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Mês: junho 2016

De volta ao começo

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Nostalgia… Um sentimento que, junto com a saudade, faz a gente querer voltar no tempo, não pra fazer diferente, mas para que tudo seja igual às lembranças… Por conta de meus escritos que chamo de crônica, já visitei várias escolas da região para ter uma conversa franca com alunos dispostos a querer gostar de ler e escrever… Sim… Pois para se escrever bem, é necessário gostar do que lê, ler o que gosta e, por consequência gostar de escrever e escrever sobre o que lhe causa prazer…

Recebi um convite irrecusável: visitar a Escola Municipal de Educação Básica Alcides Tombini, no bairro Sorgato, onde passei três décadas de minha vida… Nasci e me criei naquelas ruas… Claro que, antes de chegar ao destino, dei uma passeada pelo bairro da minha infância e juventude… Muita coisa mudou, casas antigas de cores novas, casas novas sobre terrenos antigos…

A casa de minha infância já não existe mais, deu lugar a uma nova e moderna edificação, acolheu uma nova família… Mas um fato que me emocionou profundamente foi perceber que o novo habitante daquela que outrora fora minha residência oficial, mantém preservadas as plantas cultivadas por muitos anos pela minha mãezinha, principalmente as árvores frutíferas dos fundos do terreno…

As ruas continuam com aquele calçamento que remete minha mente viajante há trinta anos, quando as pedras estavam sendo assentadas pelas mãos cuidadosas dos funcionários da prefeitura com um martelo de borracha. Trabalho que resiste ao tempo, muito diferente daquelas casquinhas de ovo jogadas nas ruas dos bairros hoje em dia que ousam chamar de asfalto… O calçamento de paralelepípedo demora mais a ficar pronto, mas dura muito mais sem precisar de manutenção, além de ser menos agressivo ao meio ambiente, já que uma das matérias-primas do asfalto é o petróleo… Mas o asfalto casquinha de ovo se torna mais visível em menos tempo, ideal para tempos de eleição, quando é necessário mostrar o serviço que não foi feito em quatro anos…

Mas o dever me chamava, então parei de sonhar e guiei meus 147 motivos para ser feliz até a escola… Chegando lá, encontro a professora Andrieli Boeno e seus alunos de sétimo ano me esperando com um café colonial delicioso e literário… Partilhamos tudo: o lanche, as experiências, as crônicas, as histórias, sorrisos, esperanças e temores…

Conhecer escolas, conversar com alunos e professores, ver realidades diferentes na educação pública, trocar ideias… Tudo isso me faz amar ainda mais o melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas: a sala de aula… Ver aqueles olhinhos brilhando diante da Literatura que brotava de cada conversa em volta do café partilhado, nos faz acreditar piamente na escola como agente transformador da sociedade em que está inserida…

Manhã maravilhosa se encerra, me despeço da galerinha, entro na minha caixinha de fósforo prata da Fiat, e dirijo de volta até o Martello, que acolhe este que vos escreve há nove anos… No caminho, vou pensando na experiência de se voltar ao local da infância com algo a contribuir para a comunidade… A história daquele bairro segue com, ou sem mim, mas a alegria de reviver estes momentos, relembrar peculiaridades que ajudaram no crescimento pessoal e profissional de um professor-escritor, fazem tudo valer a pena: A Literatura, a crônica, a experiência… A Vida…

Márcio Roberto Goes

www.marciogoes.com.br

www.radioativacacador.com.br

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Não precisa

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Não precisa ser do MST para apoiar a luta daqueles que não têm um pedaço de chão para plantar. Sabe-se que existem muitas pessoas infiltradas no movimento que não defendem os mesmos interesses, mas não é justo sacrificar toda uma coletividade por causa de uma meia dúzia…

Não precisa ser beneficiário do Bolsa Família para defender as lutas do povo empobrecido. Sabe-se que existem muitas pessoas que usufruem sem, na verdade, necessitar, mas não é justo chamar todos os beneficiários dos programas sociais de “vagabundos” por conta de alguns que burlam o sistema. Para isso existem as denúncias que podem ser feitas e investigadas…

Não precisa ser beneficiário do PROUNI para defender os universitários e lutar para que todos, do operário ao empresário, tenham uma educação com a mesma qualidade…

Não precisa receber benefício da lei Rouanet para prestigiar e defender a cultura popular. Sabe-se que muitos artistas consagrados já não precisam deste benefício, mas a imensa maioria trabalha, e muito para viver da arte e, mesmo assim, não são valorizados como deveriam, recebem um cachê vergonhoso dos estabelecimentos onde se apresentam, apesar dos proprietários lucrarem muito com isso… Além do mais, a maioria dos fãs investe mais de cem reais para ver artistas de renome nacional, mas se recusa a pagar uma dezena de reais para ver o artista local tocando num barzinho, sobrevivendo, aos trancos e barrancos, quase sempre tendo que ter outro emprego para garantir o sustento…

Não precisa ser mulher para ajudar nas lutas feministas, na conquista de espaço, nas batalhas por seus direitos e por seus sonhos… Não precisa ser estuprada para se indignar e se envergonhar com a situação, lutando por justiça…

Não precisa estar o tempo todo na rua, manifestando, batendo panela (Aliás, cadê as panelas?) para lutar por um país melhor… A luta contra a corrupção começa quando não me rendo a ela no cotidiano, quando não busco levar vantagem em tudo, quando peço a nota fiscal de minhas compras, quando não furo as filas da vida, quando respeito o direito de meus semelhantes…

Enfim, não preciso ser nem assumir todas estas lutas, mas preciso de um ideal, algo que mova meus atos e minhas ideias. Preciso, enfim ser autêntico sem deixar de ser alguém na multidão lutando pelas causas populares…

Levando-se em conta esta lógica, é possível compreender o fato de alguns empobrecidos pelo sistema defenderem seus opressores… Afinal, não precisa ter muito dinheiro para defender os interesses da classe alta e, em muitos casos, opressora…

Só existem empobrecidos porque uma minoria muito organizada e convincente fica com a maior fatia do bolo deixando o restante para a maioria oprimida dividir e se sentir agradecida aos opressores que lhe fornecem muito menos do que as mãos do trabalhador produzem…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

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