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Amor de irmã

 

Mãe 0050
 No início deste ano letivo, deparei-me com uma situação, de certa forma decadente na qualidade de educação dos nossos alunos. Ao solicitar que meus queridos jovens encapassem o livro didático oferecido pelo MEC, uma menina bem apessoada e aparentemente caprichosa, me solta uma bomba moral: “Não sei encapar livro, professor…” Isso no auge de seus quatorze, ou quinze anos…
 Não teve outra forma, precisei ajudá-la… Como ajudei? Mostrando como se faz para que ela realizasse o trabalho… Por que mostrei como se faz? Porque eu sei… Como eu sei? Um dia aprendi… Com quem aprendi? Com minha irmã, que nasceu doze anos antes de mim…
 Em 1981, estava eu ansioso pelo primeiro dia de aula. Era a primeira vez que eu entrava numa escola para nunca mais abandonar a educação pública. Comecei na primeira série, não precisei frequentar a educação infantil, já que eu estava quase alfabetizado por minha mãe, usando de seu conhecimento puro e simples que adquiriu nos dois únicos anos em que frequentou uma escola multisseriada no interior de Lebon Régis…
 Alguns dias antes, minha irmã sentou-se à mesa comigo e ensinou-me, também com seu jeito simples, como segunda mãe, a encapar caderno. Encapamos juntos todos os cadernos que seriam usados por mim durante o ano letivo, com direito a recorte de figura na capa e um desenho bem bonito na folha de rosto, com todos os meus dados, e os da escola onde eu estudaria pelos próximos oito anos de minha vida…
 Foi esta, uma das lições que jamais esquecerei, uma cena que não abandona minha memória… Lembro-me até das figuras usadas na capa e do plástico azul que as revestiram, recordo-me das orientações para usar corretamente a cola, o durex, a tesoura…
 Até hoje, todos os meus cadernos e livros são encapados, graças à maninha que dedicou alguns minutos de seu tempo para ensinar a um pirralho dentuço de sete anos alguns detalhes que revelam capricho e dedicação em tudo aquilo que se faz.
 O pirralho cresceu, a maninha também. Está concluindo agora o curso de magistério, depois de vinte e cinco anos fora da escola. Uma guerreira, cheia de sonhos e expectativas que continua dando exemplo de vida por onde passa… A Marta, agora é Martinha, diminutivo carinhoso adotado por seus colegas de turma, que jamais a discriminam, ou tratam com qualquer tipo de preconceito as diferenças, inclusive de idade, entre ela e a maioria dos alunos a seu redor.
 Na verdade, quando existem diferenças, devem ser usadas para somar e não para dividir as pessoas. Porém, não é isso que encontramos em nosso cotidiano: Discriminação racial, social, religiosa, política, ideológica entre outras besteiras que insistem em fazer parte da vida humana… Mas a Martinha tem provado que o ser humano é muito maior do que pensa e quando acredita em seus sonhos, vai muito além do horizonte, vence barreiras e revela-se grandioso diante dos obstáculos da vida…
 Se olharmos ao nosso redor, sem os óculos escuros do preconceito, veremos muitos outros exemplos como este que transformam a vida de muitas pessoas e no entanto, permanecem anônimos no meio da multidão que não tem tempo para observar as coisas simples da vida. Que de tão simples, são humanas, e de tão humanas, divinas se tornam…

 

Márcio Roberto Goes
www.cacador.net
www.portalcacador.com.br
Jornal Informe – O diário Regional

Um Comentário

  1. Nadir Domingos Loss
    Nadir Domingos Loss 23 de julho de 2009

    Parabenizo-o pelas suas crônicas. Leio-as todas. O cronista, com a perspicácia da observação e visão crítica ao narrar os fatos, por vezes hilários, dramáticos ou simplesmente banais, – mas sempre redigidos com arte – fixa-os no tempo. Ao fazer isso se desnuda frente ao leitor, revelando seu interior. No seu caso, transparece uma pessoa preocupada com o semelhante; que tem compaixão, isto é padece junto, de suas dores e tristezas, compartilhando seus sonhos. Esse agir demonstra qualidades que enaltecem o ser humano.

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