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Categoria: Caçador

A fantástica fábrica de gênios

Fui desafiado por uma turma de segundo ano de ensino médio a fazer, em sala de aula, a mesma atividade que propus a eles: uma crônica. Desafio aceito e lá vai minha produção de texto para a avaliação da turma… Tenho que caprichar… Os avaliadores são muito exigentes…

Quando digo que o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas é a sala de aula, pode acreditar que é de coração e resultado de uma vivência de quase dezoito anos com essas pessoinhas maravilhosas chamadas alunos…

Durante esse tempo, já tenho visto e vivenciado de tudo: muros caindo, alunos evoluindo e caindo também, formaturas, escola velha com cara de nova, escola nova com cara de velha, educação de vitrine, educação real, aluno de vitrine, auno real… Amizades se fazendo e desfazendo, profissionais, nascendo e crescendo, conhecimento crescendo e evoluindo… Pessoas mudando…

Me afastei por um tempo para assumir um cargo administrativo. Uma ótima experiência que, aliás, penso que deveria ser vivida por todos os professores antes de criticar qualquer atitude da direção… Mas voltei a esta fantástica fábrica de gênios, afinal nada se compara ao cotidiano da sala de aula… Observar os gênios em ação na pessoa dos alunos é, de fato, uma experiência, no mínimo, fantasticamente fantástica (Perdoem-me o pleonasmo proposital)…

Certo dia, fui filmado, tentando mostrar a performance de um mestre-sala de escola de samba que se desdobra em oito pernas com passos rápidos e frenéticos, enquanto a porta-bandeira desliza suavemente pela avenida. No mínimo, me parece um tanto desigual… Minha coreografia ficou horrível, mas dizem que o vídeo bombou… Kkkkkkk… Pena que ninguém compartilhou comigo… Mimimimi… No princípio, quando soube da notícia, fiquei um tanto zangado, mas depois encarei o fato como uma prova de que o professor é um ser humano e, às vezes, também pode extrapolar, quebrando a rotina no intervalo…

Para retribuir a homenagem, resolvi também começar a prestar mais atenção nos queridos alunos à minha volta. Um, em especial, me remete aos meus tempos de escola. Me identifiquei com o senso de humor da criatura. Às vezes, quando não estamos diante de uma explicação que exija maior atenção, somos surpreendidos por algum refrão de alguma canção do passado (ou não), na voz deste nosso gênio acompanhado pelos colegas mais próximos… Às vezes, até me incomoda, mas quando percebo que a turma, apesar disso, consegue render no caminho do conhecimento, até acho graça… Penso que nossos alunos estão no caminho dos gênios. Basta identificarmos, procurarmos potencializar e intensificar os fatos e ideias positivas no ambiente…

Nosso protagonista, o Lucas, tem provado a cada dia, estar traçando este caminho. Em cada palavra com tom humorístico, sarcástico e , às vezes irônico, se esconde uma experiência de vida. Em cada análise crítica, revela-se um jovem formador de opinião que tem consciência da própria imperfeição, mas busca a atenção dos demais, mostrando a coragem de ser diferente…

E o mais incrível é que o restante da turma segue este padrão de busca da genialidade. Pessoas que enxergam na vida cotidiana, detalhes e fatos que sempre merecem ser retratados de forma subjetiva…

Na real, estou rodeado de gênios cronistas em potencial. Como não percebi esse negócio do troço do treco da bagaça antes?

Márcio Roberto Goes

 

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Em defesa de Tomé

E jesus apareceu, ressurreto aos apóstolos que estavam trancafiados todos no mesmo lugar, cheios de medo e insegurança… Mas Tomé não estava lá… Onde estava?… Sei lá… Poderia estar em qualquer lugar, menos ali escondido… Certamente, Tomé foi o único que não se amedrontou diante do golpe que culminou na execução de seu mestre… Os outros, ao contrário, se fecharam a queixarem-se: – Jesus morreu… Mataram nosso mestre… Está tudo acabado… E agora?… – Talvez, Tomé possa ter feito os mesmos questionamentos em sua mente e em seu coração, mas em vez de ficar se lamentando, preferiu sair da zona de conforto e continuar a luta por justiça iniciada por Jesus… Naquele momento é que se poderia saber se os ensinamentos do messias tiveram alguma valia para seus apóstolos… “Só se sabe quando o discípulo realmente aprendeu, na ausência do seu mestre”…

