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Mês: janeiro 2013

A teoria que desencanta

Certa vez, fiz uma avaliação com meus alunos… Pouca coisa: Uma produção de texto que destacasse a importância do estudo da Literatura para alunos de ensino médio. Deveriam, para isso, valer-se de argumentos retirados dos conteúdos de Literatura, gramática e produção de texto trabalhados em sala… Teriam duas aulas para fazer a prova e poderiam consultar tudo o que estivesse ao seu alcance, inclusive o colega…

Foram devidamente avaliados por mim e as respectivas notas (nenhuma menor que sete) registradas no diário que ainda insiste em nos convencer que devemos resumir o conhecimento de nosso aluno num número. Na folha de avaliação, somente um “visto” e minha rubrica. Nada de números… Os professores de matemática me perdoem, mas colocar um número de um a dez em vermelho no trabalho do aluno não reflete a qualidade de sua produção, além de ser um fator excludente, pois aqueles que tiram melhores notas têm subsídios suficientes para humilhar aqueles com notas menores que a sua… Meus colegas das exatas: prefiro que os números fiquem somente nos cálculos que já são difíceis de ensinar de forma prazerosa por vocês em sala de aula…

Muitos me perguntaram: “Cadê minha nota, professor?”… “Está no diário”… Respondi imediatamente… “Então diga nossas notas”… Quando o professor atende um pedido desses, comete um erro gravíssimo que acontece em todas as escolas por onde passei… A divulgação de notas em público, não deixa de ser uma forma de bullying contra aqueles que não alcançaram aquilo que exige o sistema… Outra coisa humilhante é divulgação de resultados finais no mural. Todos verão quem passou e quem reprovou… Poderão parabenizar os aprovados, mas também terão a chance de humilhar os reprovados… Que tal a gente discar 100 e denunciar isso também?…

Perguntei a um aluno, qual a razão de querer saber a nota da prova. Ele me respondeu que queria saber onde poderia melhorar. Pedi que sentasse ao meu lado com seu texto e fizemos, juntos, a correção. Naquele instante, nem eu nem ele lembramos da nota. Ele se tornou um dos melhores alunos escritores daquele ano…

Quantas vezes cortamos as asas do nosso aluno só pelo fato de o tratarmos como número. Não o deixamos voar. Queremos que ele espere a sua nota e, quando atingir o tão sonhado 10, não precisa mais se esforçar. Afinal, chegou ao topo, já tem a nota máxima, não há necessidade de melhorar, já está moldado na forma da educação tradicional…

Até que ponto uma nota dez no boletim ajuda na vida cotidiana do estudante? Conheci uma pessoa que foi aprovada no segundo ano de ensino médio com quarenta pontos em Língua Portuguesa… No terceiro ano, sua professora lhe pediu que produzisse uma dissertação argumentativa e ela não havia conseguido desenvolver, sequer um parágrafo, mesmo tendo visto todo o conteúdo necessário para realizar aquela tarefa no ano anterior… Suas notas estavam no topo, mas seu conhecimento não passava de teoria… Nós, professores, insistimos em ensinar um monte de regras inúteis que só servirão para o aluno odiar ainda mais as linguagens. E o pior é que, muitas vezes nós mesmos as julgamos sem serventia, mas ensinamos para não fugir ao planejamento… Aliás, planejamento feito por nós mesmos, muitas vezes repetido ao passar dos anos, tendo somente a capa e folha de rosto modificadas…

Para inflamar ainda mais as críticas ao meu trabalho, resolvi aplicar a mesma prova no exame final. Desta vez, é claro que o aluno não teve direito a nenhuma consulta… “Assim todos vão ser aprovados na tua matéria”… Me criticava alguém…. Mas nem todos alcançaram a vitória, pois a meu ver, um aluno de ensino médio deve ler, analisar e produzir bons textos. Não me importa se ele não souber fazer perfeitamente uma análise sintática (A maioria de nós, graduados em Letras, também não sabemos), o que realmente vai torná-lo um cidadão melhor e atuante na sociedade é aquilo que ele interpreta dela, por consequência forma uma opinião e busca soluções… Isso deveria ser o grande objetivo dos professores de todas as disciplinas. Ocorrendo isso, certamente nosso aluno se tornaria um adulto maduro e impossível de ser manipulado pelas autoridades que já começam abusando de nossa inteligência e cidadania com a compra de votos nas eleições democráticas e corruptas que temos a cada quatro anos…

Portanto, vamos nos unir, professores, alunos e comunidade, a fim de trabalharmos aquilo que realmente vai fazer nosso aluno crescer enquanto cidadão… Façamos o nosso trabalho, sem criticar outras escolas e professores anteriores do nosso estudante… O aluno é um ser humano e deve ser tratado como tal… Mas ele deve saber que os professores também são humanos e passíveis de erros, enganos e atitudes errôneas… Escola é lugar de gente… E gente está sempre aprendendo e ensinando, independente de situação, ou títulos que carrega…

 

 

Márcio Roberto Goes

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Extraoficiais

 

Ninguém sabe. Ninguém viu. Ninguém presenciou. Ninguém falou por falar…

Por que então a fofoca se espalhou? Por que a difamação se alastrou? Por que as informações extraoficiais tiveram destaque infinitamente maior que as oficiais?

Cada um com uma pedra na mão, pronto para atirar… E atiraram… Esqueceram-se da frase do mestre: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”… Acertaram o alvo… Perceberam as consequências da mira certeira e se arrependeram… Também eram pecadores, mas estavam na onda da condenação. Afinal, pisar em quem já está no chão é muito mais fácil e cômodo, além de fazer o pisador se sentir superior…

Mas o mundo não para. Ele gira rapidamente e os papéis podem se inverter. A mesma mão que atira a pedra hoje, amanhã pode se estender para pedir ajuda a fim de se livrar das pedradas da vida… Quem está no grupo dos apedrejadores agora, no futuro poderá ser o alvo…

E os boatos se espalham, a fama aumenta, uma grande porcentagem acredita no extraoficial, atira pedra também e manda para frente, esperando que mais gente apedreje e emende mais uma informação à bola de neve que desce a montanha… A bola, por sua vez, vai ganhando tamanho, velocidade e onde passa, vai arrastando tudo o que encontra. É aí que os atiradores de pedra recebem sua recompensa, pois a bola que desce a montanha devolve muitas das pedras à plateia. “Eu não tenho nada com isso”, diz alguém que há pouco atirou uma pedra… “Nem o conheço”, justifica outra testemunha ocular… “Eu vi. Foi bem assim”, fala alguém que não estava presente ao fato… E o galo canta, profetizando a condenação da língua humana…

O fato… Os olhares… Os comentários… O julgamento alheio… Os boatos… Mais boatos… Outros boatos… Milhares de boatos… O que aconteceu de verdade?… Ninguém sabe!… Ficaram presos às fofocas e esqueceram a essência…

O que aconteceu? Foi assim. Foi assado… Não foi… Fez… Não fez… Quis… Não quis… Todos têm uma informação nova. Uma nova acusação. Ouvem pela metade e completam a seu gosto…

O que mesmo aconteceu?… Ninguém sabe… Ninguém viu… Poucos ouviram… Poucos escutaram… Mas todos falaram… Todos julgaram…

Meu psiquiatra me perdoe. Mas quem mesmo tem transtorno? O fofocado, ou o fofoqueiro?…
Márcio Roberto Goes

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Juízes do amor

“Olha a namorada dele. É vinte e dois anos mais nova. Ele não tem vergonha de desfilar com uma menininha dessas de mãos dadas na rua?”… Dizia um homem de quarenta e dois anos à sua esposa, ao voltar de um prostíbulo cheio de novinhas, rumo ao seu lar, encontrar-se com sua família que, certamente jamais ficará sabendo de onde ele chegava… Na porta de casa, observa o casal tão feliz, apaixonado e tão diferentes na certidão de nascimento…

“Meu Deus! Como ela pode namorar alguém pela Internet? Como é que vai conhecer bem a pessoa com quem está namorando? Eu não concordo com isso!”… Fala uma dondoca que não conversa com o marido há dias em virtude de uma discussão que nem ela mesma lembra, a sua amiga, infiel ao marido completa: “Isso não dá certo! Esse namoro não dura muito… Um relacionamento não dá certo quando os dois não se conversam pessoalmente”…

“O que é aquilo? Uma mulher tão bonita, namorando um homem tão feio!”… Exclama uma quarentona que só conseguiu ser bonita para os padrões da sociedade, depois de vinte cirurgias plásticas: Levantou seios, endureceu bunda, tirou gorduras localizadas, corrigiu rugas, marcas de expressão e todo tipo de conserto que só os bons e caros cirurgiões são capazes de fazer… Seu marido, cabelo por cortar, barba por fazer, banho por tomar, unhas por limpar e cortar, barriguinha de tanquinho cheio de roupa (ou de cerveja), joga o sanduíche no canto da boca depois da terceira mastigada e aprova a condenação da esposa, mas não dá a entender para não despertar os ciúmes: “Ele não é tão feio, meu amor!”…

“Não acredito: Uma loira tão linda acompanhada de um negão do beiço virado!” Palavras ditas por um moreno, alto, de olhos azuis cujo bisavô era afro-descendente, mas ele desconhece o DNA que o torna semelhante a qualquer outro ser humano. Seu amigo, sentado ao lado na mesa do bar, onde repartem uma cerveja, cabelo pixaim, olhos castanhos e pele quase marrom declara: “Negão sortudo!”…

“Olha a gordura daquela mulher! Ela é muito feia pro namorado dela!”… Declara a moça que vive brigando com a balança, permanece em regime, se descuidar engorda e fica desesperada, mesmo seu namorado dizendo que a ama com qualquer peso. Mas não é suficiente. Ela precisa agradar a todos e pensa que, se o namorado não está feliz com ela que arranje outra…

“Como pode uma pessoa gozando de plena saúde, ser casada com um cadeirante? A rotina deles deve ser muito difícil. Ela tem que fazer tudo para ele. Eu não aceitaria casar com uma pessoa assim.” Declara a moça, pensando que ser cadeirante é doença e foi educada assim por seus pais que lhe ensinaram a não se aproximar de pessoas estranhas…

“Com todo o dinheiro que aquele cara tem, poderia arrumar algo melhor. Mas foi namorar justamente com aquela menina da favela que não sabe nem falar direito”… Declaração feita por uma moça que explora seu marido. Ele tem que dar tudo pra ela, caso contrário será abandonado. Quando falta dinheiro, brigam e ficam até sem falar, mas quando ele pode levá-la aos melhores lugares, ela fica cheia de amor pra dar…

Você que ama e é amado, cuidado com os juízes do amor! Eles estão em toda parte, fiscalizando seu bolso, seus padrões de beleza, sua cor, seu peso, seus defeitos, sua idade… Se não se cuidar, você poderá se convencer que o seu jeito de amar está errado e tentar fazer do jeito que os esteriótipos julgam certo… O melhor é não levar em conta, pois mesmo que tente ser normal aos olhos dos juízes do amor, eles sempre encontrarão um defeito para sua felicidade…

Márcio Roberto Goes

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O que pagamos?

coronelezequielnoticias.blogspot.com
Fonte: coronelezequielnoticias.blogspot.com

 

– Alô! É da Companhia de Água e Saneamento?

 

– Sim! Em que posso ajudar?

– Eu queria uma informação…

– Pois não?

– Tem certeza que pode me informar corretamente, moça?

– Claro que sim… Estou aqui para isso…

– Acho que você não poderá responder. Até agora ninguém conseguiu…

– Pergunte! Se for possível eu te ajudo…

– Pois bem. A pergunta é a seguinte: O que é que eu estou pagando nesta fatura mensal que recebo na minha caixa de correios?

– É evidente que, conforme especificado na fatura, o senhor está pagando pelo abastecimento de água…

– Tem certeza?

– Claro que sim! O senhor tem um contrato com a empresa que fornece água, é natural que se pague pela água fornecida…

– Tenho minhas dúvidas…

– Não entendi, senhor…

– Todos os dias falta água no meu bairro… seria natural que eu pagasse menos pelo serviço, no entanto, a fatura é a mesma…

– Existe uma taxa mínima a ser paga senhor…

– Entendo. Posso fazer outra pergunta?

– Pois não!

– Se eu atrasar o pagamento, o que acontece?

– Em trinta dias será suspenso o abastecimento em sua residência…

– O que não muda muita coisa, pois quase nunca tem água nas torneiras da minha casa… Mas, me permita mais uma pergunta…

– Pode perguntar, senhor.

– Se eu tiver um consumo acima da média estipulada pela taxa, eu pago mais por isso. Certo?

– Com certeza, senhor!

– E se eu consumir a menos?

– Paga somente a taxa, senhor…

– E se eu não consumir nada?

– Paga a taxa…

– Nos dias em que não tem água, esta falta de abastecimento é descontada da fatura?

– Não, senhor…

– No caso, falta água quase todo dia no meu bairro, que é o maior da cidade… Volto a minha primeira pergunta: O que é que eu estou pagando? Pois água não é…

 

– Infelizmente, não posso ajudar senhor. A Companhia de água e saneamento agradece a sua ligação…

– Obrigado por não poder me ajudar, senhorita…

 

Márcio Roberto Goes
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