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Autor: Márcio Goes

Professor de Língua Portuguesa, Língua Espanhola e suas respectivas Literaturas. Membro da Academia Caçadorense de Letras e Artes, Coordenador geral da web Rádio Martelo.

Manobras

Transitava eu pela cidade com minha viatura oficial, tranquilamente… É verdade que não sou um exímio manobrista, mas me viro bem no trânsito de Caçador.

Pois bem. Precisei estacionar, mas a vaga cabia minha joaninha e mais dois dedos de folga… Vamos lá: pensei comigo… É hora de mostrar o que aprendi na autoescola… De vagar, alinha o carro ao lado com o banco traseiro, retrovisor direito refletindo o carro de trás, marcha a ré… Não deu… Nova tentativa… Gangorra nos pedais, gangorra na manobra, Ford Ka dançando no acostamento…

Neste momento de angústia na vida deste que vos escreve, aparece um anjo… Uma moça, jovem, bonita, aparentando seus vinte anos… Se aproxima, a pé, aponta o controle para o carro de trás, desliga o alarme, entra no veículo e dá uma ré, distanciando para que eu tivesse espaço o suficiente para manobrar…

Finalmente consegui estacionar minha viatura… A moça passou por mim, novamente, dei um toque na buzina para que me percebesse e agradeci… Ela, por sua vez, deu um sorriso como quem diz: Não há de quê!… Meu agradecimento foi de cortação, sem maldade.. Em nenhum momento me senti diminuído, ou menos homem por isso. Pelo contrário, agradeci a Deus pela generosidade daquele ser humano…

Do outro lado da rua, um carrão, modelo 2019, possivelmente automático, cheio daqueles opcionais próprios dos ricos, ou dos pobres que contraem dívidas altíssimas para parecerem ricos… O vidro abaixa aparecendo um “cabeça de amendoim”, do sexo masculino, daqueles que precisam provar constantemente sua macheza… Uma criatura que nunca havia visto… Olha para mim e grita de forma que, se a rua estivesse cheia de gente, todos ouviriam: Que vergonha! Perdendo para uma mulher!…

Amigo, cidadão desconhecido. No momento não pude lhe responder, pois fiquei admirado com tamanha ignorância, além do mais, você gritou e saiu cantando pneus… Mas, se estiver lendo isso saiba que aqui vai a resposta:

Não perdi para uma mulher, pois ela não era minha concorrente naquela ocasião, caso fosse, não me ajudaria… Quem perdeu, foi você… Perdeu a moral ao xingar um desconhecido, de graça, revelando o quanto é machista…

Infelizmente, a maioria dos homens, e até algumas mulheres, pensam da mesma forma que meu amigo cérebro de amendoim… Infelizmente, a maioria dos seres humanos precisa humilhar seu semelhante para se sentir melhor… Tenho certeza que, tanto a moça, quanto eu, saímos desta situação muito mais felizes do que nosso manobrista do outro lado da rua… Ela por fazer o que era possível para facilitar minha manobra e eu por ter o privilégio de poder, por alguns segundos, estar próximo de tamanha generosidade…

Ainda tem gente boa neste mundo. Quando à atitude do senhor motorista do outro lado da rua, não tenho outro diagnóstico que não seja: Machismo agudo…

Dois desconhecidos… Duas lições diferentes na mesma crônica…

Márcio Roberto Goes

wwww.radiomartelo.com

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Tudo o que eu precisava

Hoje, parei no semáforo, com minha viatura oficial da Web Rádio Martelo e, enquanto aguardava a liberação da pista, apreciava um artista de rua, dando seu melhor, mostrando suas habilidades na faixa de pedestres para nos distrair e amenizar um pouco do estresse diário… Mais do que depressa fucei na carteira e encontrei só 2 reais em moedas. Aguardei com o dinheiro na mão até que ele terminou o espetáculo e se aproximou. Entreguei as moedinhas e disse: Isso é tudo o que tenho… E ele, surpreendentemente respondeu: É tudo o que eu precisava… Talvez, nunca mais o veja nesta vida… Talvez, jamais nos lembraremos um do outro… Mas esse artista desconhecido, por vezes discriminado e chamado de desocupado, me deixou uma lição: Será que valorizamos tudo o que nos oferecem, da mesma forma que ele valorizou minhas míseras moedinhas? Às vezes exigimos das pessoas uma perfeição da qual, nem mesmo nós dispomos… E, raramente percebemos que podem ter nos oferecido tudo o que tinham de mais precioso: o tempo, um abraço, um sorriso, ou umas moedinhas…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

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Síndrome do Já Passei

Em todo ano letivo, sobretudo agora que não existem mais exames finais nas escolas estaduais de Santa Catarina, acontece um fenômeno que atinge uma parte considerável dos alunos, principalmente aqueles que se acostumaram a valorizar muito mais os números do que o conhecimento real. Trata-se da Síndrome do “Já Passei”.

