outros grupos de risco, é passar de ano. Não se importa com o futuro, quer ser aprovado, mesmo que seu conhecimento não esteja completo para aquele ciclo…

Em todos os casos, esta perigosa síndrome só ataca aqueles alunos, matematicamente aprovados antecipadamente, ou seja, aqueles que atingiram os 24 pontos no terceiro bimestre. Os principais sintomas são: falta de vontade de ir à escola, soberba, indisposição para ouvir explicações com atenção e entregar os trabalhos, e desejo irresistível de atrapalhar a aula, afinal já está aprovado e não importa que o restante da turma queira participar…

As vítimas da síndrome do “Já Passei” ignoram que o conhecimento é um processo contínuo e que vai precisar do conteúdo do quarto bimestre como pré-requisito para o ano letivo seguinte, além de não perceberem que a nota do último bimestre fará parte de seu histórico escolar na versão detalhada. Possivelmente, quando for procurar um emprego, terá seu documento submetido à análise e será questionado sobre as razões que o levaram a decair bruscamente na última nota. A justificativa será pelo fato de ter sido aprovado por antecipação… Certamente, o empregador, não vai contratar alguém que desiste do processo quando cumpre a primeira meta…

O tratamento é simples: Manter o nível de esforço, doses diárias de generosidade com aqueles que ainda não alcançaram a média, além de uma boa injeção de respeito pelos profissionais da escola e colegas, reconhecendo que todos fazem parte do seu crescimento pessoal e profissional.

Afinal, quem sobe as escadas da vida sozinho, quando se desequilibrar e cair, não encontrará ninguém para segurá-lo. Porém, quando se procura o crescimento coletivo, ninguém cai, pois um segura o outro nos eventuais tropeços da escalada…

A origem principal da síndrome do “Já Passei” é o egoísmo e a cura é a generosidade…

Márcio Roberto Goes

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A fantástica fábrica de gênios

Fui desafiado por uma turma de segundo ano de ensino médio a fazer, em sala de aula, a mesma atividade que propus a eles: uma crônica. Desafio aceito e lá vai minha produção de texto para a avaliação da turma… Tenho que caprichar… Os avaliadores são muito exigentes…

Quando digo que o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas é a sala de aula, pode acreditar que é de coração e resultado de uma vivência de quase dezoito anos com essas pessoinhas maravilhosas chamadas alunos…

Durante esse tempo, já tenho visto e vivenciado de tudo: muros caindo, alunos evoluindo e caindo também, formaturas, escola velha com cara de nova, escola nova com cara de velha, educação de vitrine, educação real, aluno de vitrine, auno real… Amizades se fazendo e desfazendo, profissionais, nascendo e crescendo, conhecimento crescendo e evoluindo… Pessoas mudando…

Me afastei por um tempo para assumir um cargo administrativo. Uma ótima experiência que, aliás, penso que deveria ser vivida por todos os professores antes de criticar qualquer atitude da direção… Mas voltei a esta fantástica fábrica de gênios, afinal nada se compara ao cotidiano da sala de aula… Observar os gênios em ação na pessoa dos alunos é, de fato, uma experiência, no mínimo, fantasticamente fantástica (Perdoem-me o pleonasmo proposital)…

Certo dia, fui filmado, tentando mostrar a performance de um mestre-sala de escola de samba que se desdobra em oito pernas com passos rápidos e frenéticos, enquanto a porta-bandeira desliza suavemente pela avenida. No mínimo, me parece um tanto desigual… Minha coreografia ficou horrível, mas dizem que o vídeo bombou… Kkkkkkk… Pena que ninguém compartilhou comigo… Mimimimi… No princípio, quando soube da notícia, fiquei um tanto zangado, mas depois encarei o fato como uma prova de que o professor é um ser humano e, às vezes, também pode extrapolar, quebrando a rotina no intervalo…

