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Mês: abril 2013

Buraco aberto

 
Estou feliz em estar beirando os quarenta ainda com os dentes originais… Tenho todos… Quase todos… Dois não nasceram depois que caíram os seus respectivos dentes de leite há três décadas e meia atrás… Não sei o que houve, mas nunca me fizeram falta, os outros trinta dentes têm realizado um bom trabalho. Alguns já foram restaurados, outros mortos com tratamento de canal, mas continuam todos ali, desempenhando com eficiência seu papel…

Ocorre que uma destas restaurações não resistiu ao tempo e caiu, cedeu, sucumbiu… O buraco ficou aberto… Terrível situação, pois cada alimento que entra na boca parece ter uma curiosidade incontrolável de se jogar naquela cratera deixada pela obturação que até agora não encontrei, Deve ter percorrido o mesmo caminho dos alimentos e nem tive a curiosidade de procurar… Cada refeição é uma batalha pra manter o buraco intocável, já que é extremamente difícil retirar o alimento suicida de lá, depois que se joga…

Procurei um dentista particular, mas minha situação sócio-econômico-financeira não permitiu que eu desembolsasse a quantia estipulada por este e outros serviços que ele disse serem necessários para uma melhor saúde bucal, além de pedir uma radiografia panorâmica dos meus maxilares… O buraco continuou aberto… E eu reaprendendo a mastigar para não afetar o pobrezinho…

Fui até o posto de saúde requerer a devolução de um pouco dos impostos que paguei a vida toda em forma de obturação… “Volte no último dia do mês para marcar”… Me disse a atendente… Foi o que fiz: Vinte e oito de fevereiro, às oito horas da manhã, lá estava este que vos escreve numa fila quilométrica esperando para marcar o dia em que, finalmente, teria a solução para o buraco aberto… E a consulta foi marcada para vinte dias depois…

No dia e hora marcados, ainda com o buraco aberto, lá estava eu na fila novamente, esperando para ser chamado… Atendidas as emergências primeiramente, chegou então minha vez… A dentista olhava atentamente minha boca escancarada e dizia para sua assistente alguns números e palavras estranhas que ela, obedientemente, anotava… E se dirigindo a este que vos digita estas palavras: “Hoje vamos fazer uma limpeza com flúor. Mandamos um encaminhamento pra você fazer radiografia de dois dentes e você volta em um mês”… Falei da falta que sentia dos meus dois dentes que nunca nasceram e dos sisos que eu pensava também não terem nascido… “Como não? – Me interrompia a moça da máscara branca – Este dente que caiu a obturação é um siso e vamos ter que extrair…” Não gostei da ideia. Meu dente que agora descobri se chamar siso, nunca me causou problemas, só está com um buraco aberto que pode ser tapado, perfeitamente, por uma obturação. Ele não tem culpa de ser deficiente… Então, se uma pessoa tem um pedaço faltando, temos que extraí-la da sociedade? Não é bem assim… Gosto do meu siso e não quero perdê-lo… Mimimi…

Lá fui eu para casa, novamente com o buraco aberto, mas agora eu tinha uma requisição para fazer uma foto do dente emburacado e outra do seu colega de baixo… À hora e dia marcados, esperava eu no CEO (Centro de especialidades odontológicas) para fazer as radiografias… Foi rápido. Em dez minutos tinha nas mãos as fotos três por quatro dos meus dois dentes queridos… Achei tão lindo. Como uma pessoa pode querer arrancar um dente tão lindo só porque tem um buraco aberto?…

Um mês depois, fila de novo para ser atendido, até que sai alguém na porta do consultório para dar o aviso: “Os dentistas estão em curso. Vamos remarcar as consultas?”… “E as emergências?” – Indagava alguém – “Neste caso, devem procurar outro posto”… Minha consulta então foi remarcada. Tenho que esperar mais um mês… Um mês tentando mastigar só do outro lado… Um mês tapando o buraco com todo tipo de alimento e destapando penosa e demoradamente… Porém, me sinto feliz, pois com ou sem buraco, tenho mais um mês para curtir a companhia do meu siso querido condenado à eutanásia só por causa de um buraco deixado por uma obturação que caiu…

Meu querido e amado siso, sei que temos pouco tempo ainda juntos, portanto, vamos aproveitar ao máximo o resto de sua curta vida… Cuidarei de você esses trinta dias com se cuidasse da própria vida. Não deixarei nenhum fiapo de carne, grão de arroz ou de feijão ameaçarem teu sossego para que tenha uma morte o mais confortável possível… Afinal você merece, ajudou-me a mastigar durante muito tempo. Cumpriu com perfeição o seu papel e agora está condenado à morte… Vamos viver estes últimos momentos em paz conosco e com os alimentos…
Márcio Roberto Goes

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Fazia tempo…

 

Como as coisas mudam numa velocidade absurda… Acho que já fazia um mês que não me posicionava nesta cadeira de palha, já que aquela executiva, vermelha da cor da luta socialista, acolchoada, de rodinhas está sem uma roda e cada vez que o corpo pende pra um lado é um tombo… Já faz cerca e trinta dias que não me sento em frente à escrivaninha, que agora acumula também o cargo de um dos estúdios da Web Rádio Ativa Caçador… Enfim, venho aqui todos os dias, mas já fazia algum tempo que não me ajeitava confortavelmente ao computador para escrever aquilo que gosto de chamar de crônica… Fazia tempo… Muito tempo… Trinta dias é uma eternidade pra quem acostumou-se à rotina da escrita quase que diária…

E neste tempo, muita coisa mudou… Minha casa mudou, construí mais um puxadinho que permanece inacabado… Meu quarto cedeu cinquenta por cento do espaço para o trabalho voluntário na rádio… Minha cozinha juntou-se à sala, tendo apenas meia parede dividindo os ambientes e uma forração reciclada no assoalho da parte que recebe umidade…

Minha rua mudou… Recebeu asfalto até na esquina, onde bifurcou-se, recusando-se a passar em frente à minha casa… Meu bairro também sofreu mudanças: Ergueram um palco espetacular, montaram um som espetacular, reuniram uma plateia espetacular, após uma propaganda espetacular pelas ruas. Tudo com dinheiro público, ou seja, eu e você pagamos um mega espetáculo só para reunir autoridades politiqueiras a fim de assinar ordem de serviço para reforma de uma escola e construção de uma praça cheia de recursos que, certamente nos ajudarão a não precisar de deslocamento até o parque central para se ter entretenimento gratuito e de qualidade… As obras, que ficarão prontas, sabe Deus quando, são de suma importância, não se pode negar. Porém este dinheiro todo que foi gasto no espetáculo para a assinatura da ordem de serviço, poderia ter sido muito mais útil, se fosse aplicado na própria obra que, esperamos, não seja superfaturada…

O mundo mudou… Temos um novo papa… Argentino… Vizinho nosso… Primeiro latino- americano a chegar a tal cargo… Deveríamos nos orgulhar de tal fato, porém, por conta de nossa rivalidade futebolística com “los hermanos argentinos”, muita gente achou a ideia péssima, já que agora, além do Maradona e do Messi, eles têm o papa… Lastimável o fato de a maioria dos cristãos do país com maior número de católicos do mundo, pensarem egoisticamente, comparando uma liderança religiosa com o futebol… Pior, remetendo a rivalidade de um para o outro… Jorge Bergoglio nasceu na Argentina, mas a partir do momento em que se tornou papa, como fazem todos, renunciou ao seu nome de batismo para assumir o nome de Francisco. Portanto, a partir de então, não tem mais nacionalidade, sua nação é a Igreja Católica Apostólica Romana…

Tantas coisas mudando e se transformando ao meu redor, pessoas se afastando, outras se aproximando… Vivo, todos os dias, novas situações e descubro novas maneiras de lidar com as velhas… Mas ainda não resolvi um grande problema… O tempo passa e minha cadeira de escritório, acolchoada, vermelha, de rodinha, com regulagem de altura continua em desuso por falta de uma roda… Estou me sentindo o pior dos homens, pois pratico bullying diário contra ela que só serve para abrigar algumas roupas que esperam para serem passadas…

 

Márcio Roberto Goes

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A volta dos sonhos azuis

 

Foi-se o tempo em que o maior sonho do João era ter um fusca azul, da cor de seus sonhos… Realizou, teve sua história escrita num romance, casou, descasou, namorou, “desnamorou”… Sonhou “desonhou”…