Entre os principais grupos de risco estão os inteligentes, porém preguiçosos, os que tentam levar vantagem de todas as situações e os que procuram a evolução só por mérito…

Tem uma frase, não lembro o autor, que diz: “Os preguiçosos revolucionam o mundo”… De fato, somente alguém extremamente preguiçoso para inventar algo como o controle remoto que celebra a lei do menor esforço e maior conforto… Mas os preguiçosos que fazem parte de um dos grupos de risco da síndrome não buscam evolução, tampouco procuram melhorar a vida das pessoas ao seu redor. São preguiçosos que vencem a preguiça só até que se tenha alcançado níveis satisfatórios de evolução, revelados, nem sempre de forma justa, através da média bimestral.

Outro grupo de risco é composto por aqueles que tentam levar vantagem em tudo. Buscam sempre uma recompensa muito maior que seu verdadeiro esforço e sempre reclamam da nota quando a comparam com a do outro. Afinal, se sua nota é menor, se sente injustiçado e não reconhece o esforço de seu colega com nota, numericamente maior. Mas, quando sua nota é alta, não chama de injustiça o fato de seu colega, mesmo se esforçando, ter alcançado uma nota menor…

O terceiro dos principais grupos de risco é aquele que está em constante busca por méritos, gosta de ser enxergado e citado entre os melhores, seu único objetivo, como nos outros grupos de risco, é passar de ano. Não se importa com o futuro, quer ser aprovado, mesmo que seu conhecimento não esteja completo para aquele ciclo…

Em todos os casos, esta perigosa síndrome só ataca aqueles alunos, matematicamente aprovados antecipadamente, ou seja, aqueles que atingiram os 24 pontos no terceiro bimestre. Os principais sintomas são: falta de vontade de ir à escola, soberba, indisposição para ouvir explicações com atenção e entregar os trabalhos, e desejo irresistível de atrapalhar a aula, afinal já está aprovado e não importa que o restante da turma queira participar…

As vítimas da síndrome do “Já Passei” ignoram que o conhecimento é um processo contínuo e que vai precisar do conteúdo do quarto bimestre como pré-requisito para o ano letivo seguinte, além de não perceberem que a nota do último bimestre fará parte de seu histórico escolar na versão detalhada. Possivelmente, quando for procurar um emprego, terá seu documento submetido à análise e será questionado sobre as razões que o levaram a decair bruscamente na última nota. A justificativa será pelo fato de ter sido aprovado por antecipação… Certamente, o empregador, não vai contratar alguém que desiste do processo quando cumpre a primeira meta…

O tratamento é simples: Manter o nível de esforço, doses diárias de generosidade com aqueles que ainda não alcançaram a média, além de uma boa injeção de respeito pelos profissionais da escola e colegas, reconhecendo que todos fazem parte do seu crescimento pessoal e profissional.

Afinal, quem sobe as escadas da vida sozinho, quando se desequilibrar e cair, não encontrará ninguém para segurá-lo. Porém, quando se procura o crescimento coletivo, ninguém cai, pois um segura o outro nos eventuais tropeços da escalada…

A origem principal da síndrome do “Já Passei” é o egoísmo e a cura é a generosidade…

Márcio Roberto Goes

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A fantástica fábrica de gênios

Fui desafiado por uma turma de segundo ano de ensino médio a fazer, em sala de aula, a mesma atividade que propus a eles: uma crônica. Desafio aceito e lá vai minha produção de texto para a avaliação da turma… Tenho que caprichar… Os avaliadores são muito exigentes…

Quando digo que o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas é a sala de aula, pode acreditar que é de coração e resultado de uma vivência de quase dezoito anos com essas pessoinhas maravilhosas chamadas alunos…

Durante esse tempo, já tenho visto e vivenciado de tudo: muros caindo, alunos evoluindo e caindo também, formaturas, escola velha com cara de nova, escola nova com cara de velha, educação de vitrine, educação real, aluno de vitrine, auno real… Amizades se fazendo e desfazendo, profissionais, nascendo e crescendo, conhecimento crescendo e evoluindo… Pessoas mudando…

Me afastei por um tempo para assumir um cargo administrativo. Uma ótima experiência que, aliás, penso que deveria ser vivida por todos os professores antes de criticar qualquer atitude da direção… Mas voltei a esta fantástica fábrica de gênios, afinal nada se compara ao cotidiano da sala de aula… Observar os gênios em ação na pessoa dos alunos é, de fato, uma experiência, no mínimo, fantasticamente fantástica (Perdoem-me o pleonasmo proposital)…

Certo dia, fui filmado, tentando mostrar a performance de um mestre-sala de escola de samba que se desdobra em oito pernas com passos rápidos e frenéticos, enquanto a porta-bandeira desliza suavemente pela avenida. No mínimo, me parece um tanto desigual… Minha coreografia ficou horrível, mas dizem que o vídeo bombou… Kkkkkkk… Pena que ninguém compartilhou comigo… Mimimimi… No princípio, quando soube da notícia, fiquei um tanto zangado, mas depois encarei o fato como uma prova de que o professor é um ser humano e, às vezes, também pode extrapolar, quebrando a rotina no intervalo…

Para retribuir a homenagem, resolvi também começar a prestar mais atenção nos queridos alunos à minha volta. Um, em especial, me remete aos meus tempos de escola. Me identifiquei com o senso de humor da criatura. Às vezes, quando não estamos diante de uma explicação que exija maior atenção, somos surpreendidos por algum refrão de alguma canção do passado (ou não), na voz deste nosso gênio acompanhado pelos colegas mais próximos… Às vezes, até me incomoda, mas quando percebo que a turma, apesar disso, consegue render no caminho do conhecimento, até acho graça… Penso que nossos alunos estão no caminho dos gênios. Basta identificarmos, procurarmos potencializar e intensificar os fatos e ideias positivas no ambiente…

Nosso protagonista, o Lucas, tem provado a cada dia, estar traçando este caminho. Em cada palavra com tom humorístico, sarcástico e , às vezes irônico, se esconde uma experiência de vida. Em cada análise crítica, revela-se um jovem formador de opinião que tem consciência da própria imperfeição, mas busca a atenção dos demais, mostrando a coragem de ser diferente…

E o mais incrível é que o restante da turma segue este padrão de busca da genialidade. Pessoas que enxergam na vida cotidiana, detalhes e fatos que sempre merecem ser retratados de forma subjetiva…

Na real, estou rodeado de gênios cronistas em potencial. Como não percebi esse negócio do troço do treco da bagaça antes?

Márcio Roberto Goes

 

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Em defesa de Tomé

E jesus apareceu, ressurreto aos apóstolos que estavam trancafiados todos no mesmo lugar, cheios de medo e insegurança… Mas Tomé não estava lá… Onde estava?… Sei lá… Poderia estar em qualquer lugar, menos ali escondido… Certamente, Tomé foi o único que não se amedrontou diante do golpe que culminou na execução de seu mestre… Os outros, ao contrário, se fecharam a queixarem-se: – Jesus morreu… Mataram nosso mestre… Está tudo acabado… E agora?… – Talvez, Tomé possa ter feito os mesmos questionamentos em sua mente e em seu coração, mas em vez de ficar se lamentando, preferiu sair da zona de conforto e continuar a luta por justiça iniciada por Jesus… Naquele momento é que se poderia saber se os ensinamentos do messias tiveram alguma valia para seus apóstolos… “Só se sabe quando o discípulo realmente aprendeu, na ausência do seu mestre”…

Mesmo assim, jesus saúda seus amigos medrosos com a paz e dá a eles autoridade sobre seus liderados… E Tomé?… Certamente recebeu esta autoridade depois, com maior merecimento… Não é possível que o Cristo, filho de Deus, tenha esperado justamente o momento em que um apóstolo estava ausente para aparecer aos outros… Acredito que esse, condenado por tantos como incrédulo não tenha ficado por muito tempo com aqueles “cheios de fé”. É fácil ter fé trancado num quarto sem conhecer a realidade ao seu redor… É mais cômodo, não exige compromisso, não exige ação… É só acreditar nas sombras da parede refletidas pela entrada da caverna (Platão)…

Ao saber do acontecido, Tomé diz claramente que só acreditaria se encostasse nas feridas de Jesus… O que muitos chamam de falta de fé, pode-se entender também como prudência, pois frequentemente acontece de se esperar um milagre sem fazer o mínimo de esforço para alcançá-lo… Mas Deus é bom e o filho dele também. Por isso apareceu primeiro para os medrosos de plantão e mesmo assim não tomaram coragem de sair dali para continuar sua a obra…

Uma semana depois, Jesus aparece novamente aos apóstolos… O detalhe é que eles continuavam lá, fechados, com medo, mas desta vez, Tomé estava presente, no mesmo instante caiu de joelhos, dizendo: – Meu Senhor e meu Deus!… Ao passo que Jesus respondeu: Você acreditou porque viu. Feliz quem acredita sem ver… Não se tratava de uma comparação com os outros discípulos, pois todos também acreditaram ao vê-lo na semana anterior e, mesmo assim, permaneceram confortavelmente trancafiados em sua fé… Desta forma, não faz sentido chamarmos o pobre Tomé de incrédulo, pois os outros também creram nas mesmas condições que ele. A única diferença é que ele viu depois…

Sejamos, pois, sensatos na nossa fé, assim como Tomé. Pois não é possível ter fé sem contestação, sem serviço, sem partilha, sem luta pelos desfavorecidos… Deus se alegra com os louvores, mas se alegra muito mais com a capacidade de seu povo transformar a realidade através da partilha…

Márcio Roberto Goes

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