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Autor: admin

Sonhos azuis – Capítulo II

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João, meio cabisbaixo, caminha até o ponto, na esperança de que seja a última vez que volta ao lar de ônibus…

Ponto de lotação é um lugar propício a se conhecer pessoas, além de se presenciar as mais diferentes e hilárias situações: Uma senhora sentada na ponta do banco de madeira de lei, coberto com telhado de tabuinha, moribunda, comendo uma bolacha recheada e se mijando tudo, como se o mundo ao seu redor não importasse… E, na verdade, não importava mesmo, pois ninguém vê os moribundos, ninguém enxerga as pessoas necessitadas, dificilmente alguém pararia para conversar com aquela senhora de casaco marrom e uma calça de agasalho pertencente ao uniforme das escolas municipais, provavelmente doada por alguma instituição de caridade que arrecadou de alguém que, por sua vez, não gostou da cor, ou do modelo… Existem pessoas que acham que escola é lugar de desfile de moda, por isso rejeitam o uniforme, não se tocam que não estão lá para ficar bonitas aos olhos alheios, e sim para aprimorar seus conhecimentos. Então, o uniforme vai parar no cesto de doação, isso quando não vira pano de chão, ou tapete de banheiro…

Logo chega outra senhora, óculos de lentes espessas, guarda-chuvas daqueles de proteger umas oito pessoas mais ou menos que, na ocasião servia de guarda-sol, já que o tempo estava limpo, vestido florido, chinelo de dedo, carregava uma sacola de supermercado e uma bolsa roxa, de onde começou a catar as moedinhas para pagar a passagem. Cumprimentou João com um sinal de cabeça e voltou a procurar o trocado do ônibus…

Em seguida, aproxima-se uma moça, aparentando seus dezessete anos com uma criança no colo, olha enojada para a senhora idosa e invisível no banco e senta, meio contrariada, na outra extremidade. Com uma bermudinha que revela a vontade de fazer mais um filho… ou pelo menos treinar… uma blusinha branca que deixa a mostra a barriguinha, revelando o piercing no umbigo e um sutiã preto, propositadamente vestido para dar o contraste e ser visto por qualquer transeunte… Só tem olhos para o filho, um menino aparentando não mais que um ano de idade…

Um senhor de bengala se aproxima, já com a carteirinha de aposentado na mão, boina cinza, camisa xadrez, calça social e sapatos pretos bem cuidados, cabelos grisalhos exageradamente penteados de frente para trás… Passa pelo João com intenção de cumprimentá-lo, mas seu olhar não desvia do chão, às vezes olha a rua para ver se seu ônibus se aproxima, mas logo volta à inércia. Não nota a presença de nenhuma daquelas pessoas ao seu redor, não percebe alguns conhecidos do outro lado da rua que também tentam chamar sua atenção em vão…

Fato estranho, pois todos que o conhecem, o percebem um cara simples, conversador, não escolhe seu interlocutor, fala com todos como se fossem amigos de infância, sempre chega em qualquer lugar cumprimentando os presentes de mão em mão. Constantemente tem algo agradável para dizer às pessoas, nunca nega um sorriso, ou um abraço a quem quer que seja. Sempre espontâneo, brincalhão. Onde ele vai, a alegria o acompanha, frequentemente faz graça com os atropelos da vida. Ama estar rodeado de gente e nunca se sente desconfortável nas multidões, pois onde quer que vá, sempre existe um conhecido, amigo, colega, ou aluno. Nunca se deixa levar pelas aparências, se dá com todos, jamais alimenta inimizades, prefere calar-se a provocar a ira de alguém. Seu único defeito: ser sonhador.

Naquele momento, nosso sonhador de sonhos azuis já não era o mesmo. Quem o visse pela primeira vez, o julgaria mesquinho, entojado, nojento, “seachão”. Não conversou com ninguém. Sua mente não lembrava nenhuma piada, ou frase que fizesse graça no ambiente, não tinha nenhuma palavra amiga para as pessoas ao seu redor, não abraçou nem pegou na mão de seus semelhantes ali presentes… Estava no mundo da lua. Pobre joão! De tão sonhador, deixou-se abalar pela possibilidade de não realizar um de seus sonhos. Queria o fusquinha, mas “tremia a base” por saber que não poderia tê-lo porque alguém chegara primeiro. Sua mente sonhadora não processava a informação de que poderia ser só mais uma estratégia do vendedor para valorizar o bezourinho azul… Em sã consciência, seria o único a notar a presença da mijona e cumprimentá-la, seguraria, gentilmente a sacola para a senhora do vestido florido contar as moedas mais confortavelmente, faria alguma gracinha para a criança de colo e puxaria papo com o vozinho da bengala…

Oi professor!

Sua inércia, finalmente é quebrada. De repente, passa a perceber novamente o mundo ao redor, a senhora do guarda-chuva, a outra sentada, a menina com a criança no colo, o velho de bengala e, ao seu lado, com um brilho intenso nos olhos, sua melhor aluna…

Oi Roseli! Nem percebi você aí…

É! to vendo que nem olha pro lado. Tá distraído, diferente. Aconteceu alguma coisa?…

Nada! Tô distraído, só isso…

Dizia ele com um sorriso meio tímido nos lábios e os olhos teimando em buscar o chão novamente…

Roseli, que significa bela flor, não acreditou nos disfarces de seu professor, mas conteve sua curiosidade…

E o meu abraço? – Pedia ela mudando de assunto.

Claro, querida! Desculpe-me…

Não foi o abraço de sempre. Parecia frio, distante, sem vontade. Abraçou por obrigação. Não acariciou suas lindas madeixas loiras, não elogiou seu perfume e nem deu um sorriso olhando nos olhos depois do abraço… Roseli tentou conter uma lágrima que quase escorreu pelo seu rosto. Doía o desprezo inexplicável e momentâneo do seu professor mais querido. Como toda adolescente de quinze anos, sentiu-se culpada, mas novamente conteve suas palavras e, mais uma vez, tentou distrair seus sentimentos com uma pergunta…

O senhor vai pra onde?

Moro no Sorgatto…

Já passou! – Disse o senhor da bengala.

João, então transforma seu desânimo em raiva e indignação atípicas para sua personalidade e, meio sisudo, reclama:

Poxa! Perdi o ônibus…

Não! – Interrompe a senhora do guarda-chuva – Você já tava aí encostado quando ele passou, mas você não viu. Tava ca cabeça baixa… Se soubesse que era a tua lotação, tinha te avisado…

Tudo bem. Eu vou a pé mesmo…

E agora professor? – Roseli estava mais indignada que o próprio – Você também… Não ver a lotação passar! Só podia ser você mesmo…

Não faz mal! Sempre andei a pé e nunca quebrei nenhum osso…

Finalmente encontrou uma frase que provocasse um riso meio tímido nos presentes… Abraçaram-se, novamente. Desta vez, o professor pareceu mais espontâneo e melhorou consideravelmente a qualidade do abraço:

Tchau, professor!

Tchau, querida! Se cuide, hem!

Sua aluna mais querida observava, atentamente os passos do professor, enquanto espera o ônibus do Martello, até que ele sumisse na esquina… A caminhada era longa. Descia nosso sonhador a pé, na contramão da Salgado Filho, sempre mirando o chão com seu olhar meio tristonho que parecia atraído por um magnetismo moral até o solo, embora João fizesse um esforço para olhar sempre para a frente… Mas os seres humanos sonhadores são assim. Estremecem a cada vez que projetam um sonho e ele não se realiza de imediato. Para agravar, o professor dos sonhos azuis era ansioso, parecia ter nascido de sete meses. Não suportava esperar. Não gostava de coisas enroladas, nem pela metade, desesperava-se com os atrasos da vida… Jogava alto nos seus pequenos sonhos, achava tudo possível e quando não via resultado, ficava assim, olhando o chão, causando estranheza a todos ao seu redor, principalmente àqueles que o conheciam de longa data… Sentia um nó na garganta, um aperto no peito, um amortecimento fraco, mas perceptível nos braços, um tremor doído nas pernas. Uma angústia sem medida…

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