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Mês: dezembro 2012

Coisas que eu não consigo fazer

 

Ainda bem que o mundo não acabou, pois tenho uma lista enorme de coisas que ainda não consegui fazer e gostaria de ter a chance de alimentar a esperança de um dia vencer estas minhas deficiências. Resolvi listar algumas. Quem sabe encontro alguém com o mesmo problema que possa me ajudar:

Espirrar de olhos abertos: Impossível, já fiz de tudo, deixei até de tomar o antialérgico para treinar, mas não tive sucesso… Não dá nada, pois ainda não encontrei outro ser humano que tenha conseguido, portanto estou empatado com meus semelhantes…

Iniciar um rolo de papel higiênico sem rasgar: Impossível também! Não sei o que colocam na ponta do papel que não nos permite começar usá-lo sem rasgar umas três voltas mais ou menos. Infelizmente ainda não adquiri habilidade suficiente para fazê-lo, mas não perdi a esperança…

Manobrar o carro ouvindo música: Meu carro atual nem tem aparelho de som, mas quando tinha, sempre precisava baixar, ou desligar o rádio para poder manobrar com mais atenção. Acho que isso é uma característica inerente às mulheres, pois só elas são capazes de fazer cinco coisas ao mesmo tempo dedicando igual atenção a todas elas…

Comer coxa de frango sem usar as mãos e lambuzar totalmente os dedos. Não existe possibilidade. Os talheres jamais terão a mesma destreza dos dedos humanos com polegares opositores. Nenhum garfo, ou faca fará tão bem este trabalho aproveitando ao máximo o alimento…

Conseguir pegar só um guardanapo de papel. Incrível! Mas quando vou a restaurantes, após servir meu prato, tento pegar um guardanapo, mas não consigo… Normalmente eles vêm em grupos de três, ou quatro. Acho que minha coordenação motora fina não foi bem trabalhada no momento adequado…

Usar toalha de papel sem grudar as mãos nela. Essa é outra dificuldade cruel que me tortura há anos. Quando lavo as mãos num banheiro público, ou de rodoviária, tento puxar uma toalha de papel e, a princípio tenho a mesma dificuldade do guardanapo. Depois disso, o problema é enxugar as mãos sem ficar com os restos mortais da toalha grudados em alguma parte da mão…

Falar sem usar as mãos: Sou professor e, como tal, se amarrarem minhas mãos, não consigo falar, pois elas fazem parte da minha linguagem. Mesmo ao telefone preciso gesticular, apesar de meu interlocutor não me enxergar. Isso é tão inútil quanto olhar para os dois lados antes de atravessar uma rua de mão única…

A lista é longa, mas ainda não desanimei… Ah! Quase ia me esquecendo. Também quero aprender a tocar acordeon e viola, nesta já consigo fazer dois acordes. Um bom começo, não é?…

De qualquer forma, conseguindo, ou não vencer minhas esquisitices, e olha que são muitas, desejo a todos um ano novo de muita paz e realizações, com mais vitórias e menos ambições, mais crescimento coletivo e menos crescimento individual… E que nossos novos governantes municipais, tanto no executivo, quanto no legislativo, façam aquilo que prometeram com tanta convicção na campanha, dando atenção a todas as causas populares… Tá aí, mais uma coisa que anida não consegui: Ver um político que trabalhe realmente pelo bem do povo. Normalmente, depois de eleito, precisa defender primeiro os interesses das empresas que financiaram sua campanha…. Será que devo manter a esperança?…

 

Márcio Roberto Goes
www.marciogoes.com.br

 

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Em busca do artista

 

Guiando pela cidade com o fusquinha da cor de seus sonhos, João dos sonhos azuis para no semáforo da parte baixa da avenida Barão do Rio Branco, num desses sábados movimentados que só fazem bem aos favorecidos do capitalismo que lucram em cima da cobiça e das emoções dos seres humanos iludidos pensando que pacotes de presente compram a paz…

Enquanto espera o sinal abrir, recebe todo tipo de panfleto de supermercado e, na faixa de pedestres, surge um jovem, chapéu de tecido listrado preto com branco, camisa azul, bermuda jeans com suspensório e um tênis já surrado pelo tempo. Carrega um monociclo e, debaixo do sol forte, sobe naquela única roda. Lá de cima, mostra ao motorista do fusquinha azul algumas facas. Bate uma na outra a fim de mostrar que são reais, de metal… Então começa o malabarismo: Um show fantástico de equilíbrio, habilidade e perigo… “Já pensou se ele erra o lado e pega a faca pelo fio?” – Pensava João enquanto aprovava o espetáculo com sorrisos e sinais de cabeça… Trocaram olhares por alguns segundos, até que o artista desce do monociclo, dirige-se à janela do fusquinha e estende o chapéu… “Não tenho nada agora!” – Declara, meio contrariado, o João – “Vou ao banco, daqui a pouco, volto”… O artista de rua agradece num portunhol meio complicado…

Abre o sinal e o fusquinha sobe a avenida com aquele ronco inconfundível do besourinho querido por tantos brasileiros… Passando no banco, nosso sonhador de sonhos azuis saca o dinheiro de seu salário e esquece do fato, vai cumprir seus compromissos financeiros na cidade e volta para casa ao meio dia…

À tarde, busca sua namorada no trabalho e, lembrando do fato, conta a ela. Juntos têm a ideia de voltar ao semáforo e procurar o malabarista para dar a devida contribuição pelo espetáculo feito anteriormente… A generosidade é a melhor das qualidades humanas, João e sua namorada são generosos ao extremo… Todo trabalho deveria ter seu devido reconhecimento. Existem várias formas de se ganhar a vida, uma delas é a arte. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, as artes também são uma forma de trabalho. O artista estuda, ensaia, treina várias horas diuturnamente para se preparar. Portanto, merece o reconhecimento pelo seu empenho… João, como gosta de ser justo, vai em busca do artista para cumprir a promessa…

De longe, não foi possível ver o jovem. Pensaram ter perdido a viagem, mas ao aproximarem-se do sinal, lá estava ele, se empenhando novamente para agradar aos olhos e divertir as pessoas que esperavam a hora de arrancar novamente…

João, estaciona o fusquinha da cor de seus sonhos próximo ao semáforo. Ao término do show, chama o artista. Ele, por sua vez, olha para os lados para averiguar se o chamado se referia a sua pessoa e, olhando para João, aponta para si cochichando: “Eu?”… João faz um sinal com a mão para que se aproxime, puxa cinco reais e entrega na mão do artista… “Fiquei te devendo de manhã!” – diz ele com um sorriso… O malabarista olha para ele e agradece, faz o mesmo com a namorada do sonhador de sonhos azuis… Ambos observam. O jovem sai contente e, num gesto impensado, levanta as mãos para o alto fechando os punhos, como que agradecendo a Deus pela contribuição recebida…

Teria alguém reconhecido seu trabalho com alguma contribuição naquele dia?.. Será que seu esforço teria valido a pena até então?… Seriam aqueles cinco reais a garantia de seu lanche?… Infelizmente, aquele que se dedica no trabalho e no empenho de sua arte, dificilmente é reconhecido. Conheço muitos artistas caçadorenses, eu sou um deles, afinal, a Literatura também é arte. E com todos que conversei, ouvi queixas da desvalorização de seu trabalho… Já vi cantores de lanchonete serem vergonhosamente ignorados pelos clientes que não se dignaram largar os talheres, ou interromper a conversa, nem mesmo para aplaudir o empenho dedicado para chegar àquele momento. Já fui condenado por querer ver meus alunos cantando e mostrando sua arte para os diversos públicos… Presenciei a destruição dos grafites maravilhosos de nossos alunos, cobertos com tinta marfim para embelezar a escola… Pois bem, se o objetivo era deixar bonito, não funcionou. Os desenhos feitos pelos nossos amados alunos agradavam muito mais aos olhos, do que aquela cor de vomitado…

Nosso amigo João dos Sonhos Azuis e sua namorada, deram um exemplo de solidariedade, generosidade e reconhecimento do trabalho alheio…

Senhores governantes, aprendam com essas pessoas simples a incentivar e valorizar a cultura em nossa cidade… Chega de ficarmos idolatrando só aqueles artistas reconhecidos no Brasil e mundialmente. Eles já tiveram sua recompensa. Ainda existem muitas pessoas que vivem da arte muito perto de nós e continuam anônimas por não ter acesso à mídia… Infelizmente olhamos tão longe através de uma telinha, mas esquecemos de olhar as maravilhas da arte ao nosso redor… Pior ainda, quando estes artistas anônimos dão o melhor de si e não recebem a devida recompensa… Paga-se cem, ou duzentos reais para viajar quatrocentos e poucos quilômetros a fim de ver um show de rock, patrocinado por uma grande rede de rádio, mas renuncia-se ao show gratuito no parque central, feito por bandas locais, talentosas e empenhadas na sua arte…

