Press "Enter" to skip to content

Andar a pé

 

Caminhar, além de fazer bem para a saúde, também nos remete para um mundo desconhecido àqueles que vivem sobre quatro rodas. Infelizmente, as correrias do dia-a-dia nos obrigam a usar menos as pernas e mais os pés de borracha do veículo automotor… Só que um automóvel ainda é um bem que a maioria da população não tem direito a usufruir, a não ser que seja alienado a algum banco, ou financiadora que têm total poder sobre aquele bem até que seja quitado pelo proprietário, que na verdade não passa de um locatário pagante de um valor final muito maior do que aquele estipulado pela tabela por conta dos juros, quase sempre abusivos…
Quando o comprador de um veículo é atingido pelos tropeços da vida e, porventura deixa de pagar as parcelas acertadas em contrato “unilateral” pelo banco, este tem o direito, garantido por lei, de tirar o veículo do comprador, independente do número de parcelas pagas… Aí a instituição financeira que é legalmente poderosa, dá uma de cordeirinho e faz uma proposta de renegociação. O pseudo-proprietário do carro lê (ou não) e assina, concordando em refinanciar seu pezinho de borracha. Depois de algum tempo, dá-se conta de que o grande favorecido foi, de novo, o banco que jamais entra numa negociação para perder… Afinal, o capitalismo exige que os gigantes cresçam cada vez mais e os pequenos, por sua vez, se conformem com a pequenez desumana que sempre os distancia da dignidade…
E quando a situação não melhora para os pequenos?… O recurso é devolver o veículo para seu verdadeiro dono: o banco. Normalmente é feito um contrato de devolução amigável. Por telefone, o funcionário fantasma sem rosto e sem nome, que representa uma empresa terceirizada, sempre chamada de “Alguma coisa advogados” só para pressionar psicologicamente o infeliz (des)proprietário do veículo, faz uma proposta de devolução amigável com quitação de contrato. Isso é o que diz o título, mas o conteúdo só favorece ao banco que tem direito de vender o carro pelo valor que achar conveniente e, se este valor não corresponder à quitação da dívida, o desproprietário continua devendo ao banco um valor que nunca foi seu… Quem assinar um contrato nada amigável destes, estará dando totais poderes aos já poderosos para continuarem dominando o bolso e a dignidade dos pequenos…
Infelizmente, a lógica do mercado automobilístico é simplesmente ilusionista. Em nome do status, adquire-se uma dívida que se transforma numa bola de neve morro abaixo…
Por essas e outras, resolvi usar um pouco mais os pés e gastar menos o bem que é do banco, pois se houver algum dano e eu tiver que devolvê-lo, os prejuízos sempre serão meus…
Caminhando pelas ruas, vejo cachorros em busca de atenção e carinho em virtude do abandono de donos relapsos, isso quando têm dono… Vejo novas construções urbanas que, dentro de um carro jamais mereceriam minha atenção. O mesmo acontece com as árvores a beira da estrada e as pessoas que me encontram. Sim! As pessoas precisam de atenção e enquanto as vemos de dentro de um veículo automotor alienado a uma grande instituição financeira através de um contrato unilateral, jamais poderemos desfrutar de uma boa conversa que cura qualquer desafeto da vida sem precisar de diagnóstico, ou receituário…
Mas é preciso tempo, algo escasso na vida moderna para aqueles que vivem atarefados e correndo contra o relógio. Neste caso, a alienação de um pé de borracha se torna indispensável para o transporte rápido… Mas por que não há tempo?… Porque é preciso trabalhar mais, para ganhar mais dinheiro, pagar as contas e financiar um veículo.. Aí é preciso aproveitar o tempo livre que resta e deixar de “conversa mole” nas esquinas para ganhar mais dinheiro, pagar as dívidas antigas e adquirir novas…
Andar a pé, portanto, é usufruir das delícias que a vida só oferece para quem ousa tocar o chão com os pés vagarosa e atenciosamente, sem preocupação com o tempo, ou com os compromissos capitalistas e alienistas…

www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Folha da Cidade

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *