Aperte "Enter" para pular para o conteúdo

A BATATA ASSASSINA


PUBLICADO EM: 01/02/2007
JORNAL INFORME
Os dois, apesar da diferença de dez anos na idade, costumavam brincar, na maioria das vezes, juntos… e juntos também faziam traquinagens atípicas para tio e sobrinho. Certa vez, tentaram construir um herói japonês de madeira e o resultado foi surpreendente: Mais parecia um grilo… E para aproveitar o ensejo, pintaram de verde aquele grilo gigante devorador de cabeças, pois ele foi responsável por um “galo” na testa do Alisson (o sobrinho), de quatro anos, quando tentava pegá-lo de uma prateleira… Em outra oportunidade, três anos antes, Márcio (o tio) salvara o sobrinho de um tombo da varanda da casa segurando-o pela calça plástica…
Mas as anormalidades de uma relação sadia entre tio e sobrinho, não param por aí… Um certo dia, estavam os dois na casa da dona Áurea, mãe do Márcio e avó do Alisson, sem fazer nada (o que nesse caso é perigosíssimo…), então encontraram um sadio, útil e instrutivo passatempo: Uma batata, que servia de objeto para arremesso para qualquer lado.
Na primeira parte, Marcinho era o arremessador e deveria acertar um pote de margarina vazio, localizado estrategicamente em cima da mesa, numa distância de vinte centímetros… Moleza! Um ponto para o mais velho… Mas o mais novo não se conteve e colocou o alvo a quarenta centímetros, rigorosamente medidos e conferidos por três vezes: novamente o tio acertou sem maiores esforços… Era preciso complicar mais a vida do jovem tio, então seu desafiante sobrinho colocou o pote-alvo, que já havia sido ferozmente acertado por uma batata por duas vezes a oitenta centímetros, cuidadosamente medidos e conferidos: O pote foi acertado em cheio, sem chances de reação e despencou, em queda livre até o chão, percorrendo desesperadamente uma distância de noventa centímetros até encontrar-se com o assoalho… O alvo, depois de atendido e medicado, foi posto então na beirada da mesa, na extremidade contrária ao arremessante, que em duas tentativas acertou aquele pote que novamente, apesar de todos os esforços acabou colidindo com o chão da cozinha…
Dona Áurea, que cuidava da lida de sua pequena lavoura nos fundos, nem imaginava o que estava por vir, e os dois lá, permaneciam firmes no desafio, capazes de qualquer coisa para manter a diversão rolando…
Inho, o mais novo, coloca então aquele pobre, miserável e azarado pote de margarina em cima do fogão, a mais ou menos um metro e meio de distância do “Pateta dentuço”, que em uma única tentativa, acerta o alvo com aquela batata, que parecia não estar gostando muito da brincadeira, da mesma forma que o pote, que novamente obedeceu a lei da gravidade e seu destino foi o chão frio e lustroso da cozinha…
Agora era a última etapa da brincadeira: A batata deveria acertar o alvo margarináceo na quina do balcão, distante mais ou menos dois metros do arremessador, onde haviam também alguns utensílios de cozinha, como forno elétrico, torradeira, liquidificador, batedeira e um filtro de água com um copo de vidro do mais alto gabarito, não era qualquer copo, desses que a gente compra nos mercados servindo de embalagem para extrato de tomate.
Todo cuidado é pouco nesse momento… Depois de muita concentração, a batata foi arremessada e o tiro foi certeiro… no copo que transformou-se nuns quatro mil, quinhentos e vinte e cinco pedaços, mais ou menos…
A brincadeira acabou, era preciso juntar toda aquela sujeira e substituir o copo antes que a dona da casa voltasse da horta… Mais do que depressa, a dupla dinâmica reparou o erro e dona Áurea, ao voltar, encontra os dois olhando para o alto e assoviando, cena típica dos disfarçados dos desenhos animados, que não deixam nenhuma suspeita do crime…
Márcio Roberto Goes
Inocente, até que se prove o contrário

Seja o/a primeiro/a a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *