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Categoria: Cotidiano

A insignificância do risco

De acordo com o dicionário Aurélio Digital, uma das definições da palavra “risco”, é a seguinte: Qualquer traço em cor, ou sulco pouco profundo, na superfície dum objeto…

Pois bem, quem usa óculos sabe que, apesar de nos proporcionar um charme inigualável, eles também nos proporcionam uma despesa exorbitante cada vez que se faz necessária a mudança de grau. Mas tudo bem, como dizia o saudoso Dr Seiko Aguni: Devo cuidar de meus olhos, simplesmente porque são meus… É com eles que vejo o mundo ao meu redor, defino cores, profundidade, foco… Bem… No meu caso e de tantos outros míopes, astigmáticos, estrábicos, para que se tenha uma visão próxima da normal, necessita-se lentes corretivas…

Na minha última consulta, constatou-se que necessito de óculos multifocais, ou seja, grau para perto e para longe na mesma lente. Me doeu o bolso ao saber o valor, mas, valeu a pena, pois, após adaptar-me com a nova maneira de enxergar erguendo e baixando a cabeça conforme muda o foco, no estilo: “Cara, crachá… Cara, crachá… Percebi o quanto a vida fica melhor quando a gente enxerga com mais qualidade…

Fiquei alguns dias errando degraus, confundindo distâncias e profundidades, mas logo me adaptei… Neste período, numa destas tardes felizes e ensolaradas, como de costume, resolvi fazer pão caseiro… Sou um homem prendado, senhoras e senhores… Ao enformar os pães e colocá-los no forno elétrico que fica mais, ou menos na altura de minha cabeça, deixei a porta aberta, me virei de costas para fazer qualquer coisa e, ao retornar, minha testa foi de encontro com a tampa do forno… Disse ligeiramente uma lista de palavras que minha consciência não permite escrevê-las para um público tão distinto e educado… Mas o fato é que, a paulada atingiu também meus óculos novos, arremessando-os ao chão…

Corri pegar meus óculos reserva de leitura, de qualidade inferior, sem lentes transitions para ver o estado físico de meus queridos óculos multifocais… Um risco… Isso mesmo: Um desnecessário, inútil e inconveniente risco na lente esquerda de meu olho biônico… Disse toda a lista de besteiras novamente e acrescentei algumas palavras… Fui até a pia, limpá-lo com detergente neutro, conforme orientação da moça da ótica… Quem sabe limpando, o risco sumia… Nada… Para minha infelicidade, permaneceu ali, rindo de mim…

Passado o momento de cólera, coloquei de volta meus óculos e percebi o imperceptível: Não fez a menor diferença para minha qualidade de visão. Perto dos olhos o risco não aparece, não existe, não incomoda… Depois percebi que, de longe também não faz a menor diferença…

Às vezes, costumamos dar uma importância absurda a pequenos riscos em nossa vida, mas quando paramos para pensar, eles são insignificantes o suficiente para não fazer a menor diferença no cotidiano. Os problemas têm a importância que damos a eles…

Às vezes focamos tanto num risco minúsculo, esquecendo de ampliar o campo de visão e observar as maravilhas ao nosso redor. Estamos repletos de coisas, acontecimentos e seres que contribuem para o nosso conforto. Nada justifica o fato de nos desesperarmos com um pequeno risco diante dos olhos. Quando ousamos desfocá-lo e olhar o horizonte, percebemos que somos muito mais do que supomos com nossos pensamentos mesquinhos e discretamente riscados…

Márcio Roberto Goes

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A casa das sete cadelas

Sempre gostei de cachorros. Nunca imaginei minha vida sem eles… Desde que me conheço por gente, sempre tive um peludo de quatro patas, focinho gelado e cauda abanando ao meu redor. Muitos vira-latas fiéis escudeiros e alguns de raça definida, igualmente fiéis… Nunca paguei por eles… A vida não tem preço e nem pode ser resumida por valores materiais maiores, ou menores de acordo com a raça…

Agora tenho duas adoráveis companhias em minha residência oficial: Um labrador e uma vira-latas que juntos, após momentos românticos, livres pelo pátio, sem se importar com a plateia, já tiveram quase trinta filhotes em quatro gestações…

Nesta última, minha cadela de médio porte, deu à luz onze filhotes. Dois morreram logo depois do parto e sobraram sete fêmeas e dois machos… Infelizmente, uma menina e um menino também não resistiram… É sempre dolorido ter que enterrar um amigo, mesmo que seja canino, mesmo que tenha vivido apenas alguns dias… O que me alegra é que os demais estão fora de perigo…

Então, na minha residência oficial de verão, outono, inverno e primavera, permanecem dois cachorros: Um labrador adulto, quase idoso e um adorável filhotinho, único macho sobrevivente da ninhada… E sete cadelas, contando com a mãe que, aos poucos vai ficando menos agressiva e mais dócil, deixando-me aproximar para verificar seus bebês de vez em quando…

Para muitos, pode parecer algo corriqueiro, mas para este que vos escreve é uma experiência enriquecedora poder ajudar a cuidar de vidas tão frágeis, indefesas e dependentes… Oito vidinhas que ainda não abriram os olhos, nem os ouvidos para este mundo cruel e desumano. Tão novinhos, tão irracionais a ponto de nos ensinar a amar as maravilhas que Deus coloca em nossas mãos…

Parece irônico, quase uma antítese, saber que alguns animais que cabem na palma da mão nos tornam mais humanos… Coisa que muitos humanos não conseguem fazer com seus semelhantes…

Minhas sete cadelas e dois cachorros me ensinam, a cada dia, valorizar o carinho, a atenção, a generosidade que têm entre si e comigo. Nunca ouvi dizer que um animal irracional, quadrúpede e doméstico tivesse praticado bullying com outro semelhante seu, ou com os seres humanos ao seu redor…

Nós, autodenominados seres humanos, racionais, inteligentes, sábios, além de não aprendermos com os animais, ainda, muitas vezes os maltratamos, castigamos e cruelmente os amarramos pelo pescoço, deixando, em muitos casos, a vida toda em uma corrente, cumprindo uma pena que não merecem… Mesmo assim, um cão, quando vê o ser humano que o aprisiona e o castiga, sempre o recebe com alegria e uma cauda abanando…

Um dos cachorros e seis das sete cadelas que aqui estão, ao desmamarem, serão doados. Minha preocupação se dá pelo fato de saber que serão adotados por seres humanos. Espero que os escolhidos não tenham os pensamentos cruéis da maioria, pois essas oito vidas, não merecem ser castigadas por conta do egoísmo humano…

Enquanto não chega o momento da adoção, cá estou, em meio a dois cachorros e sete cadelas que me ensinam a ser menos cruel, mais maleável, amável e carinhoso com as diversas formas de vida que me circundam, inclusive a perereca que canta na pequena lagoa da vertente… Mas isso é assunto para outra crônica…

Márcio Roberto Goes

 

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O muro da minha infância

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Vivi três décadas e meia no bairro Sorgatto. Lá está enterrado meu umbigo… De lá, guardo lindas e ternas lembranças: A velha casa de madeira, o pomar nos fundos do terreno que o atual morador ainda conserva, o carreiro de hortênsias até a porta da cozinha. O limoeiro que ainda sobrevive, enfim, o cheiro, o sabor, as cores da minha infância estão lá e isso jamais será mudado em meu coração, ou apagado de minha mente…
Vi a rua Estados Unidos se transformar durante os trinta e cinco anos que vivi naquele endereço: Foi aterrada por duas vezes, recebeu construções que, na sua maioria ainda estão lá, foi revestida calçamento de paralelepípedo… Depois de algum tempo, nossa residência foi agraciada por uma calçada que ainda resiste ao tempo e um muro que não passa de quarenta centímetros de altura e, por algum tempo, foi sobreposto por uma cerca-viva…
Constantemente, na infância e na adolescência, durante a noite, me refugiava naquele muro para refletir, curar saudades, temores, rancores, angústias e até o estresse. Por vezes, simplesmente deitava no pequeno muro e ficava em transe só observando a imensidão do céu, identificando as constelações e viajando nas minhas utopias, até que me despertava novamente com uma lambida carinhosa do Bilu, que parecia me chamar de volta para a vida com o amor incondicional que só um cachorro de estimação é capaz de sentir… Mesmo depois que as cercas-vivas cresceram, ainda assim, sentava na calçada e ficava pensando, admirando a imensidão do céu.
Às vezes, era interrompido pelo ruído dos automóveis, raros à noite naquela rua, pelos passos compassados de algum bebum que voltava da bebedeira, ou mesmo alguém que voltava do trabalho…
Hoje percebo o quanto meus pensamentos ingênuos, despreocupados e utópicos naquele muro, ajudaram no meu crescimento pessoal. Um muro que não cumpria sua função de separar nossa família do resto do mundo, por conta de sua baixa estatura, me fazia viajar na imaginação e curar qualquer enfermidade da alma… Às vezes, minha mãe ia, pé ante pé, até a varanda se certificar que eu ainda estava lá. Deixava que ela acreditasse que eu não percebia o seu cuidado… Eu sabia que poderia viajar pelo universo, mas jamais fugiria dos cuidados carinhosos de minha progenitora…
Por vezes, sinto falta daquele muro. O mundo se torna mais cruel à medida que amadurecemos e abandonamos os hábitos da infância e adolescência. Às vezes, se faz necessário voltar no tempo e se fazer ingênuo novamente, contemplar o universo, viajar nas esperanças, temores e utopias…
Meu endereço já não é mais o mesmo, o mundo não é o mesmo, eu não sou o mesmo… Mas o pequeno muro de minha infância permanece vivo em meu coração, me fazendo olhar para o infinito e contemplar o universo, agora com uma estrela especial: minha mãezinha que, certamente, de vez em quando sai, pé ante pé na varanda do céu para me cuidar e se certificar que estou bem, deitado no muro e sonhando, como sempre fiz…

