Press "Enter" to skip to content

CASACO MARROM


01/08/2007

CAÇADOR ONLINE
04/08/2007
JORNAL INFORME
Uma senhora maltrapilha, tremendo de frio, chega em frente a uma casa onde encontra uma moça trajando agasalho de moleton e chinelos, lavando o carro e pergunta:
– “Moça, a senhora não tem uma blusa sobrando para me dar?”
– “Bom-dia! Vou dar uma olhada lá dentro”
Poucos minutos depois, a moça volta com um casaco marrom quase novo, em ótimo estado e bem “quentinho” e entrega para aquela senhora, que retruca:
– “Não tem outro?… Esse é muito chique!…”
– “Pode pegar, eu não uso este casaco e a senhora está precisando…”
– “Pode ser uma blusa velha como esta que a senhora está vestindo!…”
– “Pode levar, esta que visto é a única mais velha que tenho e está suja…”
Talvez, por vergonha de contrariar aquela moça de classe média, a senhora levou o casaco, meio a contra-gosto. O dia então correu normal. A senhorita, que a mendiga educadamente chamou de senhora, já nem lembrava mais daquele fato.
Dia seguinte, sua mãe foi até a padaria e encontrou a mesma senhora que também lhe pediu ajuda:
– “Tem uns trocadinhos para dar?… Estou com fome…”
– “Vamos até minha casa que eu arrumo alguma coisa. É aqui perto.”
As duas seguiram o caminho curto, porém grande o suficiente para ambas pensarem em suas vidas e porque teriam se encontrado diante daquela situação e naquele momento único, como qualquer outro de nossas vidas.
Ao chegar em frente à casa, a mendiga exclama admirada e meio envergonhada:
– “Conheço esta casa. Já estive aqui!… Não é sua filha a moça que me deu um casaco marrom?”
– “Acho que sim! Porque não está usando?”
– “Desculpe, a senhora sabe que sou muito pobre. As pessoas me conhecem como maltrapilha e já me ‘tacharam’ de pedinte. Tenho vergonha de sair com um casaco chique daqueles na rua…”
– “Porque?… Acha que não é digna de uma roupa daquelas?…”
– “Não é bem isso!… O problema é que ninguém vai acreditar que eu ganhei aquela peça e vão pensar que é roubada… Mas ele está bem guardado…”
Que lástima! Uma pessoa necessitada cruza o caminho de outra pessoa solidária que procura fazer a sua parte para ajudá-la, porém a vergonha do que os outros vão dizer é maior que a necessidade e o frio. Pobre senhora maltrapilha, esquecida e abandonada pelo capitalismo que jamais pensa na fome dos pequenos, pois está muito ocupado com os hiper-famintos poderosos, que esquecem que seu poder lhes foi dado pelo povo, composto inclusive por pessoas nas mesmas condições que esta pedinte que não pode sair na rua com uma roupa em bom estado correndo o risco de ser perseguida pelo medo do julgamento desumano deste sistema excludente e marginalizador que não permite os pequenos crescerem em nome do “agigantamento” dos grandes.
Se existem pedintes, é porque ninguém ainda atendeu seu pedido maior: a dignidade, que todos os dias lhe é furtada por aqueles que desconhecem a fome e o frio do desprezo capitalista…
Se existem os abandonados, é porque existem os abandonadores…
Márcio Roberto Goes

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *