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Mês: maio 2014

As igrejas da Igreja

“Tu és pedra e sobre ela, edificarei minha Igreja…” Mt 16, 18

Com estas palavras, Jesus delegava a Pedro a difícil missão de prosseguir com sua obra aqui na Terra… Poucas palavras dentro de um contexto histórico, filosófico e religioso que, com o passar dos tempos, deu margem a inúmeras interpretações… Uns dizem ser Pedro o primeiro papa, outros acreditam que o papa é o anticristo, outros ainda nem têm consciência disso e vivem sua fé melhor do que se soubessem de todos os detalhes…

A verdade é que, em quase dois mil anos de história, muitas coisas aconteceram e me parece que Jesus não sonhou com a maioria dos acontecimentos, em seu nome, depois de sua morte e ressurreição: Guerras sangrentas, perseguições, venda de indulgências, cruzadas, inquisição… Um profundo desrespeito ao que não comunga com a mesma fé… Imagino Jesus, à direita de Deus, angustiado dizendo: “Pai, pelo amor de Deus, ou seja, pelo Teu próprio amor, deixa eu descer de uma vez pra avisar este povo que não foi isso que ensinei a eles…” E Deus, na sua infinita paciência, sinalizando com a mão para esperar mais um pouquinho… De fato, a Bíblia diz que nem o próprio Jesus sabe a hora que deverá voltar à Terra numa nuvem, ao som das trombetas e tals…

Hoje, não vemos muita diferença em relação a idade média. O único detalhe é que, em nome de Jesus, existem milhares de denominações que se dizem: igreja… Pior: cada uma delas acha que é a única certa… Todas elas, em alguns aspectos, continuam vendendo indulgências, condenando quem não acredita da mesma forma, perseguindo e matando moralmente quem não anda na mesma linha… Ou seja, as igrejas continuam incontestáveis… Mas, como não contestar algo que se dividiu tanto durante a história?

O amigo e a amiga leitora devem estar pensando que enlouqueci, pois todos sabem que sou Católico Apostólico Romano Praticante. Não é verdade, ainda não estou louco, apesar de ter laudo do psiquiatra… Continuo professando a mesma fé, mas me parece que muitos irmãos desta e de outras Igrejas, inclusive lideranças de paletó, gravata, ou batina, deturbaram o sentido da palavra: cristão… Portanto, percebo várias igrejas dentro da mesma Igreja, seja Católica, ou Evangélica e resolvi classificá-las…

A igreja do Louvor: É aquela que louva, treme, chora, dança, cai e levanta na presença do Senhor. Maravilhosa! Os fiéis desta classificação dizem se sentirem muito bem depois que saem de um encontro, ou culto, vão para casa e querem levar o amor de Deus a todas as pessoas ao redor. Agradecem pela casa, ou casas… pelo carro, ou carros… e outros bens materiais que conseguiram pela providência divina… Porém, em muitos casos, não enxergam o irmão necessitado diante do nariz e, quando o ajudam, tentam convencê-lo de que só terá sucesso quando se converter para sua placa religiosa…

A igreja do divino lucro: O dízimo é bíblico e necessário para a manutenção da igreja enquanto instituição, afinal, existem gastos como energia elétrica, abastecimento de água, materiais e produtos de limpeza, manutenção e impostos (Será?)… Porém, alguns fiéis só contribuem financeiramente por acreditarem que terão um retorno também financeiro para seu dízimo pelas mãos de Deus. Comparam, mesmo que involuntariamente, o Criador com uma instituição bancária que vai guardar seu dinheiro. e devolver com juros… Pouquíssimos cristãos entendem o dízimo como partilha, generosidade, ou seja, contribuir de forma espontânea e generosa para a manutenção da casa de Deus. E o dízimo não nos absolve de ajudarmos alguém necessitado. Este dinheiro deveria ser dado generosamente para manter os custos da igreja e não para receber de volta como bens materiais. Deus não faz negócios capitalistas…

A igreja da avareza: percebe-se que, muitos líderes de todas as igrejas cristãs comungam desta ideia e se mantêm escondidos num terno, ou numa batina, para arrecadar o máximo possível e sustentar seus votos de pobreza… Nas mãos destes reverendos, até os imóveis da instituição são alugados a terceiros para arrecadar fundos e, quando seus fiéis, sobretudo jovens, necessitam das dependências físicas, muitas vezes abandonadas, recebem a ordem de usar somente aquilo que não estiver ocupado por aqueles que nem sabem pra que serve uma igreja…

A igreja do status: Formada por pessoas extremamente vaidosas, embora não admitam. Os adeptos desta ramificação, só aparecem nas celebrações quando acham conveniente: batizados, casamentos, velórios, natal, páscoa… Como se Deus precisasse de data, ou ocasião, para ser procurado. Para estes pseudo-cristãos, o fotógrafo é mais importante que o celebrante, ou pregador, a roupa é mais importante que o sacramento, ou o momento de fé… O culto e a missa não passam de um show. Tudo é lindo e maravilhoso, mas sua vivência de fé termina ao dar o primeiro passo fora da igreja e, em alguns casos, não acontece nem mesmo dentro do templo…

A Igreja da partilha: A melhor de todas… Aliás, a única, a meu ver, que vive o Evangelho de Jesus… Pregada e vivida pela teologia da libertação, no caso da Igreja Católica, mas pode-se perceber adeptos deste verdadeiro cristianismo em todas as Igrejas que pregam o Evangelho de Jesus Cristo. A Igreja da partilha leva o Evangelho e as obras a toda criatura que estiver ao redor, sobretudo os que têm fome física e moral, buscam justiça social e libertação das amarras do capitalismo selvagem que só dá poder a quem já é poderoso…

Ali, na Igreja da Partilha, estão os verdadeiros cristãos, que dobram os joelhos em oração sim, mas também estendem a mão a quem precisa, além de orientá-los religiosa e politicamente… Sim, igreja é política, não aquela partidária, mas a política em si, que organiza a vida das pessoas… Os adeptos desta ramificação cristã, nunca se calam diante das injustiças… Estão sempre na luta em favor das causas populares. Seus líderes estão no meio do povo, falando sua língua, comendo seus alimentos e vivendo sua cultura, não precisam de roupas especiais para viverem seu ministério, evangelizam sempre e, às vezes, usam palavras…

Esta que chamo a Igreja da Partilha já existe, é conhecida por alguns, desconhecida por tantos, compreendida por poucos e vivida por pouquíssimas pessoas… Mas é a única que verdadeiramente converte e traz benefícios coletivos… A Igreja da Partilha…

Márcio Roberto Goes

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