Infelizmente, existe uma inversão de valores. Alguns shows são superfaturados e outros permanecem quase no esquecimento, por não terem os mesmos recursos nem os mesmos patrocínios e, portanto, “morrem na casca”… Muitos projetos são engavetados por falta de verba, mas aquele que sobrevive da arte, precisa enfrentar o sol forte em cima de um monociclo, jogando facas para o alto dependendo exclusivamente da generosidade dos seres humanos desumanizados…

Márcio Roberto Goes

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Como é bom voltar

Na rodoviária: “Boa tarde senhora! Pode me dar uma informação?”… Nada! Uma cara de nojo que me olha da cabeça aos pés… Nova tentativa: “Boa tarde, senhor! Preciso de uma informação.”… Nem sequer olha para o transeunte que lhe indaga. Nariz empinado, jeito de doutor, paletó e gravata, maleta preta… Deve ser mais um que enriqueceu explorando a boa vontade e a cobiça do povo, como muitos nesta cidade e em todo o país. Certamente ostenta carrões e mansões, dizendo que conseguiu tudo com os negócios e tenta levar outros desavisados para sua rede fictícia que enriquece poucos vendendo ilusões, enquanto muitos cobiçosos tentam o mesmo, mas não conseguem. Afinal, onde existe um vencedor, é graças ao trabalho de muitos outros perdedores…

Mas nem tudo pode ser espinhos nesta metrópole. No tubo, esperando o ônibus: “Boa tarde!”… O cobrador sequer olha quem o cumprimentou, tampouco responde a gentileza, pega o dinheiro, devolve o troco, sem qualquer contato com o forasteiro… Todos no tubo a esperar a condução de cabeça baixa, alguns usando fones de ouvido, outros brincando com os dedos, outros ainda, lendo… Sou a favor da leitura, mas nesses casos, uma boa conversa seria muito melhor para a vida dos seres humanos ao meu redor e para mim…

O maior ônibus sanfonado do mundo estaciona. Baixa a rampa, abrem-se as portas e, o interiorano aqui tenta entrar numa boa… Em segundos, uma multidão me empurra para dentro do veículo, sem um pingo de educação e, o que é pior, generosidade zero. Idosos, crianças, pessoas com pacotes e sacolas, todos enlouquecidos, como se estivessem nos últimos segundos para o fim do mundo, se dirigindo a algum abrigo subterrâneo que lhes garanta a sobrevivência…

Após, me acomodo confortavelmente, em pé, com duas mochilas, uma no ombro e outra na mão esquerda, restando apenas a direita para se defender dos solavancos, no meio da sanfona. A cada curva, um pé virava e outro ficava. Nunca imaginei que fosse capaz de ter tanto equilíbrio… Para evitar que desconhecidos comecem uma boa conversa, tem uma gravação com voz feminina que informa sempre a próxima parada do ônibus. Novamente, entram em ação, livros e os fones que talvez sejam a companhia de alguém que já saiba de cor onde deve parar e não precisa ouvir atentamente a mulher da gravação… A cada tubo, uma nova avalanche de desesperados entrando e saindo da sanfona gigante…

No shopping. “Olha, uma viola!”… Como bom aprendiz, resolvi exercitar os dois acordes que já aprendi… Não deu dez segundos, alguém, por milagre me dirige a palavra: “Você não pode mexer!”… Assim… Seco, sem cumprimentar, sem me atender como fazem os bons vendedores, sem me mostrar as novidades… Sem um pingo de consideração pelo ser humano que abraçava aquela viola afinada em cebolão ré maior e que, apesar de pouco saber, queria mostrar, para quem fosse o resultado de alguns momentos de estudo autodidata… A intenção de dedilhar também os violões, instrumento que me acompanha desde os onze anos, caiu junto com a esperança de encontrar algum coração no peito das pessoas desta selva de pedras, cobiça, arrogância e egoísmo… Aquela loja de instrumentos perdeu o cliente recém-chegado à cidade. As pessoas ao meu redor conseguiram, pelo menos durante minha estadia por ali, me convencer a ter um comportamento igual ao delas…

Três dias se passaram nesta mesma rotina, tubo, cara feia, ônibus sanfonado, arrogância, shopping, egoísmo, passeio nas ruas, mais cara feia… Finalmente chega o grande dia. Novamente na rodoviária, tentando me virar sozinho, sem abrir a boca para não receber ausência de respostas… Eis que surge meu ônibus. O itinerário: Curitiba – Caçador…

Como é bom poder voltar a minha terra natal!…

Márcio Roberto Goes

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