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A professorinha

 

Era uma vez uma escola quase tradicional, quase moderna e o meio termo ficava por conta do tratamento dado aos seus alunos, que cresciam em sabedoria e graça, às custas de muita exigência através da “psicologia do cagaço”… Naquela escola, problemas do cotidiano, principalmente os comportamentais eram facilmente resolvidos no grito e no chingamento. Os alunos já estavam convencidos de que eram uns “retardados” e não conseguiam aprender nada direito… Acomodaram-se e passaram a ter o mesmo comportamento com os colegas e professores. Mas tudo ficava em paz depois de alguns chingamentos por parte dos gestores, mesmo que este processo precisasse ser repetido diversas vezes durante o dia para manter a paz e a harmonia naquele renomado e bem conceituado educandário público…

E eis que foi trabalhar naquela escola, uma professorinha jovem, universitária, cheia de novas ideias e boas intenções. Fazia um curso superior de Artes Visuais por dois motivos: Amor às artes e amor à educação. Ao ser apresentada para a direção, ela que aparentava menos idade do que tinha, foi olhada da cabeça aos pés pela gestora que lhe perguntou: “Tem certeza de que vai dar conta?”… Sua resposta, apesar da pergunta humilhante, foi positiva, afinal, estava cheia de novas ideias para pôr em prática, sonhava com cada trabalho, planejava cada aula, mesmo antes de ser contratada… A diretora, meio ressabiada, aceitou a professorinha e encaminhou a papelada para o contrato temporário para cobrir uma licença…

E eis que a professorinha começou a trabalhar… Na primeira turma que entrou, foi calorosamente recebida, a maioria dos alunos fez as atividades propostas com louvores. Estava realizada, era aquilo mesmo que queria para sua profissão. Sentia-se feliz… Já na segunda turma, foi preciso a interferência do setor pedagógico que resolveu o problema no “cagacionismo”. A professorinha assustou-se, ficou com a voz daquela mulher zunindo na bigorna, imaginando que os alunos deveriam estar sentindo o mesmo… Naquela turma, não conseguiu realizar um trabalho satisfatório, não foi respeitada pelos alunos por não usar de chingamentos e ameaças. Queria propagar o amor as artes, não lhe agradava deixar as crianças fazendo um desenho “nadavê” só para mantê-las ocupadas e em silêncio. Mas era somente isso que dava resultado, aliás, resultado só para a comodidade do professor, pois os alunos, após alguns gritos, permaneciam quietinhos, comportadinhos e vazios… Vazios de conhecimento, aprendizado e de exemplos… A professorinha agora entendia a razão de tanta rebeldia daquelas crianças, elas só estavam retribuindo o tratamento “vip” a elas dispensados e seria quase impossível consertar vários anos de estrago em apenas três meses de trabalho.

E eis que a professorinha pediu ajuda… Mas também usaram a “psicologia do cagaço” com ela. “Esses alunos são assim mesmo, se mostrar os dentes, eles tomam conta”… Dizia a diretora: “Tem que entrar na sala de cara amarrada e ser bem ruim com eles”… Mas a professorinha ainda acreditava que poderia mudar aquela situação… Sei lá!… Fazer alguma coisa por estas crianças que só serviam para os poderosos comprovarem seu poder através das ameaças…

Ao terminar o turno, um aluno apontou para a professorinha e disse: “amanhã vamos fazer esta professora chorar”… E eis que no dia seguinte, a professorinha chorou… Chorou indignada, chorou desconsolada, chorou por não poder fazer nada por aqueles seres humanos que já tão cedo estavam calejados pelas agressões morais… A professorinha então desistiu. Não teve mais forças para lutar contra um estrago causado desde o primeiro dia do primeiro ano de escola daquelas crianças… E eis que contrataram outra substituta que seguia feliz, dando desenho para passar o tempo e mantendo a ordem da desordem de uma escola que só dá apoio ao professor, quando utiliza o método do “cagacionismo”…

Era uma vez uma escola…

Márcio Roberto Goes

www.cacador.net

www.portalcacador.com.br

Jornal Informe – O diário Regional

jornalinformediario.blogspot.com

2 Comments

  1. Tatiana da Silva
    Tatiana da Silva 4 de outubro de 2010

    Olá ´Márcio! td bem? não sei se vc vai lembrar de mim, estudamos juntos no magistério lá no Paulo Schieffler.

    Quero parabenizá-lo pelas crônicas. Moro em Curitiba agora mas, sempre que possível entro no site de Caçador para ler suas crônicas.

    Parabéns e abraços.

    Tati

  2. Bernadete
    Bernadete 30 de setembro de 2010

    Caro colega Marcio, quero te parabenizar pelo retrato perfeito da escola relatado na Cronica a Professorinha.
    Você esqueceu de dizer que a gestora é uma professora de artes.
    Com uma futura colega deveria ser a primeira a incentivar e orientar no inicio da carreira.
    Infelizmente tenho noticias sobre o final da historia dito por ti como uma outra contrata ficou dando aula tradicional…A nova contratada também não permaneceu pelo mesmo motivo. Já pedimos a direção pedagogica que veja o que está acontecendo, infelizmente só recebemos o retorno que “ninguém sabe dár aula” só ela que é boa.
    Que pena os descaminhos da educação estar indo por esses caminhos.

    Bernadete

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