Márcio Roberto Goes

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O errado é sempre o outro

errado

 

Muitas pessoas me questionam por que, de repente, parei de escrever sobre política… Portanto, resolvi responder da maneira que gosto: Escrevendo…

Primeiro que, não foi de repente. Há muito tempo venho percebendo que, minhas palavras não fazem diferença no contexto político e politiqueiro atual do Brasil. E segundo que, somos rodeados pela política, é ela quem rege nossas vidas de cidadãos de bem (Ou não…). Se faz necessário abandonar a ideia de que a política e, por sua vez a politicagem só acontecem em Brasília, ou nos palácios por este Brasil afora…

Em 2014, fui candidato a deputado estadual (Deus que me perdoe!). Aceitei este desafio por acreditar que poderia realizar nas ruas, junto ao povo, uma troca de ideias, apresentar sugestões para melhorar a vida das pessoas ao meu redor através de projetos de leis e tals… Estive em todos os bairros de minha cidade natal, a querida Caçador e cidades vizinhas. Bati de porta em porta, acompanhado de alguns colaboradores que, voluntariamente apoiaram o projeto…

Fui muito bem recebido na maioria das residências, porém muitas portas se fecharam na minha cara, alguns mostravam cartazes de outros candidatos de forma provocativa… Mas os piores foram aqueles que, após me ouvirem falar, faziam perguntas do tipo: Quanto eu ganho votando em você?… Minha resposta era: Quatro anos de um mandato popular… Mesmo assim, deixavam claro que queriam dinheiro imediato, ou favores particulares, derrubando todo o meu discurso e dizendo que fulano os ajudaria se votassem nele…

Por diversas vezes, tentei argumentar, dizendo que compra de voto é crime e que, desta forma não poderíamos reclamar da corrupção, etc… Tenho certeza que, muitos colegas candidatos faziam o mesmo, tentando dar sua contribuição para a moralização da política… Sei que seria muito difícil eu ser eleito, mas minha decepção começou vendo que, um grande número dos vencedores nas urnas, compraram a vitória com combustível, cestas básicas, favores e agradinhos em troca de votos…

Tudo isso me leva a crer que, muitas pessoas querem ser corrompidas e buscam isso nos corruptos… Muitos cidadãos que protestam e gritam contra isso, contra aquilo, praticam a corrupção passiva e seu sonho é receber algum benefício dos engravatados…

Continuo tendo minhas ideias, convicções e ideologias… Porém me decepciono, a cada dia com aqueles que foram eleitos para nos representar e, no entanto não representam nem a ideologia que seu partido defende e o ajudou a ser eleito, seja de direita, centro, ou esquerda… Quase todos estão cegos, surdos e mudos para o povo, mas têm os sentidos bem aguçados para defender os próprios interesses, em detrimento das necessidades urgentes da população…

Há muito tempo vejo, muitas pessoas idolatrando nomes, criando líderes deste, ou daquele partido, numa eterna disputa de poder que jamais favorece aos que brigam por eles… Pelo contrário: Até hoje, nunca vi um político, em nível nacional, que lutasse verdadeiramente em favor do povo…