Para retribuir a homenagem, resolvi também começar a prestar mais atenção nos queridos alunos à minha volta. Um, em especial, me remete aos meus tempos de escola. Me identifiquei com o senso de humor da criatura. Às vezes, quando não estamos diante de uma explicação que exija maior atenção, somos surpreendidos por algum refrão de alguma canção do passado (ou não), na voz deste nosso gênio acompanhado pelos colegas mais próximos… Às vezes, até me incomoda, mas quando percebo que a turma, apesar disso, consegue render no caminho do conhecimento, até acho graça… Penso que nossos alunos estão no caminho dos gênios. Basta identificarmos, procurarmos potencializar e intensificar os fatos e ideias positivas no ambiente…

Nosso protagonista, o Lucas, tem provado a cada dia, estar traçando este caminho. Em cada palavra com tom humorístico, sarcástico e , às vezes irônico, se esconde uma experiência de vida. Em cada análise crítica, revela-se um jovem formador de opinião que tem consciência da própria imperfeição, mas busca a atenção dos demais, mostrando a coragem de ser diferente…

E o mais incrível é que o restante da turma segue este padrão de busca da genialidade. Pessoas que enxergam na vida cotidiana, detalhes e fatos que sempre merecem ser retratados de forma subjetiva…

Na real, estou rodeado de gênios cronistas em potencial. Como não percebi esse negócio do troço do treco da bagaça antes?

Márcio Roberto Goes

 

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Em defesa de Tomé

E jesus apareceu, ressurreto aos apóstolos que estavam trancafiados todos no mesmo lugar, cheios de medo e insegurança… Mas Tomé não estava lá… Onde estava?… Sei lá… Poderia estar em qualquer lugar, menos ali escondido… Certamente, Tomé foi o único que não se amedrontou diante do golpe que culminou na execução de seu mestre… Os outros, ao contrário, se fecharam a queixarem-se: – Jesus morreu… Mataram nosso mestre… Está tudo acabado… E agora?… – Talvez, Tomé possa ter feito os mesmos questionamentos em sua mente e em seu coração, mas em vez de ficar se lamentando, preferiu sair da zona de conforto e continuar a luta por justiça iniciada por Jesus… Naquele momento é que se poderia saber se os ensinamentos do messias tiveram alguma valia para seus apóstolos… “Só se sabe quando o discípulo realmente aprendeu, na ausência do seu mestre”…

Mesmo assim, jesus saúda seus amigos medrosos com a paz e dá a eles autoridade sobre seus liderados… E Tomé?… Certamente recebeu esta autoridade depois, com maior merecimento… Não é possível que o Cristo, filho de Deus, tenha esperado justamente o momento em que um apóstolo estava ausente para aparecer aos outros… Acredito que esse, condenado por tantos como incrédulo não tenha ficado por muito tempo com aqueles “cheios de fé”. É fácil ter fé trancado num quarto sem conhecer a realidade ao seu redor… É mais cômodo, não exige compromisso, não exige ação… É só acreditar nas sombras da parede refletidas pela entrada da caverna (Platão)…

Ao saber do acontecido, Tomé diz claramente que só acreditaria se encostasse nas feridas de Jesus… O que muitos chamam de falta de fé, pode-se entender também como prudência, pois frequentemente acontece de se esperar um milagre sem fazer o mínimo de esforço para alcançá-lo… Mas Deus é bom e o filho dele também. Por isso apareceu primeiro para os medrosos de plantão e mesmo assim não tomaram coragem de sair dali para continuar sua a obra…

Uma semana depois, Jesus aparece novamente aos apóstolos… O detalhe é que eles continuavam lá, fechados, com medo, mas desta vez, Tomé estava presente, no mesmo instante caiu de joelhos, dizendo: – Meu Senhor e meu Deus!… Ao passo que Jesus respondeu: Você acreditou porque viu. Feliz quem acredita sem ver… Não se tratava de uma comparação com os outros discípulos, pois todos também acreditaram ao vê-lo na semana anterior e, mesmo assim, permaneceram confortavelmente trancafiados em sua fé… Desta forma, não faz sentido chamarmos o pobre Tomé de incrédulo, pois os outros também creram nas mesmas condições que ele. A única diferença é que ele viu depois…

