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Cadeira do dragão

Fonte: baciadasalmas.com
baciadasalmas.com

 

 

 

Já fui diretor sem saber, já fui líder de greve sem ser, já fui até jornalista sem ter escrito uma única notícia… Agora sou subversivo interrogado na cadeira do dragão:
– Por acaso você quer o meu lugar? Eu deixo ele pra você…
– Não! Nem todo mundo faz as coisas unicamente querendo levar vantagens particulares. Luto pelas causas populares e esta é uma delas. A minha luta é a mesma da equipe…
– Sei que você estava no grupo que chamou o secretário…
– Não. Você está equivocada, mas acho que foi uma sábia atitude, apesar da reunião ter sido feita na sua ausência…
– Eu fui acusada pelos colegas teus que são traíras e oportunistas!
– Traíra e oportunista seria eu, se concordasse com aquilo que você está dizendo…
Eu estou conversando com todos os envolvidos e até agora sei que só tem três pessoas, realmente contra mim.
– Pode ter certeza que é muito mais. Nem todos têm coragem de assumir uma posição.
– Se fosse verdade, eles me falavam.
– As pessoas têm medo de você. No teu lugar, eu repensava minhas atitudes…
– Eu tenho que cumprir aquilo que determina minha função: manter a ordem.
– Manter a ordem, não significa tortura psicológica, nem repressão pois, a meu ver, as decisões que envolvem a equipe, devem partir da equipe e não virem de cima pra baixo…
– Eu não entendi algumas coisas que você disse e que estão relatadas na ata.
– Tudo o que aí está escrito, eu já disse pessoalmente a você, e não me intimido se precisar falar novamente em nome do grupo. Não disse nada que não tivesse coragem de dizer aqui e agora..
– Mas você não cumpre seu papel, anda abraçando as alunas no corredor ao invés de subir logo para a sala.
– O abraço que dedico a elas é o mesmo dedicado a qualquer outro aluno. Outro dia, um memino me deu um abraço que quase me quebrou as costelas e ninguém se posicionou contra. Quer dizer que o problema é só com as meninas?
– Você tem que entender que aluno é aluno…
– Sim, mas antes de ser aluno, ele é um ser humano e deve ser tratado como tal… Trabalho com gente, não com cabeças de repolho. Os alunos têm sentimentos, reações e, principalmente, sabedoria. Em muitos aspectos, eles são muito mais sábios que eu e você.
– De qualquer forma, sinto que você é sincero. E isso é bom.
– Claro, mas nem todos são sinceros quando devem. E não são estas suas palavras bonitas que vão me fazer mudar de ideia, ou de ideologia.

Agora, sou narrador: Pois bem… Na repressão, depois da cadeira do dragão, o que resta a um comunista subversivo?… O Pau-de-arara, a prisão,  o exílio e, quem sabe, a morte… Mas, infelizmente, esta não é uma decisão que compete à vítima…

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Folha da Cidade

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