Mesmo assim, jesus saúda seus amigos medrosos com a paz e dá a eles autoridade sobre seus liderados… E Tomé?… Certamente recebeu esta autoridade depois, com maior merecimento… Não é possível que o Cristo, filho de Deus, tenha esperado justamente o momento em que um apóstolo estava ausente para aparecer aos outros… Acredito que esse, condenado por tantos como incrédulo não tenha ficado por muito tempo com aqueles “cheios de fé”. É fácil ter fé trancado num quarto sem conhecer a realidade ao seu redor… É mais cômodo, não exige compromisso, não exige ação… É só acreditar nas sombras da parede refletidas pela entrada da caverna (Platão)…

Ao saber do acontecido, Tomé diz claramente que só acreditaria se encostasse nas feridas de Jesus… O que muitos chamam de falta de fé, pode-se entender também como prudência, pois frequentemente acontece de se esperar um milagre sem fazer o mínimo de esforço para alcançá-lo… Mas Deus é bom e o filho dele também. Por isso apareceu primeiro para os medrosos de plantão e mesmo assim não tomaram coragem de sair dali para continuar sua a obra…

Uma semana depois, Jesus aparece novamente aos apóstolos… O detalhe é que eles continuavam lá, fechados, com medo, mas desta vez, Tomé estava presente, no mesmo instante caiu de joelhos, dizendo: – Meu Senhor e meu Deus!… Ao passo que Jesus respondeu: Você acreditou porque viu. Feliz quem acredita sem ver… Não se tratava de uma comparação com os outros discípulos, pois todos também acreditaram ao vê-lo na semana anterior e, mesmo assim, permaneceram confortavelmente trancafiados em sua fé… Desta forma, não faz sentido chamarmos o pobre Tomé de incrédulo, pois os outros também creram nas mesmas condições que ele. A única diferença é que ele viu depois…

Sejamos, pois, sensatos na nossa fé, assim como Tomé. Pois não é possível ter fé sem contestação, sem serviço, sem partilha, sem luta pelos desfavorecidos… Deus se alegra com os louvores, mas se alegra muito mais com a capacidade de seu povo transformar a realidade através da partilha…

Márcio Roberto Goes

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Porco com batatas

Sempre gostei de animais. Quando tinha cerca de doze anos, tínhamos um porquinho e, por se tratar de um bairro próximo ao centro, era necessário limpar muito bem o chiqueiro todos os dias para não haver nenhum mal cheiro que atrapalhasse a qualidade de vida dos vizinhos. No verão, a sequência da higienização era ainda maior. Eu era encarregado da limpeza da residência oficial daquele suíno que se tornou um de meus melhores amigos de infância, ocupando o lugar ocupado pela dinastia de cães chamados Bilu e o periquito que vivia no meu ombro quando eu tinha remotos cinco aninhos…

Meu porquinho gostava tanto de mim que, ao me ver, chegava a abanar o rabinho em alta velocidade. Todos os dias, eu calçava a bota de borracha, puxava a mangueira do poço até sua casa e ligava o motor para transladar a água até aquele local. Lavava todo o ambiente, depois dava banho no meu amigo que gostava a ponto de deitar-se para receber carinho na barriga, depois enchia o coxo da mais deliciosa lavagem que, para ele era um manjar dos deuses… Era muito bom cuidar de outra vida animal e poder, mesmo involuntariamente, identificar o humano dentro dele… Um quadrúpede, originalmente fedorento e com hábitos não muito higiênicos, me ensinava a cada dia aquilo que a humanidade toda precisava e ainda precisa aprender: o amor ao próximo…

Nossa relação suína era altamente humana e ganhava de muitas pseudo-amizades que vemos por aí entre seres humanos racionais com o encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores… Por várias vezes tentei abraçar meu porquinho, perdi o equilíbrio e fui parar no chão, na mesma altura e situação dele… Apesar de tudo, não parecia tão mal assim viver num chiqueiro…