Sejamos, pois, sensatos na nossa fé, assim como Tomé. Pois não é possível ter fé sem contestação, sem serviço, sem partilha, sem luta pelos desfavorecidos… Deus se alegra com os louvores, mas se alegra muito mais com a capacidade de seu povo transformar a realidade através da partilha…

Márcio Roberto Goes

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Porco com batatas

Sempre gostei de animais. Quando tinha cerca de doze anos, tínhamos um porquinho e, por se tratar de um bairro próximo ao centro, era necessário limpar muito bem o chiqueiro todos os dias para não haver nenhum mal cheiro que atrapalhasse a qualidade de vida dos vizinhos. No verão, a sequência da higienização era ainda maior. Eu era encarregado da limpeza da residência oficial daquele suíno que se tornou um de meus melhores amigos de infância, ocupando o lugar ocupado pela dinastia de cães chamados Bilu e o periquito que vivia no meu ombro quando eu tinha remotos cinco aninhos…

Meu porquinho gostava tanto de mim que, ao me ver, chegava a abanar o rabinho em alta velocidade. Todos os dias, eu calçava a bota de borracha, puxava a mangueira do poço até sua casa e ligava o motor para transladar a água até aquele local. Lavava todo o ambiente, depois dava banho no meu amigo que gostava a ponto de deitar-se para receber carinho na barriga, depois enchia o coxo da mais deliciosa lavagem que, para ele era um manjar dos deuses… Era muito bom cuidar de outra vida animal e poder, mesmo involuntariamente, identificar o humano dentro dele… Um quadrúpede, originalmente fedorento e com hábitos não muito higiênicos, me ensinava a cada dia aquilo que a humanidade toda precisava e ainda precisa aprender: o amor ao próximo…

Nossa relação suína era altamente humana e ganhava de muitas pseudo-amizades que vemos por aí entre seres humanos racionais com o encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores… Por várias vezes tentei abraçar meu porquinho, perdi o equilíbrio e fui parar no chão, na mesma altura e situação dele… Apesar de tudo, não parecia tão mal assim viver num chiqueiro…

Acima do chiqueiro, que ficava ao pé de um pequeno morro, havia uma plantação de batatas-doces, cuidadosamente preparada por minha mãezinha querida… Ocorre que um dia caiu um toró e o morro quase veio abaixo em forma de enxurrada. Era água que não acabava mais, nunca tinha visto tanta chuva em tão pouco tempo. As batatas-doces desceram o morro junto com a terra vermelha e invadiram a casa do meu amiguinho… Da janela, eu olhava preocupado, sem saber o que fazer. Minha mãe não me deixava sair naquela chuva para socorrê-lo, temendo que eu fosse levado também pela enxurrada… Então eu ficava olhando a chuva cair e amedrontado pela possibilidade de perder meu amigo no meio da tempestade…

Mas depois da chuva vem a bonança e, quando tudo acabou, voltei ao chiqueiro para ver se conseguia encontrar algum vestígio do meu porquinho e grandiosa foi minha surpresa quando o vi atolado até a barriga, imóvel e, sem nenhuma preocupação com o resto do mundo, comendo batata-doce trazida durante a chuva…

Mais uma vez, aprendi com ele… Aprendi que nem toda tempestade traz desgraças… Aprendi que podemos tirar proveito das situações, aparentemente, negativas… Aprendi que, se olharmos com atenção ao redor, sempre encontraremos as batatas-doces no meio da enxurrada. Mesmo que estejamos imóveis e atolados até a barriga, sempre existe uma possibilidade de sobrevivência… Aprendi a ver desafios em cada situação complicada… E, acima de tudo, aprendi que se nos jogarem lama de cima para baixo, é possível encontrar, no meio da amargura humana, uma batata-doce que alimente nossa esperança e nos dê forças para reagir e tirar o pé da lama…

Só não consegui entender a razão pela qual minha família me tirou de casa um dia cedo e, quando voltei, meu melhor amigo já estava sem vida na geladeira, parte dele na panela e algumas migalhas de amizade transformadas em salame…

Márcio Roberto Goes

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Plano de aula da depressão

Atividade: Produzir uma dissertação argumentativa objetiva.