Seus sonhos foram se somando: Um grande amor… A casa própria… A valorização pessoal e profissional… A vivência da fé exemplificada por sua mãe há quase dez anos falecida, porém viva em seus costumes, gestos e no coração… Nunca teve pretensões materiais… É um homem de hábitos e costumes simples… Simples como a vida, como a família, como um fusquinha azul da cor do céu…

Muitas pessoas o influenciaram e o fizeram mudar conceitos. Casou-se e trocou de carro. Para a cônjuge, um fusca não era um carro digno… O casamento durou longos nove meses… Mudou de vida, seus hábitos e costumes já não eram mais tão simples como antes… Tornara-se um homem exigente, sisudo, rancoroso, mau humorado… Pensava, erroneamente estar feliz. Todos o alertavam, mas seu coração iludido não dava ouvidos… Era enfim, outro ser humano, do jeito que a sociedade lhe impunha. As pessoas ao seu redor, não alimentavam nele a ideia de que sempre é melhor agir com bondade… Deveria ser vingativo, não podia levar desaforo para casa…

João então resolveu continuar lutando pelos seus ideais de sempre, porém procurou a forma errada e despertou a fúria de seus líderes… Queria uma educação de qualidade, humana, solidária… Queria, como sempre quis, trabalhar com amor, de rer humano para ser humano… Não de professor para aluno… Foi mal compreendido, foi condenado… Todos lhe apontavam o dedo julgando seus atos que lhe aproximavam cada vez mais dos alunos como seres humanos que são… Lutaram e conseguiram (Ou quase) destruir sua moral… Afastaram por um tempo o problema… e o problema era ele: O João, seus sonhos azuis e seus ideais de uma sociedade mais justa e igualitária…

Mas o problema voltou… Porém, antes da volta, João dos sonhos azuis resolveu retomar seus ideais e tentar novamente da maneira que julgava certa: com amor, simplicidade e fé… Provou novas situações, mudou novos conceitos e voltou aos velhos com roupagem nova… Adaptou seus sonhos, mas os manteve simples e solidários… Teve outras namoradas até a definitiva, em quem encontrou toda a simplicidade que buscava. Ela não sabia ser tão simples, teve que descobrir-se também… Sonharam juntos, amaram juntos um ao outro e aos animais… Lutaram pelos mesmos ideais até que o destino os afastou e, pouco tempo depois, inevitavelmente, os aproximou novamente…

Numa certa tarde de outono, nosso sonhador de sonhos azuis resolve recomeçar… Desejou, profundamente voltar a ser aquele sonhador entusiástico e combativo de sonhos azuis que estava quase sepultado no cemitério dos sonhos que morreram precocemente… Ressuscitou seus ideais e recomeçou a luta… Só a intenção já magnetizou seu mundo de volta… Voltou a trabalhar em rádio, mesmo que voluntariamente… Retomou seu trabalho com a juventude… Novamente começou a ouvir e ajudar seus alunos nos assuntos sérios da adolescência que os adultos julgam bobagem de momento… Retornou a pensar com o cérebro do povo e não daqueles que sentam na cadeira de quem pensa que manda… Tudo isso, acompanhado da maior crise financeira que já vivera… Teve que perder tudo para poder recuperar só aquilo que o faria simples e feliz como outrora…

Mas ainda faltava um pequeno detalhe… Algo que iria enterrar de vez a coroa da simplicidade em sua cabeça sonhadora de sonhos azuis… O fusquinha… Jogou fora todo o luxo da indústria automobilística que a sociedade lhe impunha para uma pseudo-felicidade e foi em busca do terceiro besourinho de sua vida… Encontrou de todas as cores: areia, verde, branco, prata… Modelo novo, antigo, inteiro, carente de manutenção… Mas nenhum o agradava.. Nenhum o chamava a atenção como seu primeiro há dez anos… Até que um belo dia, ao passar numa revendedora, tem a mesma emoção de uma década atras… Lá estava ele: Lindo, inteirão, charmoso como todo fusca, seu olhar encontrou os faróis e trocaram brilhos… Azul, da cor do céu, da cor de seus sonhos ressurgidos das cinzas…

João então completou sua volta à vida simples e sonhadora… Voltou a ser o cidadão pacato de hábitos simples, de riso fácil e generoso, voltou a ser o João dos sonhos azuis, da cor do céu, limite de quem sonha com a justiça, da cor de seu fusquinha… Voltou a viver… Voltou a escrever… Voltou a sonhar… Sonhos azuis…

 

Márcio Roberto Goes

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