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Buraco aberto

 
Estou feliz em estar beirando os quarenta ainda com os dentes originais… Tenho todos… Quase todos… Dois não nasceram depois que caíram os seus respectivos dentes de leite há três décadas e meia atrás… Não sei o que houve, mas nunca me fizeram falta, os outros trinta dentes têm realizado um bom trabalho. Alguns já foram restaurados, outros mortos com tratamento de canal, mas continuam todos ali, desempenhando com eficiência seu papel…

Ocorre que uma destas restaurações não resistiu ao tempo e caiu, cedeu, sucumbiu… O buraco ficou aberto… Terrível situação, pois cada alimento que entra na boca parece ter uma curiosidade incontrolável de se jogar naquela cratera deixada pela obturação que até agora não encontrei, Deve ter percorrido o mesmo caminho dos alimentos e nem tive a curiosidade de procurar… Cada refeição é uma batalha pra manter o buraco intocável, já que é extremamente difícil retirar o alimento suicida de lá, depois que se joga…

Procurei um dentista particular, mas minha situação sócio-econômico-financeira não permitiu que eu desembolsasse a quantia estipulada por este e outros serviços que ele disse serem necessários para uma melhor saúde bucal, além de pedir uma radiografia panorâmica dos meus maxilares… O buraco continuou aberto… E eu reaprendendo a mastigar para não afetar o pobrezinho…

Fui até o posto de saúde requerer a devolução de um pouco dos impostos que paguei a vida toda em forma de obturação… “Volte no último dia do mês para marcar”… Me disse a atendente… Foi o que fiz: Vinte e oito de fevereiro, às oito horas da manhã, lá estava este que vos escreve numa fila quilométrica esperando para marcar o dia em que, finalmente, teria a solução para o buraco aberto… E a consulta foi marcada para vinte dias depois…

No dia e hora marcados, ainda com o buraco aberto, lá estava eu na fila novamente, esperando para ser chamado… Atendidas as emergências primeiramente, chegou então minha vez… A dentista olhava atentamente minha boca escancarada e dizia para sua assistente alguns números e palavras estranhas que ela, obedientemente, anotava… E se dirigindo a este que vos digita estas palavras: “Hoje vamos fazer uma limpeza com flúor. Mandamos um encaminhamento pra você fazer radiografia de dois dentes e você volta em um mês”… Falei da falta que sentia dos meus dois dentes que nunca nasceram e dos sisos que eu pensava também não terem nascido… “Como não? – Me interrompia a moça da máscara branca – Este dente que caiu a obturação é um siso e vamos ter que extrair…” Não gostei da ideia. Meu dente que agora descobri se chamar siso, nunca me causou problemas, só está com um buraco aberto que pode ser tapado, perfeitamente, por uma obturação. Ele não tem culpa de ser deficiente… Então, se uma pessoa tem um pedaço faltando, temos que extraí-la da sociedade? Não é bem assim… Gosto do meu siso e não quero perdê-lo… Mimimi…

Lá fui eu para casa, novamente com o buraco aberto, mas agora eu tinha uma requisição para fazer uma foto do dente emburacado e outra do seu colega de baixo… À hora e dia marcados, esperava eu no CEO (Centro de especialidades odontológicas) para fazer as radiografias… Foi rápido. Em dez minutos tinha nas mãos as fotos três por quatro dos meus dois dentes queridos… Achei tão lindo. Como uma pessoa pode querer arrancar um dente tão lindo só porque tem um buraco aberto?…

Um mês depois, fila de novo para ser atendido, até que sai alguém na porta do consultório para dar o aviso: “Os dentistas estão em curso. Vamos remarcar as consultas?”… “E as emergências?” – Indagava alguém – “Neste caso, devem procurar outro posto”… Minha consulta então foi remarcada. Tenho que esperar mais um mês… Um mês tentando mastigar só do outro lado… Um mês tapando o buraco com todo tipo de alimento e destapando penosa e demoradamente… Porém, me sinto feliz, pois com ou sem buraco, tenho mais um mês para curtir a companhia do meu siso querido condenado à eutanásia só por causa de um buraco deixado por uma obturação que caiu…

Meu querido e amado siso, sei que temos pouco tempo ainda juntos, portanto, vamos aproveitar ao máximo o resto de sua curta vida… Cuidarei de você esses trinta dias com se cuidasse da própria vida. Não deixarei nenhum fiapo de carne, grão de arroz ou de feijão ameaçarem teu sossego para que tenha uma morte o mais confortável possível… Afinal você merece, ajudou-me a mastigar durante muito tempo. Cumpriu com perfeição o seu papel e agora está condenado à morte… Vamos viver estes últimos momentos em paz conosco e com os alimentos…
Márcio Roberto Goes

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