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Mês: agosto 2012

Robótica desbravadora

 

Cinco bilhões de dólares… Este é o valor investido num produto que vai revolucionar a humanidade, fazendo-a descobrir novos mundos… Um robô, cujo valor foi estimado de tal grandeza que sobrepõe a qualquer valor moral, ou capital que classifica um ser humano, segundo a humanidade desumana…

Lá está ele… Pousou em Marte. Treze minutos depois, a informação chega à Terra, planeta habitado por seres de inúmeras espécies, cuja mais inteligente delas projetou tal aventura… O tal robô tem olhos mas não vê, tem ouvidos mas não ouve, tem cérebro mas não pensa, apesar disso é venerado no planetinha que o enviou. Procura sinais de vida em Marte. Será que vai encontrar? E se encontrar, será possível comunicar-se? Ou será que a vida lá é diferente daqui?…

Curioso e inútil é este projeto que fuça e procura vidas tão longe dos nossos olhos para cuidá-las num BBB intergaláctico… Qual propósito de procurar vidas em outro planeta a não ser compará-las com a nossa, de tal forma a classificá-las, segundo nossos conceitos e preconceitos como melhores ou piores? Aconteceu com os índios no Brasil, com os negros na África e com todas as populações encontradas durante as grandes navegações promovidas pelos europeus… Descobriram novos mundos, subestimaram seus habitantes, tentaram escravizar índios, escravizaram os negros que lutaram até conseguir sua liberdade… (Liberdade?)…

Tenho medo que aconteça o mesmo com os prováveis habitantes de Marte. Espero que a NASA não queira escravizá-los e, no futuro tenhamos que ler notícias falando da libertação dos marcianos pelas mãos de uma princesa Isabel do terceiro milênio… Mas a NASA é do país que quer ser dono do mundo, ex-colonizado e atual colonizador-mor, portanto, de lá do hemisfério norte se espera de tudo…

Meu cérebro utópico, surreal e criativo ainda não conseguiu entender a razão pela qual a humanidade procura vida em outros planetas se ainda não aprendeu a cuidar daquelas que aqui estão. Pessoas fartas contrastando com a fome personalizada e sem perspectiva de mudança, humanos usufruindo de toda tecnologia criada por eles, enquanto seus semelhantes têm acesso negado pelo capitalismo selvagem, também de autoria desta espécie desumanizada…

Somos animais que não sabemos cuidar de nossas nem de outras vidas existentes neste planeta. Não teríamos moral para procurar outras formas de vida fora de nossa esfera…

Amigos da NASA, estes cinco bilhões seriam suficientes para ajudar muitas vidas marginalizadas pela diferença social criada pelo capitalismo. Isso aqui no nosso planeta, onde temos a certeza de sua existência. Ora! Como sou tonto! Que ideia sem fundamento. Esqueço que o capitalismo é isso mesmo: Alguns que se acham superiores só poque têm mais dinheiro, ou estão na cadeira daqueles que pensam que mandam, dominam o restante para que se justifique seu trabalho… Não satisfeitos em dominar os habitantes do próprio planete, agora buscam vida em outros lugares para também dominá-las e cravar a bandeira dos inimigos do mundo, como aconteceu na Lua…

Agora, nos resta esperar que o Pero Vas de Caminha cibernético nos mande notícias do novo mundo a fim de nos gloriarmos com a conquista do universo nos trazendo inúmeros benefícios que sustentarão nosso orgulho de ser a única espécie inteligente o suficiente para conquistar o outros seres e outros planetas…

Curiosos, estamos atentos aos marcianos… Que atenção damos aos sete bilhões de terráqueos nossos semelhantes?

 

Márcio Roberto Goes

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Plateia

Neste momento, meu computador está conectado a um projetor multimídia e, pela primeira vez, estou escrevendo com plateia… Incrível! Mesmo escrevendo, fico constrangido pelo fato de outras pessoas estarem vendo em tempo real…

Mas, enfim, estou na sala de aula, melhor lugar do mundo para se conhecer pessoas e onde me sinto a vontade para divulgar minha modesta obra e descobrir novos talentos para a escrita, música e tantas outras artes que nos tornam seres mais humanos…

Acabamos de ler um pouco da obra de Fernando Sabino, nos emocionamos com “A última crônica”: Assim eu quereria a minha, diante de meus queridos e amados alunos de ensino médio integral…

A sala está compenetrada, cada um produzindo a sua própria crônica para, em breve ser analisada por mim… Eles não sabem (Agora ficarão sabendo), que eu me sinto muito inseguro ao corrigir seus textos, pois tenho medo de cometer injustiças: a gramática é irrelevante em alguns aspectos, mas a ideia conta muito, a sequência narrativa, a construção frasal e a paragrafação. Mesmo assim, nunca será possível avaliar com perfeição um texto de outrem, pois sempre prevalecerá a visão de quem está corrigindo…

Sempre digo a meus alunos para escreverem com o coração, mas a minha correção deve ser feita pela razão e não pelas emoções, do contrário, corro o risco de fazer prevalecer meu ponto de vista e meus gostos, fato que pode abortar as maravilhosas ideias que germinam na mente e no coração de cada estudante… Mas é quase impossível esquecer as emoções ao revisar textos de ensino médio. É inevitável a exposição da opinião filosófica de quem está encarregado de avaliar… Como fazer então? A única forma é tentar se colocar no lugar do aluno, ler com os olhos e o coração dele o seu texto. Mesmo assim, trata-se de algo vulnerável a erros gravíssimos na correção…

De vez em quando, um aluno curioso vem ver o que estou escrevendo na telinha do notebook… Não entendo a razão, pois tudo está escancarado lá no telão para que todos os presentes possam ler. Deve ser curiosidade mesmo. O curioso tem que ver tudo de perto e, se possível apalpar…

Enfim, com algumas interrupções para ler um e outro texto de meus escritores juvenis, pedidos para ir ao banheiro e outras circunstâncias que só se vê em sala de aula, concluo esta crônica… Penso que a vida é assim: Quando temos uma plateia, nos comportamos de forma diferente do normal, mas quando não estamos sendo observados, somos autênticos… Só não sabia que isso acontecia também com os escritores medianos como eu…

 

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