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Mês: março 2018

Porco com batatas

Sempre gostei de animais. Quando tinha cerca de doze anos, tínhamos um porquinho e, por se tratar de um bairro próximo ao centro, era necessário limpar muito bem o chiqueiro todos os dias para não haver nenhum mal cheiro que atrapalhasse a qualidade de vida dos vizinhos. No verão, a sequência da higienização era ainda maior. Eu era encarregado da limpeza da residência oficial daquele suíno que se tornou um de meus melhores amigos de infância, ocupando o lugar ocupado pela dinastia de cães chamados Bilu e o periquito que vivia no meu ombro quando eu tinha remotos cinco aninhos…

Meu porquinho gostava tanto de mim que, ao me ver, chegava a abanar o rabinho em alta velocidade. Todos os dias, eu calçava a bota de borracha, puxava a mangueira do poço até sua casa e ligava o motor para transladar a água até aquele local. Lavava todo o ambiente, depois dava banho no meu amigo que gostava a ponto de deitar-se para receber carinho na barriga, depois enchia o coxo da mais deliciosa lavagem que, para ele era um manjar dos deuses… Era muito bom cuidar de outra vida animal e poder, mesmo involuntariamente, identificar o humano dentro dele… Um quadrúpede, originalmente fedorento e com hábitos não muito higiênicos, me ensinava a cada dia aquilo que a humanidade toda precisava e ainda precisa aprender: o amor ao próximo…

Nossa relação suína era altamente humana e ganhava de muitas pseudo-amizades que vemos por aí entre seres humanos racionais com o encéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores… Por várias vezes tentei abraçar meu porquinho, perdi o equilíbrio e fui parar no chão, na mesma altura e situação dele… Apesar de tudo, não parecia tão mal assim viver num chiqueiro…

Acima do chiqueiro, que ficava ao pé de um pequeno morro, havia uma plantação de batatas-doces, cuidadosamente preparada por minha mãezinha querida… Ocorre que um dia caiu um toró e o morro quase veio abaixo em forma de enxurrada. Era água que não acabava mais, nunca tinha visto tanta chuva em tão pouco tempo. As batatas-doces desceram o morro junto com a terra vermelha e invadiram a casa do meu amiguinho… Da janela, eu olhava preocupado, sem saber o que fazer. Minha mãe não me deixava sair naquela chuva para socorrê-lo, temendo que eu fosse levado também pela enxurrada… Então eu ficava olhando a chuva cair e amedrontado pela possibilidade de perder meu amigo no meio da tempestade…

Mas depois da chuva vem a bonança e, quando tudo acabou, voltei ao chiqueiro para ver se conseguia encontrar algum vestígio do meu porquinho e grandiosa foi minha surpresa quando o vi atolado até a barriga, imóvel e, sem nenhuma preocupação com o resto do mundo, comendo batata-doce trazida durante a chuva…

Mais uma vez, aprendi com ele… Aprendi que nem toda tempestade traz desgraças… Aprendi que podemos tirar proveito das situações, aparentemente, negativas… Aprendi que, se olharmos com atenção ao redor, sempre encontraremos as batatas-doces no meio da enxurrada. Mesmo que estejamos imóveis e atolados até a barriga, sempre existe uma possibilidade de sobrevivência… Aprendi a ver desafios em cada situação complicada… E, acima de tudo, aprendi que se nos jogarem lama de cima para baixo, é possível encontrar, no meio da amargura humana, uma batata-doce que alimente nossa esperança e nos dê forças para reagir e tirar o pé da lama…

Só não consegui entender a razão pela qual minha família me tirou de casa um dia cedo e, quando voltei, meu melhor amigo já estava sem vida na geladeira, parte dele na panela e algumas migalhas de amizade transformadas em salame…

Márcio Roberto Goes

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Plano de aula da depressão

Atividade: Produzir uma dissertação argumentativa objetiva.

Tema: Atual conjuntura política no Brasil.

Peraí… Não posso pedir isso aos alunos de ensino médio. Vão dizer que sou esquerdopata, petralha, que sou contra privatização, que acho que foi golpe, que defendo bandido, que isso que aquilo…

Mudança de plano… Novo tema: A influência dos movimentos LGBT na construção da democracia…

Não… Não dá… Dirão que sou homofóbico, que não respeito as diferenças, ou dirão que sou gay enrustido… Não sou… Mas se eu fosse, qual o problema?… Diriam que eu seria uma má influência, que estaria contribuindo para a destruição das famílias dos alunos… Que isso, que aquilo…

Bem… Vamos lá… Mudança de plano novamente: Análise sobre o posicionamento da Igreja diante da intervenção militar… Meu Deus!… Seria o caos na educação: Diriam que eu estou tentando converter os alunos para a minha religião, que sou, contra, ou a favor da intervenção militar, que defendo bandido, que adoro imagens, que sou papa-hóstias, que apoio o comércio das igrejas evangélicas e católica, que discrimino outras religiões, que Oxum, Maomé e Buda vão me castigar… que isso… que aquilo…

Pois bem… Preciso trabalhar argumentação com meus alunos… Vou usar o clipe do Gabriel o Pensador, com a música: “Quem é você”. Servirá de motivação para eles formarem uma opinião e, então argumentarem sobre… Nãããããoooo… Não dá… Vão dizer que sou contra o sistema, que falo mal do governo, que quero doutrinar os alunos… Que isso, que aquilo…

E agora… Preciso ajudá-los a argumentar, afinal vão precisar disso na vida acadêmica, no vestibular, nos concursos e processos seletivos. Além de ajudá-los a raciocinar e não publicarem porcarias no facebook… Mas que tema propor? Tudo leva a uma reflexão… Tudo leva a pensar… E aqueles que estão na cadeira de quem pensa que manda, não querem que o povo pense… Mesmo assim preciso ajudá-los a raciocinar…

Um bom tema, seria sobre o assassinato da vereadora no Rio de Janeiro… Pera lá… Vão dizer, novamente que sou petralha, esquerdopata, comunista, ou pior, que sou contra a polícia, a favor de bandidos, que isso, que aquilo… Dirão tudo isso, repetindo como papagaios aquilo que alguém divulgou, sem averiguar os fatos…

E agora… O que fazer?… Acho que vou deixar tema livre… Não dá… Diriam que não sei dar aulas, que não estou preparado, que sou matão, vadio, preguiçoso, grevista, arruaceiro… Além do mais, eles ainda não estão preparados para argumentar sozinhos… Precisam de ajuda… O professor poderia ajudá-los, mas não pode, pois qualquer tema que proponha, será julgado como parcial, petralha, ou coxinha, comunista, ou golpista…

Bem… Para não deixar um planejamento em branco, pode-se propor o seguinte: “A influência da propagação acústica amplificada do vaso sanitário na convivência humana”… Gostei desse tema. Totalmente imparcial. Vão me chamar de retardado, mas ainda é melhor do que todos os outros possíveis xingamentos daqueles que acham que entendem de educação e se acham no direito de dizer o que se deve trabalhar em sala de aula…

É… Parece que estamos vivendo uma ditadura, não a civil, militar, comunista, ou capitalista… E sim, a pior de todas: A ditadura da falta de conhecimento… A ditadura da insanidade programada… Querem calar nossa voz… Agindo assim, calam também a voz das novas gerações, tornando mais fácil a dominação pelo poder…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

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