Acima do chiqueiro, que ficava ao pé de um pequeno morro, havia uma plantação de batatas-doces, cuidadosamente preparada por minha mãezinha querida… Ocorre que um dia caiu um toró e o morro quase veio abaixo em forma de enxurrada. Era água que não acabava mais, nunca tinha visto tanta chuva em tão pouco tempo. As batatas-doces desceram o morro junto com a terra vermelha e invadiram a casa do meu amiguinho… Da janela, eu olhava preocupado, sem saber o que fazer. Minha mãe não me deixava sair naquela chuva para socorrê-lo, temendo que eu fosse levado também pela enxurrada… Então eu ficava olhando a chuva cair e amedrontado pela possibilidade de perder meu amigo no meio da tempestade…

Mas depois da chuva vem a bonança e, quando tudo acabou, voltei ao chiqueiro para ver se conseguia encontrar algum vestígio do meu porquinho e grandiosa foi minha surpresa quando o vi atolado até a barriga, imóvel e, sem nenhuma preocupação com o resto do mundo, comendo batata-doce trazida durante a chuva…

Mais uma vez, aprendi com ele… Aprendi que nem toda tempestade traz desgraças… Aprendi que podemos tirar proveito das situações, aparentemente, negativas… Aprendi que, se olharmos com atenção ao redor, sempre encontraremos as batatas-doces no meio da enxurrada. Mesmo que estejamos imóveis e atolados até a barriga, sempre existe uma possibilidade de sobrevivência… Aprendi a ver desafios em cada situação complicada… E, acima de tudo, aprendi que se nos jogarem lama de cima para baixo, é possível encontrar, no meio da amargura humana, uma batata-doce que alimente nossa esperança e nos dê forças para reagir e tirar o pé da lama…

Só não consegui entender a razão pela qual minha família me tirou de casa um dia cedo e, quando voltei, meu melhor amigo já estava sem vida na geladeira, parte dele na panela e algumas migalhas de amizade transformadas em salame…

Márcio Roberto Goes

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Plano de aula da depressão

Atividade: Produzir uma dissertação argumentativa objetiva.

Tema: Atual conjuntura política no Brasil.

Peraí… Não posso pedir isso aos alunos de ensino médio. Vão dizer que sou esquerdopata, petralha, que sou contra privatização, que acho que foi golpe, que defendo bandido, que isso que aquilo…

Mudança de plano… Novo tema: A influência dos movimentos LGBT na construção da democracia…

Não… Não dá… Dirão que sou homofóbico, que não respeito as diferenças, ou dirão que sou gay enrustido… Não sou… Mas se eu fosse, qual o problema?… Diriam que eu seria uma má influência, que estaria contribuindo para a destruição das famílias dos alunos… Que isso, que aquilo…

Bem… Vamos lá… Mudança de plano novamente: Análise sobre o posicionamento da Igreja diante da intervenção militar… Meu Deus!… Seria o caos na educação: Diriam que eu estou tentando converter os alunos para a minha religião, que sou, contra, ou a favor da intervenção militar, que defendo bandido, que adoro imagens, que sou papa-hóstias, que apoio o comércio das igrejas evangélicas e católica, que discrimino outras religiões, que Oxum, Maomé e Buda vão me castigar… que isso… que aquilo…

Pois bem… Preciso trabalhar argumentação com meus alunos… Vou usar o clipe do Gabriel o Pensador, com a música: “Quem é você”. Servirá de motivação para eles formarem uma opinião e, então argumentarem sobre… Nãããããoooo… Não dá… Vão dizer que sou contra o sistema, que falo mal do governo, que quero doutrinar os alunos… Que isso, que aquilo…

E agora… Preciso ajudá-los a argumentar, afinal vão precisar disso na vida acadêmica, no vestibular, nos concursos e processos seletivos. Além de ajudá-los a raciocinar e não publicarem porcarias no facebook… Mas que tema propor? Tudo leva a uma reflexão… Tudo leva a pensar… E aqueles que estão na cadeira de quem pensa que manda, não querem que o povo pense… Mesmo assim preciso ajudá-los a raciocinar…

