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Educador ao chão

Dificilmente encontro alguém que elogie, de coração, despretensiosa e gentilmente meu trabalho. Tampouco sei qual a razão de, em pleno século vinte e um, cultivar-se os (des)valores da educação tradicional, desumana e repressora que ainda sobrevoam nossas escolas, sejam elas públicas ou particulares. Aliás, este ano existe um pequeno diferencial na minha vida, estou conhecendo in loco a realidade da educação privada, não vejo grandes diferenças e absolutamente nenhuma vantagem em relação à rede pública, com exceção de uma: Neste caso a educação é paga duplamente, nos impostos cotidianos e nas mensalidades para a escola cujo aluno está matriculado
e, justamente por isso, existe uma cobrança e um compromisso muito maior por parte dos pais e da família em geral em nome do “controle de qualidade”…
Mas não perdi e jamais perderei minha paixão pela escola pública, além do meu amor aos alunos, sejam eles da rede pública ou privada. É este amor que me permite e me obriga a abraçá-los periodicamente, rir e chorar com eles, participar das suas vitórias e derrotas, amá-los e respeitá-los como merecem, além de ser alegremente amado e respeitado pelos meus queridos aprendizes de gênios…
Porém, os risos francos de meus amados alunos numa aula de redação parecem incomodar o resto do mundo e, especialmente, alguns gestores que sentem-se realizados somente ao verem estudantes e professores com “cara de sexta-feira santa”, pensando ser esta uma prova concreta da qualidade de ensino utópica pregada e defendida por eles e pelas instituições que os governam…
Meu abraço acadêmico incomoda, nosso riso escolar estorva a escola dos “gigantes” da educação. Minha postura parece inadequada para uma instituição de ensino que se diz perfeita… mas não é só alí. A minha pessoa já sofreu e continua sofrendo duras críticas também na rede pública, por aqueles que pensam ter o direito de nivelar o ser humano achando-se uns melhores que os outros… Além das denúncias sem rosto, sem cara, sem nomes… Ninguém sabe quem foi… Ninguém sabe quem falou… Só se sabe que estão falando, indignados… Quem está indignado?… Que rosto tem esta indignação? Quem está falando? Esta fala tem cara?… Aliás, estas ideias são reais e pertencem mesmo a estas criaturas anônimas?…
Aquele abraço que eu e meus alunos tanto gostamos, despretencioso, mútuo, recíprocro, espontâneo e voluntário só é destacado pelos olhos dos “pesos mortos” da educação quando acontece entre professores e alunos do sexo oposto. Estes olhos que o enxergam são muito maiores do que aqueles que veem o mesmo abraço entre professores e alunos do mesmo sexo…
Outro dia, nos corredores do Wandão, encontrei um aluno vindo em minha direção com os braços abertos e olhar fraterno de amigo. Também me despi de quaisquer preconceitos e restrições, e parti em sua direção para realizar o mais bonito gesto de carinho entre grandes amigos: o abraço… Porém, a força foi tanta e o impacto gerado pela ânsia de abraçar foi tão grande que nos levou até o chão… Por sorte, caí por cima, o Janerson amorteceu minha queda. Sou grato a ele pela coragem de me abraçar em público sem medo das críticas e por ter me livrado de algumas possíveis contusões e hematomas…
Mas caímos por uma boa causa. O corredor inteiro parou para ver a cena do abraço que levou ao chão educador e educando… Se é para ambos caírem, que seja po causa de um gesto de carinho e não por consequência de uma briga…

 

Márcio Roberto Goes

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