Press "Enter" to skip to content

Mês: junho 2015

Pé no barro

140120-PésTerraB-e1390219147234

Moro na maior avenida de Caçador… Maior e mais esquecida nos seus quatro quilômetros e meio de extensão, começando no presídio, desembocando na rua Brasília e, no entanto, só foi agraciada com uma amostra grátis de asfalto num minúsculo trecho e um pedacinho de calçamento…

Há alguns dias, uma criança morreu brutalmente atropelada enquanto brincava na beira da estrada por alguém que pensou que seu carro voasse… Por conta disso, a população dos arredores se reuniu e, por iniciativa própria, construiu duas lombadas numa tentativa de diminuir a velocidade dos possantes que ali transitam… Uma dessas lombadas está em frente a minha residência oficial…

Constantemente, ouço ruídos de rebaixados que enroscam na tal lombada… Alguns, mais precavidos, fazem o carro rebolar, ocupando as duas pistas para poder atravessar o obstáculo sem danificar o veículo que teve suas características originais alteradas por conta de uma vaidade, atrapalhando o trânsito de forma egoísta… Às vezes, o barulho é de frenagens bruscas, pois já que a iniciativa partiu da comunidade, o trecho ainda não mereceu sinalização… É bem verdade que não mereceu quase nenhuma melhoria desde que a estrada foi aberta. Só de vez em quando aparece uma patrola raspando o problema e empurrando a solução com a barriga para um outro dia, um outro ano, uma outra eleição…

Mas um fato me deixou intrigado esta semana… Havia chovido um dia antes e, no momento, garoava, a pista estava feito sabão, pois como sempre, houve uma manutenção recentemente feita pela metade, a tubulação foi reparada, mas se esqueceram da pedra brita… Uma criança se aproxima da lombada feita de terra, com um chinelo três vezes maior que o pé. Ela dá um passo, o pé vai e o calçado fica grudado, outro passo, a mesma coisa… E a criança, aparentando seus cinco, ou seis anos toma uma atitude radical: retira os chinelos e coloca o pé diretamente no barro…

Por um instante, imaginei que aquilo fosse novidade para o menino, já que me pareceu surpreso com a sensação, vi em seu rosto um leve sorriso daqueles que só crianças traquinas sabem produzir. Desceu da lombada e atolou o pé totalmente no barro: Já que é pra sujar os pés, que seja bem sujo – deve ter pensado naquele momento… Seguiu seu caminho e eu, quando me dei conta, estava paralisado observando uma criança com os pés no barro seguindo seu caminho na longa avenida sem asfalto até que desaparecesse no horizonte…

Minha mente viajante já traçou inúmeras possibilidades. Talvez aquela criança sozinha no meio da rua, ainda não tivesse, na sua tenra idade, a oportunidade de sentir o calor da terra em seus pezinhos, muito menos do barro. Quem sabe, sua mãe lhe daria umas boas cintadas por chegar em casa com os pés sujos e a fizesse lavá-los com escova no tanque. Ou ainda, ficasse de castigo pela traquinagem… Seja qual for a sequência, o que importa é que se tratam de fatos raros nesta segunda década do século vinte e um…

Com o mundo informatizado, facebook, watsapp e tantos outros aplicativos que aproximam os perfis e separam os seres humanos, não há tempo de despertar o interesse de uma criança em se lambuzar de barro num dia de garoa. Sob pretexto de que o menino pode se contaminar com isso, ou aquilo, dificilmente os pais permitem que seus herdeiros sintam a natureza em seus pés…

Mas existe o outro lado da moeda: Este mundo tecnológico e moderno, ainda não está acessível de forma plena ao povão que nem asfalto merece na frente de sua casa. Tudo o que existe de recursos mais modernos, primeiro deve ser oferecido a quem já tem, para depois repartir as migalhas com aqueles que estão às margens da sociedade, pisando no barro e esperando a boa vontade dos engravatados eleitos por esse mesmo povo que ora sofre com o descaso em sua rua…

Queria poder acreditar que, em breve, aquela criança pudesse tirar os chinelos para sentir o barro em seus pés num outro lugar, menos no meio da rua que utopicamente poderia estar pavimentada e sinalizada corretamente…