Um bom tema, seria sobre o assassinato da vereadora no Rio de Janeiro… Pera lá… Vão dizer, novamente que sou petralha, esquerdopata, comunista, ou pior, que sou contra a polícia, a favor de bandidos, que isso, que aquilo… Dirão tudo isso, repetindo como papagaios aquilo que alguém divulgou, sem averiguar os fatos…

E agora… O que fazer?… Acho que vou deixar tema livre… Não dá… Diriam que não sei dar aulas, que não estou preparado, que sou matão, vadio, preguiçoso, grevista, arruaceiro… Além do mais, eles ainda não estão preparados para argumentar sozinhos… Precisam de ajuda… O professor poderia ajudá-los, mas não pode, pois qualquer tema que proponha, será julgado como parcial, petralha, ou coxinha, comunista, ou golpista…

Bem… Para não deixar um planejamento em branco, pode-se propor o seguinte: “A influência da propagação acústica amplificada do vaso sanitário na convivência humana”… Gostei desse tema. Totalmente imparcial. Vão me chamar de retardado, mas ainda é melhor do que todos os outros possíveis xingamentos daqueles que acham que entendem de educação e se acham no direito de dizer o que se deve trabalhar em sala de aula…

É… Parece que estamos vivendo uma ditadura, não a civil, militar, comunista, ou capitalista… E sim, a pior de todas: A ditadura da falta de conhecimento… A ditadura da insanidade programada… Querem calar nossa voz… Agindo assim, calam também a voz das novas gerações, tornando mais fácil a dominação pelo poder…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

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Conhecer pessoas fantásticas

Um dia, um menino tímido e meio esquivo adentrou a uma sala de aula sob os olhos atentos, amorosos e cuidadosos de sua mãe. A progenitora o alfabetizara em casa, pois não teve jeito de ele ficar na sala do pré, portanto ela optou por dar-lhe as primeiras lições e, então o menino iniciou seus estudos no ano que completaria 8 anos, direto na primeira série da Escola Básica Salgado Filho, na década de 80… Desde então, o menino não arredou o pé da escola, exceto por duas vezes que desistiu de estudar, causando uma defasagem de seis anos em seu conhecimento…

Mesmo assim, conseguiu um diploma de licenciatura e, depois de especialista… Letras é sua formação acadêmica, o primeiro de cinco filhos a se formar, apesar de ser o mais novo… Há dezoito anos dedica sua vida à educação pública, o que lhe rendeu muitas vivências positivas e, outras experiências que quase o fizeram desistir da educação…

Já recebeu prêmio de professor nota dez, já foi duramente criticado e acusado de coisas que nem mesmo ele tinha conhecimento que acontecera… Viveu, caiu, levantou, venceu… Viu seus alunos viverem, caírem, levantarem, vencerem e, com eles, viveu cada conquista, cada esperança, cada medo, cada derrota, cada vitória… Tentou fazer o melhor com amor… Assumiu cargo de gestão, foi secretário, tentou até a carreira política, mas volta e meia, seu mundo se revelava a sala de aula, lugar de onde nunca deveria ter saído…

E eis que, o menino, agora crescido, com platinado na barba e alguns fios de cabelo branco que se multiplicam feito pulgas na poeira, retorna ao melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas: A sala de Aula… Esteve afastado por um tempo, mas está de volta… Mais vivido, mais experiente, menos tímido, porém se mantém esquivo… O medo agora é outro: O de ser o mesmo num mundo em constante evolução. Está rodeado de pessoas fantásticas. Tem medo de não ser fantástico para elas…

Mas, como dizem, faz seu trabalho com medo mesmo, de cabeça erguida, coração imensamente aberto e apaixonado pela educação… Mas não qualquer educação, a pública, cheia de desafios, esperanças, temores e pessoas fantásticas…

Por um momento, o menino para, olha para o céu, agradece a Deus pelo dom de ser professor e entra na sala de aula, num novo ano letivo, cheio de vontade de conhecer e conviver com novas pessoas fantásticas: Seus ecléticos alunos…

Márcio Roberto Goes

Professor, por amor

 

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