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Abraço de urso

 

 Quando escrevi, há algumas semanas, minha sincera homenagem a um de meus mestres da graduação, fiquei, de certa forma, encabulado, pois não se trata de um fato comum no cotidiano das pessoas civilizadas, que são orientadas a não demonstrar seus sentimentos explicitamente… Alguém tirou o coração dos seres humanos e colocou uma pedra no lugar, pois parece tão fácil fofocar e falar mal das pessoas ao nosso redor e infinitamente difícil, abrir um sorriso sincero, dar um abraço, ou fazer, despretensiosamente, um simples elogio para aquelas pessoas que nos ajudam a transformar nossa vida para melhor (isso aquece o coração das pessoas)… E quando se trata de um homem rasgando elogios para outro homem, aí é que os preconceituosos e mal-amados de plantão rasgam o verbo para julgar.
 Fui julgado sim, não lembro por quem, nem faço questão de lembrar, mas ouvi coisas que nunca pensei que o coração humano fosse capaz de alimentar. Da mesma forma, fui julgado por distribuir abraços nos corredores da escola…
 – “Você anda abraçando demais as meninas” – me dizia alguém do meu convívio profissional. Lógico! Eu gosto de abraços, ainda mais do sexo oposto, mas gostaria de justificar publicamente esta minha atitude que me foi repreendida por alguém com título acima do meu: Em primeiro lugar, não são só as meninas que merecem o meu abraço, os meninos também, apesar de muitas vezes ficarem meio ressabiados, mas os olhos humanos ao meu redor, só conseguem identificar a parte maldosa que diz respeito aos meus abraços… e se tratando de adolescentes e jovens de ensino médio, o perigo é ainda maior… Perigo???… Que perigo???… Por favor, deixem-me relacionar humanamente com meus alunos! O que me conforma é saber que não sou o único: conheço muitos professores que amam sua profissão e seus alunos… Quem ama, abraça… Os amigos se abraçam, pais e filhos se abraçam, os irmãos se abraçam… Porque então, os professores têm que abortar de seus alunos e de si mesmos a vontade e a necessidade de dar e receber abraços?
 Eis que há quase um mês, na véspera do dia dos professores, recebi muitos abraços, felicitações e cartões os quais agradeço de coração, mas uma coisa me chamou a atenção: todos os cartões foram confeccionados pelos próprios alunos, por livre iniciativa e de forma muito simples, o que me encantou, porém um deles me chamou especial atenção por causa do remetente: um menino do ensino médio… Isso mesmo, um adolescente do sexo masculino, confeccionando um cartão em homenagem a seu professor… Naquele momento, despi-me de qualquer tipo de preconceito, ou repressão e dei-lhe um abraço de urso, daqueles de “quebrar as costelas”, além de contar-lhe meu testemunho vivido anteriormente com a homenagem que fiz ao meu mestre, com a mesmíssima intenção: homenagear sinceramente uma pessoa admirada por mim… São atitudes como estas do cotidiano escolar que ainda me fazem acreditar na educação como um processo de crescimento e relacionamento pessoal, e resgato lá do fundo de meu coração e do cantinho mais utópico de meu cérebro, a escola dos meus sonhos.
 Querido leitor, querida leitora… Quem você acha que mais marcou a minha vida: o título de mestrado que julgou meus abraços gratuitos, ou o bilhetinho, também gratuito, daquele aluno que está apenas iniciando o ensino médio?… É claro que minha mente e meu coração amaram muito mais a segunda atitude, que veio acompanhada do tão perigoso e imoral abraço. Portanto, a vergonha de homenagear meu professor, reduziu-se a pó, enquanto a alegria de poder expressar meus sinceros agradecimentos agigantou-me. Senti-me também mestre… Um mestre feliz rendendo-se às palavras e aos abraços de seus alunos, que mais uma vez me ensinaram a valorizar as coisas mais simples da vida, sem máscaras.

Márcio Roberto Goes

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