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Mês: maio 2013

Maria da Penha às avessas

 casal

Eles eram recém-casados… Ela, uma moça de família pobre, perdera os pais muito cedo e vivera por conta dos seus irmãos mais velhos, nunca tivera um lar de verdade, vivera a custa de xingamentos e exclusões… Ele, igualmente pobre, porém vindo de uma família bem estruturada, cujos pais ficaram juntos mais de trinta anos, quando houve a separação por conta da morte de um deles…

O casamento foi uma festa simples, mas de muito bom gosto… Todos os convidados se disseram satisfeitos…

Passou-se um mês, dois, passaram-se nove meses… Um dia, ele teve que chegar mais tarde do trabalho e ela o recebeu com insultos e agressão verbal… Ele foi tentar se justificar, mas levou um tapa no rosto, vindo de sua amada… Naquele dia ele chorou… Chorou o choro doído de quem não é compreendido… O choro doído de quem sente que a dor psicológica supera qualquer dor física… Ela também caiu no choro… O choro dos arrependidos, dos que se sentem mal-amados, mesmo tendo todo o amor do mundo… Ela se arrependeu, ele perdoou…

Passado algum tempo ele, ao volante para numa esquina pra esperar algumas pessoas atravessarem a rua… Ela, do banco do caroneiro sisma que ele ficou olhando para as mulheres que passavam a sua frente, ele tenta explicar, mas é surpreendido por uma sequência de socos na barriga que quase lhe tira o fôlego, faltando pouco para não causar um acidente de trânsito… Ele para o carro… Ela grita com ele… Ele grita com ela e é revidado com mais um tapa na cara… Ambos choram novamente, se perdoam e seguem seu dia…

Tarde da noite, os dois em casa. Ela arrumando o quarto para o sono dos pombinhos, ele assistindo TV e resolve pular os canais aleatoriamente… Por dois segundos aparece na tela uma mulher seminua. Ela entra no ambiente justamente naqueles dois segundos e começa o julgamento… Ela grita com ele, ele tenta se justificar em vão… Ela toma o controle remoto de suas mãos, ele senta novamente no sofá e permanece olhando a TV a fim de não continuar a encrenca… Ela desliga a televisão, joga o controle no chão aos gritos, espatifando-o em uma centena de pedaços… Ele permanece calado… Ela pula por cima dele e o agride fisicamente de novo… Ele segura forte em seus braços… Ela reclama que ele está machucando a pobrezinha… Ele solta… Ela diz que vai chamar a polícia… Ele pega o celular dela e a entrega para que faça a ligação… Pobre celular, teve o mesmo destino do controle remoto… Depois de muito choro, se perdoam e vão dormir em paz, sem TV e sem celular…

Outra noite, ele fica até mais tarde ao computador… Ela vai reclamar, diz que ele só fica naquele computador e esquece que tem uma mulher em casa, que ele só pode estar vendo pornografia e que ela não aguenta mais tanta indiferença… Completa dizendo que precisa de carinho e atenção e ele não lhe oferece isso… Ele, para evitar briga, permanece ao computador sem proferir uma palavra… Ela arranca a tomada da parede… Ele continua trabalhando com a bateria, mas olha para ela… “O que foi?” – Pergunta ele… “Tenho vontade de te bater.” – Responde ela… Ele tira os óculos e oferece a face… Ela bate com toda força… Ele oferece a outra face… Ela repete o carinho… Ele levanta da cadeira e se dirige até a porta ofegante… Ela o segura e conclui com mais dois tapas no rosto e socos pelo corpo…

Cansado disso, ele segura sua amada com toda a força pelo braço e a encosta na parede dizendo olho no olho, pausadamente em voz alta o suficiente para a velha surda da casa ao lado ouvir: “Você nunca mais vai fazer isso comigo!”…. De fato, nunca mais ela o agrediu, pois ele está preso, enquadrado na lei Maria da Penha…

Márcio Roberto Goes

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Carta-resposta de um inadimplente

Prezado credor;

Creio que vossa senhoria não me conheça, sou apenas mais um número nos seus registros de clientes que foi lembrado quando resolveu me enviar a correspondência que agora respondo mui cordialmente.

O senhor me mandou uma carta, gastou papel, tinta e contribuiu para o desmatamento só para me dizer aquilo que já sei: sou um inadimplente. Recebi, na citada correspondência, a informação de que não consta em seus registros o pagamento de minha dívida… Óbvio, pois eu não paguei mesmo…

Venho pois, por meio desta, justificar minha inadimplência… Sou mais uma vítima da crise capitalista, que aliás, só atingiu realmente, os pobres, porque aquela pequena porcentagem da população, a qual o senhor pertence, que concentra a maioria esmagadora da renda deste país, teve prejuízos muito menores que os meus…

Ano passado, quando fechamos o contrato, meu salário era o dobro de hoje… O senhor pode alegar que também está em crise e que as vendas de seu estabelecimento diminuíram pela metade. Acredito e não ouso discordar de seus argumentos, mas quero deixar bem claro que a sua metade é infinitamente maior que a minha… Além disso, como no ano passado minha renda era razoável, tive que me explicar com o leão no começo deste ano, e precisei parcelar o imposto de renda em oito suaves prestações que resultaram numa enorme cratera em meu orçamento mensal… Mesmo assim, não nego minha dívida. E vossa senhoria que sonegou impostos ao me vender sem nota fiscal?… Tudo o que recebi foi uma tripinha de papel com uma impressão horrível que já desapareceu, só restou a folha em branco com o timbre de sua empresa no verso…

Como se não bastasse, aquele banco que era do nosso estado e agora virou um “BBB”, resolveu ressuscitar uma dívida que nem eu lembrava, para tomar mais uma preciosa parte de meus honorários mensais com a garantia de que eu teria o crédito liberado novamente… Mas não foi isso que aconteceu, acabei ficando com mais um boleto para pagar e uma tal de restrição interna… Fizeram isso porque sou proletariado, pois se fosse mais um empresário bem sucedido as custas de seus humildes funcionários, engravatado e de fala macia, com certeza teriam negociado mais generosamente comigo.

Na cordial e bem redigida carta a mim enviada, consta a informação de que se eu não regularizar o pagamento no prazo estipulado pela sua empresa, serão tomadas medidas legais, ou seja, cobrança jurídica terceirizada… Certamente minha caixa de correios vai receber mais uma correspondência, com um remetente intitulado “alguma coisa advogados”, ou “tal coisa capitalização”. Nomes de efeito assustador, mas que não mudam, em nada minha situação nem a sua, só contribuem para inflamar ainda mais nossa relação comercial… Aliás, as medidas legais não foram lembradas quando houve sonegação de impostos e cobrança de taxa pela emissão do boleto, práticas que eu e você sabemos ser igualmente ilegais, aliás muito mais que minha dívida, da qual tenho total ciência… Mas também tenho conhecimento de minhas condições atuais.

Vossa senhoria pode estar em crise também, mas enquanto seu filho estiver dormindo confortavelmente, o meu chorará de fome se acaso eu optar por render-me às suas ameaças e pagar o que lhe devo imediata e preferencialmente… Sua crise, não lhe baixa o nível social, a minha está furtando silenciosamente a dignidade e a pouca qualidade de vida que ainda resta…

Por fim, se ao receber esta correspondência, por um milagre, minha dívida já estiver quitada, favor desconsiderar o conteúdo desesperadamente aqui escrito.

Márcio Roberto Goes

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