Tema: Atual conjuntura política no Brasil.

Peraí… Não posso pedir isso aos alunos de ensino médio. Vão dizer que sou esquerdopata, petralha, que sou contra privatização, que acho que foi golpe, que defendo bandido, que isso que aquilo…

Mudança de plano… Novo tema: A influência dos movimentos LGBT na construção da democracia…

Não… Não dá… Dirão que sou homofóbico, que não respeito as diferenças, ou dirão que sou gay enrustido… Não sou… Mas se eu fosse, qual o problema?… Diriam que eu seria uma má influência, que estaria contribuindo para a destruição das famílias dos alunos… Que isso, que aquilo…

Bem… Vamos lá… Mudança de plano novamente: Análise sobre o posicionamento da Igreja diante da intervenção militar… Meu Deus!… Seria o caos na educação: Diriam que eu estou tentando converter os alunos para a minha religião, que sou, contra, ou a favor da intervenção militar, que defendo bandido, que adoro imagens, que sou papa-hóstias, que apoio o comércio das igrejas evangélicas e católica, que discrimino outras religiões, que Oxum, Maomé e Buda vão me castigar… que isso… que aquilo…

Pois bem… Preciso trabalhar argumentação com meus alunos… Vou usar o clipe do Gabriel o Pensador, com a música: “Quem é você”. Servirá de motivação para eles formarem uma opinião e, então argumentarem sobre… Nãããããoooo… Não dá… Vão dizer que sou contra o sistema, que falo mal do governo, que quero doutrinar os alunos… Que isso, que aquilo…

E agora… Preciso ajudá-los a argumentar, afinal vão precisar disso na vida acadêmica, no vestibular, nos concursos e processos seletivos. Além de ajudá-los a raciocinar e não publicarem porcarias no facebook… Mas que tema propor? Tudo leva a uma reflexão… Tudo leva a pensar… E aqueles que estão na cadeira de quem pensa que manda, não querem que o povo pense… Mesmo assim preciso ajudá-los a raciocinar…

Um bom tema, seria sobre o assassinato da vereadora no Rio de Janeiro… Pera lá… Vão dizer, novamente que sou petralha, esquerdopata, comunista, ou pior, que sou contra a polícia, a favor de bandidos, que isso, que aquilo… Dirão tudo isso, repetindo como papagaios aquilo que alguém divulgou, sem averiguar os fatos…

E agora… O que fazer?… Acho que vou deixar tema livre… Não dá… Diriam que não sei dar aulas, que não estou preparado, que sou matão, vadio, preguiçoso, grevista, arruaceiro… Além do mais, eles ainda não estão preparados para argumentar sozinhos… Precisam de ajuda… O professor poderia ajudá-los, mas não pode, pois qualquer tema que proponha, será julgado como parcial, petralha, ou coxinha, comunista, ou golpista…

Bem… Para não deixar um planejamento em branco, pode-se propor o seguinte: “A influência da propagação acústica amplificada do vaso sanitário na convivência humana”… Gostei desse tema. Totalmente imparcial. Vão me chamar de retardado, mas ainda é melhor do que todos os outros possíveis xingamentos daqueles que acham que entendem de educação e se acham no direito de dizer o que se deve trabalhar em sala de aula…

É… Parece que estamos vivendo uma ditadura, não a civil, militar, comunista, ou capitalista… E sim, a pior de todas: A ditadura da falta de conhecimento… A ditadura da insanidade programada… Querem calar nossa voz… Agindo assim, calam também a voz das novas gerações, tornando mais fácil a dominação pelo poder…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

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