Márcio Roberto Goes

 www.radioativacacador.com.br

www.portalcacador.com.br

www.cacador.net

Leave a Comment

Abraço da paz

P1040578

Numa manhã de sábado, me encontro com uma amiga e, conversa vai, conversa vem, entramos no assunto de Igreja. A meu ver, seria conversa de compadres, um reforçando a teoria do outro, já que ambos somos Católicos Apostólicos Romanos… Mas como todas as criaturas divinas, somos humanos e limitados no nosso entendimento e cada cérebro interpreta de uma forma diferente. Isso não quer dizer que minha interpretação seja mais, ou menos verdadeira que a dela, apenas prova que na diversidade humana nos tornamos mais divinos quando amamos e respeitamos o próximo com suas crenças e costumes…

Contava minha amiga que o Papa assinou um documento proibindo a música e a circulação durante o abraço da paz nas celebrações litúrgicas sob pretexto de que a igreja não é encontro de recreio para tumultuar e depois fica difícil a volta a calma para a continuidade da celebração… Este assunto é abordado pelo site Dominus Vobiscum ( https://domvob.wordpress.com ), sob uma visão dogmática de uma ala da Igreja que fecha os olhos para a questão humana… De fato, pesquisei alguns sítios católicos e constatei que o documento existe e está disponível no site acima…

Admiro muitas atitudes do Papa Francisco, mas tenho que discordar do fato de se proibir a manifestação popular no único momento da missa em que se tem um contato entre os fiéis. Somos todos filhos de Deus e, como tal, devemos participar de seu reino. A missa é a ceia da ressurreição, a festa da partilha através do corpo e sangue de Cristo consagrados no Altar. Jesus nunca se negou a andar no meio do povo, jamais deixou de abraçar quem quer que fosse só porque não era hora de recreio. Dava atenção a todos, se deslocava a qualquer lugar que precisasse. Era atento a todas as manifestações. Conseguiu até ver Zaqueu que o procurava de cima da árvore e se convidou para jantar na casa dele…

Portanto, proibir de se cantar durante o abraço da paz, proibir o sacerdote de descer do altar para cumprimentar o povo e proibir o próprio povo de se deslocar na casa de Deus para desejar a paz aos irmãos… Tudo isso me parece um ato retrógrado e banal diante da grandeza que se faz no ato de reunir a comunidade para celebrar a vida… A Igreja se faz através de seu povo reunido e, por mais que seja uma celebração para Deus, como argumentou minha amiga, não consigo acreditar que, esse mesmo Deus, seja capaz de ignorar a manifestação popular…

Se o povo quer se abraçar desejando a paz, se quer dar maior destaque a esse momento, se o padre quer descer do tablado e se aproximar dos fiéis, se a equipe de liturgia deseja cantar algo durante o abraço da paz… Que mal há nisso?… Respeito o Papa e todos os líderes da Igreja, mas isso não me obriga a obedecer cegamente, pois acima de qualquer religião, padre, ou pastor, está o amor de Deus que enviou seu filho em sacrifício pelos nossos pecados. Em nome deste Jesus ressuscitado, criaram-se muitos ritos com o passar dos séculos e, às vezes, deixamos os ritos acima da própria fé. Repetimos, todos os domingos a festa da partilha e da ressurreição, mas nem sempre entendemos o que se passa no altar e, alguns líderes, em vez de explicarem ao povo como tudo acontece, preferem proibir sua manifestação…

O sacerdote que ousa desobedecer esta ordem, desce para cumprimentar o povo, quebra protocolos, difunde a religião do amor e da partilha, se preocupando o mínimo possível com o rito e dando mais importância ao povo que celebra junto, respeitando suas manifestações em detrimento às ordens lá de cima. Este sacerdote me representa e tem todo o meu respeito…

Vamos distribuir, sem medo, o abraço, desejando a todos a Paz de Jesus…

Márcio Roberto Goes

www.radioativacacador.com.br

www.portalcacador.com.br

www.cacador.net

Leave a Comment