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Mês: abril 2015

O preço das vidas

 

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O trabalho rotineiro nos impede de observar com atenção o mundo ao nosso redor. Todos os dias chego no Wandão, cumprimento os colegas na sala de professores e subo até a sala mais distante da escola: A última do terceiro piso a esquerda, longe do resto do mundo, sem energia elétrica, mas muito próxima da minha alegria de receber os meus queridos jovens, razão do meu trabalho e da minha luta por uma educação pública de qualidade e humanizada…

Quando falo em humanização da educação, me refiro à maneira de se relacionar com os seres a nossa volta, sejam eles humanos, ou não…

Uma sexta-feira meio cinza, véspera de feriadão, seguia minha rotina normal, cumprimento na sala de professores, respondido por alguns e por outros ignorado, um gole de água no copinho descartável cor de marfim, mochila nas costas rumo às escadas para mais um dia de trabalho no melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas fantásticas: A sala de aula…

No início do segundo lance de escadas, encontro o “Papai Smurf”, cabeça baixa, orelhas murchas, cauda entre as patinhas traseiras. Me abaixo para dar-lhe uma atenção e ele se derrete todo, a orelha se levanta, a cauda também, em movimentos frenéticos, típicos da alegria de um cão quando identifica o interlocutor como amigo… Trocamos alguns carinhos, enquanto isso, ouço uma voz que, pelo discurso, nem fiz questão de saber de onde vinha:

– Quer comprar, professor? Qualquer cinquentão, pode levar…

Claro que o cachorrinho barbudo e nanico não era do dono daquela voz. Deveria ser de outro aluno, pois há dias ele é visto na escola e numa ocasião, pôs-se a chorar, desesperadamente quando encontrou a porta fechada… Chorava um choro doído, comovia os corações humanos e incomodava, pelo barulho, os corações de pedra que preferem o silêncio da desumanidade de uma aula autoritária…

Quem me pediu cinquentão pelo animal? Certamente um desses corações de pedra, tentando fazer uma infeliz brincadeira com a situação… Alguém que, em nenhuma hipótese se agacharia para agradar aquela pequena vida peluda e barbuda, batizada, carinhosamente pela Rosilene de Papai Smurf..

Mas esse conceito de pôr preço nas vidas não foi criado por essa voz misteriosa… Há muito tempo a humanidade vem se achando superiora a ponto de designar valores monetários a tudo, inclusive outras vidas… Um cachorro é uma vida quase humana, a meu ver não tem preço, seja qual for a raça. Aliás, o comércio de animais agrada a todos os envolvidos, menos o animal, pois as fêmeas de raças que têm maior valor comercial são maltratadas na sua integridade física, sendo obrigadas a cruzarem constantemente para dar lucro ao seres desumanos que alimentam esse negócio cruel…

Assim como todos os seres humanos são iguais perante a lei (pelo menos é o que o papel diz), os animais deveriam ser… Penso que toda vida, independente de espécie, ou raça tenha a mesma importância, principalmente se tratando do melhor amigo do homem, afinal, ainda não encontrei bicho mais fiel do que o cachorro. Desta forma, colocar valores diferenciados para esta, ou aquela raça, na minha visão humana, ridícula e limitada deveria ser crime hediondo, pois trata-se de um atendado à vida…

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Mas infelizmente, tenho certeza que as pessoas que enriquecem vendendo vidas, jamais se sujeitariam a dar atenção ao Papai Smurf, pois se trata de um mestiço, adotado por um coração humano o suficiente para fazê-lo sentir saudades quando os dois precisam se afastar por causa dos estudos…

Precisamos aprender mais sobre as coisas humanas com os animais…

Márcio Roberto Goes

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Ervilhas

 

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Penso que a infância seja o melhor período da vida. É nela que formamos nossa personalidade. Nesta etapa, guardamos as melhores e mais marcantes lembranças que nos perseguirão por toda a vida…

Domingo de Páscoa fui almoçar na casa da primeira-dama deste que vos escreve. No cardápio, pratos deliciosos que só a Silvana consegue fazer com o mesmo sabor, tendo a participação especial de seus filhos. Família reunida sempre é um acontecimento antagônico, mas neste caso, só coisas boas ficaram guardadas em minha mente… Um dos pratos foi escolhido especialmente para a minha pessoa e, apesar de não ter sido feito pelas mãos hábeis da minha namorada, me causou profunda nostalgia e alegria…

– É pra você meu amor… Me dizia ela mostrando o potinho com ervilhas recém-tiradas da conserva…

Naquele instante sublime, minha mente me remeteu a minha infância. Eu era um menino, mais ou menos cinco anos de vida. Minha mãe sempre plantava ervilhas e um dos maiores prazeres desta criança que ora redige estas palavras era comer ervilhas diretamente do pé. Guardo até hoje o banquinho no qual eu sentava embaixo desta planta trepadeira que se espalhava ao longo dos andaimes preparados com muito carinho pela minha progenitora. Abria a vagem e comia diretamente dali mesmo, degustava de vagarinho, não era preciso pressa, pois as ervilhas foram feitas para serem profundamente degustadas ao natural, cruas mesmo, com aquele cheirinho característico de hor
ta dos fundos da casa… Se minha mãe deixasse, eu ficava ali por horas sem intervalo…

O tempo e o tabagismo levaram minha mãe para a eternidade, as circunstâncias também me obrigaram a mudar de rotina e de residência. O cotidiano da vida moderna não me permite mais cultivar ervilhas, sequer deleitar-me com elas diretamente da fonte e, há muito tempo, não vejo mais estas sementes ao natural, ainda na vagem. As ervilhas em conserva jamais terão o mesmo sabor daquelas da minha infância, mas me fazem lembrá-las com nostalgia e um sorriso ingênuo no semblante…

O mundo se transforma numa velocidade fantástica, os hábitos mudam, os conceitos se alteram, mas nada me fará deixar de aproveitar, se um dia puder sentar num banquinho de madeira novamente embaixo de um pé de ervilha e ficar lá por horas colhendo, vagem por vagem, abrindo-as e degustando um dos maiores sabores da minha infância…

A vida é muito simples, a felicidade é ingênua… Nós, seres humanos, é que complicamos tudo, começamos a fazê-lo a partir do momento que nos julgamos uns melhores que outros por causa de fatores externos…

Eu era feliz no meio das ervilhas, continuo feliz, de uma felicidade diferente, nostálgica, perdeu um pouco da ingenuidade, mas sempre é um prazer imaginar-me de novo uma criança inocente comendo ervilhas diretamente do pé… Ainda sinto o gosto, o cheiro e a imagem daquela planta que, aos cinco anos, me parecia enorme…

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Como seria sublime se a humanidade entendesse a simplicidade e a ingenuidade da vida através da natureza. Quem sabe assim, nos tornaríamos mais humanos… Uma utopia, pois as crianças de hoje jamais terão as mesmas sensações diante das tecnologias que aproximam os perfis, mas afastam os seres humanos e a natureza…

Simplesmente jogaram minha infância dentro de uma lata para conservar por mais tempo, porém ao abrir o recipiente, percebe-se que a inocência já não é mais a mesma, foi contaminada por conservantes, corantes e muitos outros subterfúgios que a humanidade usa para mascarar a realidade e a efemeridade da vida…

Márcio Roberto Goes

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A greve e a Semana Santa

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Semana Santa, ao contrário do que muita gente pensa, deveria inspirar as lutas populares, em nome daquele filho de carpinteiro, revolucionário e visionário que lutava contra as autoridades em busca de um mundo melhor…

Na terça-feira, a caminhada triunfal pelas ruas do centro da cidade… Não tinha um jumentinho com o messias em cima, nem aclamação com ramos de oliveira, mas tinha muitos trabalhadores em educação da rede estadual buscando melhores condições de trabalho, tentando conquistar novos direitos, ou pelo menos, garantir aqueles que já existem… A cidade parou para ver a luta que deveria ser de todos os munícipes, afinal, a educação gera todas as outras profissões e ajuda na formação de todos os cidadãos…

Mas os professores não pararam por aí. Alguns representantes foram às cidades vizinhas falar sobre suas ideias e suas lutas, aumentaram a equipe… Muitos alunos também aderiram a luta, em especial, estudantes da Escola Wanda Krieger Gomes, que há meses passam por calamidades sucessivas sem uma resposta definitiva dos órgãos responsáveis. Prometem isso, prometem aquilo, mas em nenhum momento o caso foi tratado com a urgência que merece. Pelo contrário, tentam mascarar a realidade, dizendo que tem salas de aula o suficiente no segundo piso com energia elétrica para abrigar o noturno… O fato do terceiro piso não ser usado por falta de energia e um telhado que não abriga ninguém da chuva na área de convivência só prova o desperdício e o descaso com um investimento que sai de nosso bolso a cada centavo de impostos que pagamos e são revertidos para o estado administrar…

O povo se divide entre aqueles que são contra e os a favor da greve do magistério público estadual. O governo que tem a máquina administrativa nas mãos e, por isso, consegue maior espaço na mídia, deixa transparecer a sua versão dos fatos. Não quer admitir que está tratando com descaso aqueles que fazem o que podem para ajudar nossos filhos a descobrir o gosto pelo conhecimento. Tentam convencer os desavisados a libertar Barrabás e deixá-lo agir em favor dos tiranos que, como sempre, lavam as mãos…

Os professores, por sua vez, levam chicotadas morais subindo o calvário da luta da categoria. Pelo caminho encontram o Simão Sirineu, membro da comunidade, aluno, pai, ou mãe que os ajuda a carregar a cruz do descaso… Algumas pessoas se comovem, se emocionam, mas não fazem nada além de chorar. Nossa resposta é uma paráfrase do próprio Jesus Cristo: “Não chorem por nós, chorem pelos seus filhos”, se esta realidade não mudar, são eles que vão sofrer cada vez mais com o caos pelo qual as autoridades deixaram a educação pública chegar…

Querem nos matar pelo cansaço, querem calar nossa voz, pregar nossos pulsos e pés, nos imobilizar… Porém, mesmo amarrados, continuaremos a luta, mesmo que tenham a ilusão da nossa morte, removeremos a pedra da desatenção com a força da mobilização e, quando pensarem que nos calaram para sempre, ressurgiremos ainda com mais disposição para garantir nosso direitos e o direito da sociedade ter uma educação verdadeiramente de qualidade…

“Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão”… Se tentarem nos derrubar, ganharemos impulso e força para lutar ainda mais…

Márcio Roberto Goes

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