Senhoras e senhores, não escrevo mais sobre política para não ser mais um no meio desta intolerância declarada e descarada que vivemos… Pois os fanáticos querem ser ouvidos, mas não suportam ouvir as ideias, nem conhecer a ideologia do outro… Ou seja, aquilo que eu defendo é perfeito e os defeitos são privilégio dos partidos, ideias e nomes contrários…

Na vida e na política, estamos cada vez mais cegos, pois o errado é sempre o outro…

Márcio Roberto Goes

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A vida é massa!

a vida e massa

 

Quando se tem o propósito de aprender um pouco de tudo e fazer o que for possível por conta própria, sempre estaremos passíveis de erros, porém o aprendizado justifica o esforço e se torna um troféu em nossas vidas…

Avental e touca. Duas xícaras de farinha de trigo, duas colheres de açúcar, meia colher de sal, uma colher de banha, margarina, ou manteiga, água e fermento biológico: tudo multiplicado por três, já que desejo fazer três pães. Mistura tudo com a mão até formar uma massa homogênea, deixa descansar numa bacia coberta por um pano de prato limpo envolta em uma sacola plástica… Meus cães na janela, acompanhando, com o rabo do olho, todo o processo com aquela cara de quem diz: “Não importa o que esteja preparando, nós queremos comer…”

Roupa de sujar: calça jeans velha, sapatão, um jaleco surrado, Um pouco de argamassa num balde velho, água. Mistura tudo com a colher de pedreiro até formar uma massa homogênea e deixa descansar por vinte minutos, segundo instruções do fabricante… Aliás, não sei qual a razão das massas cansarem tanto se quem faz todo o esforço sou eu… Meus amigos peludos ao redor acompanhando tudo e este pedreiro amador que vos escreve, parando o trabalho de vez em quando para dar a eles o carinho que todo amigo merece…

De volta à cozinha, avental, touca, mãos limpas. Divido a massa em três, cilindro ligado e a massa passando quantas vezes forem necessárias para que fique lisinha, duas formas untadas que recebem um rolinho cada uma. Por um instante paro para ver o milagre da mistura que já começa a tomar forma e levo os dois pães ao pequeno forno, pois é tudo o que cabe lá… Mas e o terceiro pão?… Ah! Esse vai se dividir em vários bolinhos fritos imediatamente após sair do cilindro…

Uma pausa para o café com bolinhos frescos, enquanto uma massa cresce nas formas e a outra descansa no balde, ouço latidos famintos, vejo pela janela, duas caldas abanando e me dizendo: “Ói nóis aqui com fome!”… Claro que reparto minha guloseima com o Simba e a Nala, afinal, amigo é pra essas coisas…

De barriga cheia e a roupa de sujar, novamente neste corpinho, volto para a argamassa que já deve estar descansada o suficiente para voltar ao trabalho, acompanhado de meus amigos de quatro patas. Parede e peça de cerâmica umedecidas, colher de pedreiro na massa que se desloca, aos poucos para a cerâmica, desempenadeira para espalhar e, enfim a peça é grudada na parede com umas leves batidas da marreta de borracha… Conferido nível e prumo, repete-se a sequência em cada uma das peças que, uma a uma vão dando cor e vida ao novo banheiro… Por um instante, meu coração se rejubila ao ver o resultado muito mais vagaroso que de um profissional, porém satisfatório…

Quase uma dezena de degraus acima, na velha casa de madeira que, em breve será desmanchada, é hora de ligar o forno, mas antes, outra parada para observar o quanto a massa cresceu durante o assentamento das cerâmicas…

E assim termina a tarde de sábado: dois pães fresquinhos e uma parede pronta… Tudo isso, graças ao milagre das misturas químicas que transformam a realidade ao nosso redor…

Um marceneiro, pedreiro, carpinteiro amador, sempre se alegra festivamente a cada centímetro construído com suas próprias mãos… Da mesma forma que um padeiro, destes que aprendeu a receita do pão caseiro com sua finada mãe, mesmo sem nunca perguntá-la, se alegra com cada milímetro de crescimento da massa…

Ser mestre de obras de si mesmo, ou ser um cozinheiro para consumo próprio é algo que me faz pensar e concluir que, apesar de tudo, a vida é massa!

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

www.radioativacacador.com.br

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